Psicoterapia – Módulo V – Tópicos Avançados em Sexualidade



Índice

Escritos sobre sexualidade 5
Histórico da Sexualidade 6
O Erotismo 21
Anatomia e fisiologia sexual 23
As Fases da Resposta Sexual Humana 23
Disfunções sexuais 26
Transtornos do Desejo Sexual 27
Transtornos da Excitação Sexual 34
Transtornos do Orgasmo 35
Transtorno de Dor Sexual 36
AS PARAFILIAS 37
Exibicionismo 38
Fetichismo 39
Frotteurismo 39
Pedofilia 39
Sadismo e Masoquismo Sexuais 40
Voyeurismo 41
Fetichismo Transvéstico 41
Necrofilia 42
Zoofilia 42
Urofilia 43
Coprofilia e Clismafilia 43
Parcialismo 43
Escatologia Telefônica 44
Masturbação 44
Identidade de gênero e orientação sexual 45
Orientação sexual: “Hetero”, “Homo” ou “Bi”? 46
Transtornos de Identidade de Gênero 48
A VISÃO DE FREUD SOBRE A SEXUALIDADE 49
Resumo dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” 49
Fatores que Perturbam o Desenvolvimento 54
Constituição e Hereditariedade 54
Elaboração Ulterior 55
Recalcamento 56
Sublimação 57
Experiências Acidentais 58
Precocidade 59
Fatores Temporais 60
Adesividade 60
Fixação 61
Escritos de Freud sobre seuxalidade 62
A SEXUALIDADE INFANTIL E A PSICANÁLISE. 64
OS TRANSTORNOS DE SEXUALIDADE. 69
FALTA OU PERDA DE DESEJO SEXUAL. 71
AVERSÃO SEXUAL E AUSÊNCIA DE PRAZER SEXUAL. 72
FALTA DE RESPOSTA GENITAL 72
DISFUNÇÃO ORGÁSTICA 72
EJACULAÇÃO PRECOCE 73
VAGINISMO NÃO-ORGÂNICO 74
DISPAREUNIA NÃO-ORGÂNICA 74
IMPULSO SEXUAL EXCESSIVO. 74
TRANSTORNOS DE IDENTIDADE SEXUAL 74
TRANSEXUALISMO 75
TRANSVESTISMO DE DUPLO PAPEL 75
TRANSTORNO DE IDENTIDADE SEXUAL NA INFÂNCIA 75
TRANSTORNOS DE PREFERÊNCIA SEXUAIS 75
FETICHISMO 76
TRANSVESTISMO FETICHISTA. 76
EXIBICIONISMO. 76
VOYEURISMO. 77
PEDOFILIA. 77
SADOMASOQUISMO. 77
TRANSTORNOS MÚLTIPLOS; E OUTROS TRANSTORNOS 77
TRATAMENTOS 79
UM BREVE HISTÓRICO SOBRE A SEXUALIDADE E FASES
PSICOSSEXUAIS. 81
FASES DO DESENVOLVIMENTO SEXUAL (FASES PSICOSSEXUAIS). 84
PERÍODO PRÉ-GENITAL, PRÉ-FÁLICO OU INFANTIL. 87
FASE ORAL. 87
FASE ANAL. 88
EROTISMO URETRAL 91
FASE FÁLICA. 92
A ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO NOS MENINOS. 94
INVEJA DO PÊNIS NAS MENINAS. 97
PERÍODO INTERMEDIÁRIO. 98
FASE EDIPIANA. 98
A FORMAÇÃO DO SUPEREGO. 100
A RESOLUÇÃO DO CONFLITO EDIPIANO. 105
CASO O CONFLITO EDIPIANO NÃO SEJA SATISFATORIAMENTE
RESOLVIDO O 106
QUE PODE OCORRER: 106
FASE DE LATÊNCIA. 107
FASE DE MATURAÇÃO PSICOSSEXUAL OU PUBERDADE. 108
Polução (Emissão involuntária de esperma). 111
Menstruação ou regras. 111
FASE ADOLESCÊNCIA FINAL E ADULTO JOVEM. 112
SEXUALIDADE DO IDOSO. 112

Este material é parte das aulas do Curso de Formação em Psicanálise.
Proibida a distribuição onerosa ou gratuita por qualquer meio, para não alunos
do Curso. Os créditos às obras usadas como referências ou citação constam
nas Referências Bibliográficas.


