O que é preciso desenvolver para a evolução espiritual


O pesquisador e escritor Raul Branco traz a sabedoria universal que passa pelas diferentes tradições

Por Ana Elizabeth Diniz | Especial para O TEMPOPublicado em 28 de agosto de 2018 | 03h00

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Raul Branco

Pesquisador e escritor

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Aos 80 anos, Raul Branco, economista, pesquisador e autor de quatro livros relacionados à seara espiritual, acaba de lançar “A Essência da Vida Espiritual”, em que apresenta os elementos fundamentais para aqueles que buscam o caminho de consciência e autodescobertas. Enfim, ele traz a sabedoria universal que passa pelas diferentes tradições.

Qual o objetivo do processo evolutivo do ser humano?

Resgatar a consciência de sua verdadeira natureza divina, que está, sempre esteve e estará unificada no todo, na fonte, em Deus. Portanto, a vida espiritual visa criar as condições apropriadas para que a consciência do ser humano seja elevada progressivamente de seus veículos inferiores para sua natureza superior, que é a trindade divina. Esse processo é extremamente longo em virtude da forte identificação da consciência com seus veículos de manifestação. Ao longo desse processo, o homem passa a acreditar na ilusão de que ele é o corpo, em vez da realidade de que tem um corpo. Outra ilusão é a crença de que temos uma alma, em vez da realidade de que somos a alma que usa um corpo. 

A vida espiritual tem um propósito?

Somente quando tivermos desenvolvido nossa consciência muito além do nível de nossa consciência usual de vigília, que atua no nível da mente concreta, será possível nos aproximarmos do conhecimento de Deus. Esse é exatamente o propósito da vida espiritual. Os grandes santos, místicos e iniciados nos asseguram que nas últimas etapas vivenciadas de expansão da consciência conseguiram ter a experiência do conhecimento da verdade e da união com o todo, ou Deus, mas, ainda assim, estão cientes de que não “podem definir o que é Deus”. Essa “experiência” é profundamente impactante. 

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Qual a importância do perdão?

Perdoar é simplesmente uma escolha seletiva de nossas lembranças. Em vez de insistirmos em nos lembrar das coisas negativas do passado, escolhemos nos lembrar dos momentos alegres com a pessoa que queremos perdoar e, então, esquecemos o resto. O perdão radical é o total abandono do passado, em todos os relacionamentos pessoais e dramas coletivos. Perdoar é a decisão de não sofrer mais e curar o coração e o espírito. É a escolha de não dar mais valor à raiva e ao ódio. E é também a renúncia ao desejo de magoar os outros e a nós mesmos por algo que pertence ao passado. Não podemos evitar a consequência objetiva dos atos cometidos no passado, mas não devemos permitir que a culpa ou o ressentimento nos prendam com suas garras. 

Como o senhor vê a participação do ego em nossa vida?

O ego não é uma “criatura” de Deus. Ele é uma criação de nossa mente concreta, uma unidade de consciência inferior que surge quando a mente passa a processar as percepções de nossos sentidos no dia a dia, partindo de ideias que desenvolvemos desde a mais tenra infância, como os conceitos de “eu” e “meu”, bem como nossos valores, crenças e preconceitos. Esse falso eu vai se fortalecendo com o tempo, à medida que a memória acumula as impressões do passado. O ego, que acabamos identificando como sendo nós mesmos, é nosso instrumento para viver no mundo da separatividade. Nossa identificação com o ego explica nossa dificuldade de acreditar que Deus nos ama. A menos que seja possível transcender o conflito de nossa crença no ego e nossa incerteza do amor de Deus, continuaremos aprisionados nas ilusões criadas pelo ego. 

O que fazer com as emoções inferiores?

A mente precisa estar purificada dessas vibrações negativas para que a sintonia com o alto possa ser estabelecida. A grande batalha dos místicos e dos aspirantes ao caminho ocultista é domar seus corpos inferiores. Não se trata de asceses e mortificações do corpo, mas de disciplinar a natureza inferior, dizer “não”, com sábia discriminação, aos desejos e perseverar na disciplina. O objeto de purificação é a mente, e não o corpo. Nossos corpos densos respondem às vibrações mais densas, ou materiais, do mundo em que vivemos. A repetição dessas vibrações densas cria uma predisposição que finalmente gera um condicionamento, prendendo-nos à matéria. A matéria em si não é má nem pecaminosa; é nossa atitude de identificação com o material que cria dificuldades para a expansão de consciência implícita na vida espiritual. O verdadeiro problema é o apego às coisas materiais que, por sua vez, cria um apego à vida neste mundo. 

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Qual o papel da meditação nessa busca?

A meditação é uma etapa avançada da oração. Na prece ou oração o devoto fala com Deus, geralmente para fazer pedidos de toda ordem. Na meditação, ao contrário, o devoto procura ouvir a Deus. Todas as tradições espirituais dizem que Deus fala com a voz do silêncio. Como podemos então ouvi-Lo? Somente fazendo um silêncio total em nossa mente para abrir espaço para a voz inaudível. Existem dois tipos básicos de meditação. O primeiro é a meditação “com semente”, usada para “investigações espirituais” ou para buscar orientação sobre questões específicas nos planos mais elevados. A “sem semente” é a que busca a aquietação total da mente, visando chegar à contemplação, quando o meditador funde sua consciência com a divina. Até mesmo para ouvir a Deus, precisamos nos entregar inteiramente a Ele. O todo precisa ocupar toda a nossa mente, que deve ficar livre de todo intruso, ou seja, dos pensamentos que são representações das coisas do mundo exterior. Com a aquietação da mente, o ego cede o controle ao divino em nosso interior. 

A paz é um dos fundamentos para o progresso acelerado no caminho espiritual?

Sim, e para isso precisamos aquietar as emoções, para encontrarmos a paz interior em todas as situações da vida. Esse processo será grandemente facilitado se o devoto também estiver em paz com o mundo que o cerca. Para isso, as atitudes positivas são as grandes facilitadoras do desenvolvimento da paz. A paz de espírito deve tornar-se nosso principal propósito. Encontrando a paz em nosso coração, naturalmente ela se manifestará a nosso redor. O segredo é dar menos atenção ao que está errado e colocar nosso foco no que está certo. Por isso precisamos nos determinar a elogiar mais e criticar menos. “Ou você age a partir do amor e encontra a paz, ou age a partir do medo e encontra o sofrimento”. Saúde é paz interior; curar é abandonar o medo. Guardar mágoas e pensamentos rancorosos é uma opção por continuar a sofrer. Precisamos ter total confiança em que o perdão é a chave para a libertação e a felicidade, para então agirmos de acordo. A fórmula para a paz é simples: confia, entrega, aceita e agradece. 

Qual nosso papel no plano divino?

Como geralmente não sabemos o que Deus espera de nós, precisamos pedir orientação à voz que fala por Deus (o Espírito Santo, que é a nossa mente superior), com total desapego, sem projetar nossos anseios e devaneios. Quando alguma coisa faz nosso coração leve e feliz é porque Deus está nos dizendo, com a “voz do silêncio”, que essa é uma contribuição que Ele espera de nós. Partilhar nossos talentos é algo que nos faz felizes. 

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Qual o grande desafio da humanidade hoje?

Perceber que existem duas forças fundamentais no universo: a do amor, que está constantemente se doando e procurando se libertar das limitações do pequenino eu; e a do princípio egocêntrico separatista que governa a maior parte da humanidade no estágio atual, e, por isso, gera o medo.

“A Essência da Vida Espiritual”

Raul Branco

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Editora Teosófica

257 páginas

R$ 40

Por journey

system analyst lawyer journalist ambientalist

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