Escritos sobre sexualidade

O estudo da sexualidade, para o psicanalista, é questão fundamental em vários
aspectos. Em primeiro lugar está a importância dada por Freud para a
sexualidade, como origem não só de todas as neuroses, como também de
praticamente todo o comportamento humano. Além disso, na prática
psicanalítica, embora no início do tratamento raramente venham à tona as
queixas diretamente relacionadas à sexualidade, invariavelmente estas
aparecerão no decorrer do processo analítico, desde que haja um bom rapport,
e uma disposição do terapeuta no sentido de abordar com naturalidade tais
questões.

Infelizmente, porém a sexualidade está envolta por uma enorme gama de
preconceitos e distorções, por razões históricas, sociais e culturais diversas, e
os profissionais da área de saúde, incluindo os psiquiatras, psicólogos e
psicanalistas, não estão imunes a todas estas influências. O melhor exemplo
disso é o próprio Freud que, com sua decisiva influência na formação e
transformação dos conceitos psicológicos da Humanidade, por vezes contribuiu
para a disseminação de conceitos absolutamente errôneos, que até hoje têm
seus adeptos, como por exemplo, o conceito de que existem dois tipos de
orgasmo feminino, o vaginal e o clitoridiano, sento este último um orgasmo
“imaturo”, e, portanto, indesejável…

Neste módulo, portanto, procuraremos mostrar os principais conceitos,
atualizados segundo os conhecimentos atuais, a respeito da sexualidade,
segundo uma abordagem multidisciplinar, abrangendo aspectos históricos,
sociais, antropológicos, biológicos e psicológicos, além de conceituar os
transtornos da sexualidade, como classificados atualmente pela Organização


Mundial de Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria. Abordaremos
também algumas questões relativas à identidade de gênero e à orientação
sexual, sem no entanto ter a pretensão de esgotar um assunto tão vasto e
abrangente, tão corriqueiro e ao mesmo tempo tão misterioso e, de certo modo,
desconhecido.

Histórico da Sexualidade

Se fôssemos falar da história do sexo, teríamos de começar falando dos
primeiros seres a se reproduzirem de maneira sexuada, ou seja, com
indivíduos distintos trocando material genético, para que a reprodução pudesse
envolver uma maior variabilidade destes mesmos genes. Ou ainda, dos
primeiros seres que passaram a ter indivíduos morfologicamente (e
fisiologicamente também) distintos, iniciando os conceitos de masculino e
feminino.

No entanto, estamos falando de sexualidade, que abrange não apenas os
aspectos biológicos, mas também os muitos aspectos culturais, sociais e
psicológicos, que não podem ser dissociados do estudo da sexualidade. A
história da Sexualidade, então, passa a restringir-se à história da humanidade,
desde o surgimento do homem primitivo, num complexo evoluir de conceitos e
preconceitos, conhecimentos e mitos, conquistas e repressões, dominações e
libertações.

Em vez de detalharmos aqui cada passo desta jornada, deixemos que a
Professora Mabel Cavalcanti, pioneira da Sexologia no Brasil, nos conte esta
história de modo mais poético, em artigo publicado no número inaugural da
Revista Brasileira de Sexualidade Humana.

Parece ter sido Goethe quem afirmou que “a história de uma ciência é a própria
ciência”. De acordo com esta concepção, quando se traça a perspectiva
histórica da sexualidade humana estamos, de alguma forma, investigando a
conduta sexual do homem sob o aspecto científico.

Como não é possível sintetizar tantos séculos em tão pouco tempo, vamos dar
mais ênfase à sexualidade do homem pré-histórico e a de certos povos antigos.

É interessante observar que, neste passeio, se tem a oportunidade de
esclarecer muitas das perguntas atuais sobre sexualidade, porque elas já
foram, de alguma forma, respondidas ou questionadas por nossos
antepassados.

Não é fácil traçar hoje um roteiro da vida do homem pré-histórico, e só
podemos, de alguma forma, realizá-lo através dos restos arqueológicos e dos
estudos etnográficos. Os dados arqueológicos nos dão idéia da tecnologia e
dos costumes daqueles povos, e através dos recursos etnográficos podemos
fazer a comparação dos artefatos encontrados nas jazidas pré-históricas com
aqueles que ainda hoje são usados por grupos primitivos que habitam nosso
planeta.

Nos primeiros tempos da humanidade, as diretrizes do comportamento do
homem eram ditadas por deuses e demônios. Era o que se chama de etapa
mágico-religiosa. Religião e magia sempre foram irmãs gêmeas. Pela religião o
homem reverencia o sobrenatural ou tudo aquilo que ele desconhece; pela
magia ele tenta manipular esse desconhecido.


Esta visão antropossociológica da história da humanidade nos permite
entender muito mais a sexualidade humana do que se olhássemos apenas a
simples evolução biológica do homem como indivíduo.

Estudando as modificações sócio-culturais através dos séculos, é possível
perceber como o homem conseguiu suprir seus desejos básicos, notadamente
os da fome e os do sexo. Estes estudos têm também a grande vantagem de
nos mostrar que existem numerosas variações de cultura nas diversas
sociedades, e que, em cada um destes grupos, a conduta e as preferências
sexuais variavam de um indivíduo para outro.

É nos ciclos culturais sucessivos que podemos situar e descobrir a gênese dos
comportamentos sexuais de hoje. A sexualidade que vivemos nada mais é do
que aquilo que a humanidade fez dela, ou o que foi obrigada a fazer, face às
contingências ambientais.

Para melhor nos situarmos, vamos, de modo sintético, tentar enfocar a
sexualidade sob os aspectos da reprodução, prazer e amor ao longo dos
séculos.

No que diz respeito à reprodução, embora o tema esteja envolto por muita
nebulosidade, tudo faz crer que nas fases mais antigas o homem não
associava o sexo com a gravidez. A gestação era considerada como sendo um
acontecimento mágico, um presente dos deuses, tanto quanto a fertilidade da
terra. Talvez tenha sido por esta razão que, nas tribos que iniciavam a
atividade agrícola, a função da semeadura era realizada pelas mulheres.

Sabemos que, ainda hoje, entre certos povos primitivos, como os nativos da
Austrália, a idéia do sexo/reprodução não está bem elaborada. Entre os


Aruntas, por exemplo, existe a crença de que os espíritos infantis habitam
determinados totens e que, sob certas condições, eles podem penetrar no
corpo das mulheres. Mais interessante ainda é a idéia dos antigos habitantes
da Nova Guiné que acreditavam haver uma total independência entre o ato
sexual e a gravidez. Eles afirmavam que as mulheres gestavam, primeiro, no
coração, com amor, e só depois o feto se deslocava para o útero. O lirismo
desta concepção nos dá também a dimensão e o valor referido à mulher nestas
culturas primitivas.

Em contrapartida, o homem, nos estágios mais primitivos de nossa evolução,
buscava a mulher apenas para acalmar suas tensões sexuais. Nesta procura, a
violência geralmente era a tônica e a posição do coito era a mesma dos outros
primatas, numa flagrante identificação com o reino animal. Não é de admirar,
portanto, que nesta época a valorização das nádegas, como atrativo erótico,
fosse máxima.

Quando se tem a possibilidade de observar as estatuetas das Vênus pré-
históricas, vemos a nítida preocupação em ressaltar as ancas, as nádegas, os
seios e o ventre. Há descaso pela cabeça, pelo rosto e até pelos ombros. Isto
se pode observar claramente com a Vênus de Lespugne, entre outras. De
todas, porém, a mais obesa é a chamada Vênus de Willendorf, encontrada na
Áustria. A monstruosidade de suas formas supera todos os padrões
surrealistas modernos, mas como o conceito de beleza é muito relativo, talvez
ela tenha sido uma espécie de protótipo paleolítico da Garota de Ipanema.

Há quem afirme que a acentuação das formas, notadamente a dos seios, tem
relação com o culto à fertilidade. Parece, no entanto, que foi a preocupação
erótica que inspirou estes artistas pré-históricos, tanto na confecção das
estatuetas quanto das pinturas rupestres que são encontradas no interior das
cavernas. Aliás, muitas delas fariam inveja aos mais capacitados pintores de
banheiro da atualidade.

Um fato que corrobora a inspiração erótica de nossos antepassados mais
distantes é a própria característica da vida econômica dessas populações
primitivas. Vivendo da caça, da pesca e da colheita de frutos, eles eram
obrigados a se deslocar com freqüência de uma região para outra. É claro que
estes indivíduos não estavam muito preocupados em exaltar a maternidade,
uma vez que uma prole numerosa certamente dificultaria as constantes
caminhadas de sua vida nômade.

Há também dados antropológicos, muito convincentes, que demonstram que,
nesta época o infanticídio era prática comum de controle populacional. É
preciso entender que o homem era um mero depredador da natureza e
qualquer ameaça de superpopulação acarretava um perigo para a tribo. Não
havia, portanto, porque exaltar a maternidade e a procriação. Esta exaltação
ocorreu sete milhões de anos mais tarde, quando começou a chamada
revolução agrícola, com o homem se fixando na terra e dela procurando tirar o
seu sustento.

É preciso esclarecer que a revolução agrícola, ou seja, a modificação da
condição nômade para sedentária, não se deu simultaneamente em todas as
tribos. Algumas permaneceram no estágio da caça, mas outras foram se
estabelecer nos vales, à beira dos rios, para viver da terra como lavradores.

A atividade de pastoreio ainda, de uma certa forma, implicava em
deslocamentos em busca de pastos melhores, mas as tribos, à medida que
domesticavam o gado (eqüinos e caprinos) já se fixavam em uma determinada
região. A agricultura, no entanto, foi que determinou a necessidade de criar
vínculos muito mais estreitos com a terra. O agricultor é basicamente um
sedentário, agarrado ao solo, tão preso a ele como as raízes das plantas que
cultiva.

Ao assumir o papel de lavrador, a prole passou a ser considerada uma coisa
muito importante. O homem passou a se preocupar tanto com a fertilidade do
solo quanto com a fecundidade de suas mulheres. Filhos, sobretudo os do sexo
masculino, eram importantes para a defesa do território e o cultivo da terra.

Datam desta época os chamados cultos à fecundidade, e a mulher, tanto
quanto a terra, passou a ser venerada por sua capacidade procriativa. Deusas
da fertilidade proliferaram; cada tribo inventava suas próprias divindades,
dando-lhes sabedoria e onipotência, para depois curvarem-se diante da própria
criação, adorando-a. E não ficavam somente nisto. Para ampliar os domínios
de sua crença, conquistavam outras tribos, subjugando-as e impondo-lhes seus
credos e divindades. Nesta etapa da vida pré-histórica, a religião universalizava
a cultura.

Nos ritos, onde abundavam oferendas, danças e cânticos, os sacrifícios tinham
um lugar proeminente. Como a morte está muito vinculada à perda de sangue,
o valor do sangue fica associado à vida, daí os sacrifícios com imolação de
animais e pessoas, com o sangue correndo abundantemente pelos altares.
Provavelmente seja esta a origem mais distante dos mitos sobre a
menstruação. A mulher menstruada “perdia vida”, algo mágico e inexplicável,
daí o temor e os tabus ligados ao catamênio. Toda uma concepção mítica se
formava em torno deste fato nuclear. A menstruação era algo que eles não
sabiam explicar, passando então a ser evitada, as pessoas fugindo dela, como
coisa perigosa e impura. Em nossos dias o tabu da impureza ainda vigora entre
os judeus ortodoxos, sendo muito encontrado, de forma atenuada ou
dissimulada, em toda a civilização ocidental.

A importância do sangue na religião e na magia é tão grande que, entre os
primitivos habitantes da Austrália, no ritual da puberdade masculina, um ato


sangrento (um pequeno corte perto do escroto) concedia aos rapazes o mesmo
direito que era dado às raparigas púberes.

Mas, o fato é que o homem ainda não era visto como elemento fundamental no
processo reprodutivo. A reprodução era prerrogativa exclusiva da mulher, e
praticamente todos os deuses eram do sexo feminino.

Com o passar dos tempos, pouco a pouco, crescia a consciência do papel do
homem na reprodução. Basta observar que entre os Buka, tribo primitiva das
Ilhas Salomão, embora desconhecessem o poder criador do sêmem, eles
acreditavam que era essencial, para a mulher ficar grávida, que o homem
introduzisse o pênis dentro da vagina. Era como se o pênis, exercendo seus
movimentos, aprovasse a gravidez.

Tannahill refere que foi a observação do cruzamento de animais a do tempo de
duração de gravidez, a partir do coito, que fez com que o homem começasse a
perceber seu enorme potencial reprodutor. Afinal; se um só carneiro podia
fecundar mais de cinqüenta ovelhas, o que não poderia fazer um só homem.
Começa ai as sementes do sexismo machista.

Na organização da vida religiosa, ao lado das deusas da fertilidade, começam
a aparecer deuses masculinos. Culto à vulva e culto ao pênis. Mas este
equilíbrio foi muito passageiro. O esquema primitivo não tardou a se inverter. O
falo passou a ser o símbolo da força, da fertilidade, o talismã contra a
esterilidade.

Nos ritos de criação o pênis aparece, de forma clara ou simbólica,
representado por peixe ou serpente, mas sempre com um papel
preponderante. A serpente, provavelmente por sua forma, foi amplamente


venerada como um símbolo fálico. Nos tempos gregos era comum se encontrar
serpentes vivas, junto às sacerdotisas nuas. Tornou-se famoso, no Oráculo de
Delfos, o culto a Píton, a serpente sagrada. Nas escavações da Babilônia,
Índia, China, Sudão, Palestina, França, Córsega, México e Argentina foram
encontrados vestígios deste culto.

Conta-se que na Alexandria havia uma procissão com um falo gigantesco, de
cerca de 120 braças de comprimento. Monumentos de pedra com falos de 1,80
a 3,0 metros de altura são frequentemente encontrados na Ilha de Córsega.
Contudo, de todas as representações lícitas, as mais notáveis são as duas
estátuas de enormes pênis, com 60 metros de altura cada uma delas, que
montavam guarda no templo de Vênus, em Herápolis. Embaixo delas era bem
visível a inscrição: “Consagrei estes falos a Hera, minha sogra”. A razão desta
homenagem ainda hoje está para ser esclarecida…, mas o fato é que as
pessoas iam para o alto destes pênis orar, fazer abstinências e sacrifícios.

A deificação do falo pode ser exemplificada com a veneração a Príapo, o qual
mantinha um enorme pênis ereto. Príapo, na mitologia grega, simbolizava a
fartura e a fertilidade, daí o porque agricultores e pastores lhe emprestavam tão
grande apreço.

Entre os romanos era comum os amuletos em forma de pênis e até um pênis
alado era colocado no pórtico das residências, encimado pela inscrição: “Hic
habitat felicitas” (Aqui mora a felicidade).

O culto fálico não é só observado entre os gregos e romanos. Vemos sua
presença nos hindus, nos japoneses e até em algumas tribos de negros
africanos. Na própria França, conta-se que perto da vila de Gueret se cultuava
São Greluchon. O santo era representado pela imagem de um frade com pênis
ereto, escondido sob a túnica eclesiástica.

Ainda hoje sofremos a influência destas crenças. Uma delas é a linguagem
fálica das mãos, onde o dedo médio em riste representa o pênis, enquanto o
indicador e o anular dobrados fazem as vezes de testículos. A “figa”, que se
representa colocando-se o polegar entre os dedos médio e indicador, é outra
simbolização peniana. Para alguns povos ela é mais do que isto, é um convite
à cópula. Em certas regiões rurais da Europa fazer figa é um tremendo insulto,
em outras, é uma forma discreta de “cantada”. No Brasil a figa assume uma
conotação mística e protetora, dando sorte a quem a usa, defendendo-o contra
todos os males.

É interessante observar que não é só o aspecto qualitativo que marca o culto
fálico através da história. É também importante as dimensões do pênis, e esta
preocupação quantitativa chega a ser de tal forma que se julga o homem pelo
tamanho do pênis que possui. Quanto maior o pênis mais macho era o
indivíduo. De alguma forma, este mito chegou até nossos dias, infernizando as
pessoas que possuem pênis pequenos.

Uma etapa mais avançada sobre as idéias do sexo/reprodução é aquela em
que se atenua a importância fálica e se passa a considerar a mulher mais do
que um simples receptáculo para o desenvolvimento fetal. Ela ganha o status
de colaboradora no processo da criação.

É interessante observar como esta colaboração se efetua.

Como sempre, há uma tendência de confluírem mitos distintos. Entre os
Wogeos da Nova Guiné, é da mistura do sangue menstrual com o esperma que
nascem os filhos. Numerosas crendices proliferam nesta mesma linha. Até
mesmo o grande Aristóteles (De Geracionem Animalibus) afirma que a mulher
contribui para a gestação com o sangue menstrual. Para Hipócrates e Galeno a
contribuição são as secreções da vagina.

Os costumes variam de povo para povo, mas sempre se encontra a idéia do
sexo ligada à função reprodutora.

Entre os índios Bororós há uma crença que as crianças são geradas em
múltiplas cópulas, com vários homens. Deste modo, é desejável a relação
sexual com parceiros diferentes. Em contrapartida, os índios Man, da
Guatemala, afirmam que a mulher que cópula duas ou três vezes com o marido
e não engravida é adúltera. Isto porque, para eles, ter relação com mais de um
homem impede a concepção.

Mais fantástica ainda é a idéia dos índios Kubeo que proíbem o coito da mulher
durante a gravidez. Dizem que se a mulher continuar a copular, pode acumular
tal número de fetos no abdômen que terminará por explodir.

Embora seja encantador estudar as relações entre sexualidade e reprodução, é
preciso valorizar as etapas em que o homem primitivo passou a olhar o sexo
em um sentido mais de prazer do que de procriação.

Quando na evolução biológica o homem assumiu a posição ereta e, sobretudo,
quando se difundiu a cópula face a face, os conceitos de beleza começaram a
ser modificados. A atração das nádegas passou a ser substituída pela beleza
do rosto, dando origem ao aprimoramento dos cosméticos, destinados ao
embelezamento facial.

Paralelamente, os seios foram também hipervalorizados como regiões eróticas.
Os povos foram deixando de ser “bumbundófilos” e passaram a ser
“mamófilos”. É claro que esta fixação nem sempre obedece a uma necessária


ordem de aprimoramento específico. No Brasil, por exemplo, as nádegas são
muito mais admiradas do que os seios.

A idéia do sexo ligado ao prazer é bem definida pelos gregos. Eles chamavam
de Eros ao amor carnal, bastante diverso do amor puro, espiritualizado, e que
intitulavam de Ágape. Ambos eram distintos de Filos, que indicava afeição e
amizade.

É próprio do pensamento grego, estabelecer no homem, uma natureza
dicotômica. O ser humano é definido como sendo “animal racional”. Racional
porque é dotado de razão e de valores espirituais; animal porque é possuidor
de um corpo que está cheio de necessidades físicas para sua manutenção. É
neste sentido que se deve entender a conceituação de Eros e Ágape. Eros é
biologia pura, falta-lhe a humanização que caracteriza a “pessoa humana”. Ele
é a afinidade de corpos e, como tal, encerra sensualidade a sexualidade.

Seu imperativo é egoístico. “Eu quero” é a tônica. Há todo um compromisso de
prazer a de posse, mas não há necessariamente nenhum vínculo de
permanência. Por esta razão, Eros deseja a variação constante em sua eterna
busca pelo prazer.

O espírito dual dos gregos aplicava-se à constituição da família, sendo possível
distinguir muito claramente o papel das “esposas” a das “heteras”. As esposas
eram para o governo da casa, para procriar e criar filhos, mas não para a
satisfação sexual. Nestas condições, não era de admirar que elas procurassem
nos relacionamentos homossexuais, ou com o emprego dos dildos (pênis feitos
artificialmente e compartilhado geralmente por muitas damas), o prazer que lhe
era negado pelo esposo.


O sexo/prazer era destinado às heteras. Algumas delas foram famosas na
Antiguidade: Tais, a bela amante de Alexandre Magno; Aspásia, a inteligente
companheira de Péricles; para não falar em Frinéia, Filomena, Rodopis, Glicera
e tantas outras que subjugaram, pelo prazer, homens que dominaram impérios
e escreveram a história de nossa civilização ocidental.

A diferença entre Eros e Ágape é tão significativa que um mesmo indivíduo
pode possuir dois amores, cada um deles com um objeto diferente. Amar
sexualmente uma parceira e espiritualmente outra.

Renascendo das ruínas da civilização greco-romana, o cristianismo continuou a
admitir que o sexo fazia parte do componente animal do homem. Durante
muitos séculos a Igreja considerou o amor sexual como um amor inferior,
apenas admitido com a finalidade de procriação. É que o código da moral cristã
estava baseado na noção de “natureza”, considerando-se que um ato é bom
quando está de acordo com os propósitos da natureza e ruim quando não está
dentro destes propósitos. Assim, fome e sexo se equilibram em valores de
permanência: a fome preserva o indivíduo; o sexo preserva a espécie. Ainda
hoje este conceito persiste nas alas mais conservadoras, considerando-se que
o verdadeiro amor que enobrece o homem é o amor espiritual, uma espécie de
amor superior, assexuado, digno da condição racional do homem. É
interessante como se estabelece assim um paradoxo: o amor sexual, inferior,
gerando o amor espiritual, superior. Isto porque sem sexo não haverá indivíduo
e sem indivíduo não haverá amor humano espiritual.

É interessante observar que, do ponto de vista moral, estas duas concepções
prevalecem alternando-se através dos tempos: ora indulgente e tolerante, ora
repressiva e tirânica. Usando o pecado e a vergonha como forma de controle, a
moral do comportamento sexual vai regendo os povos ao longo de suas
existências.

É preciso que nos libertemos do dualismo grego e passemos a observar o
amor sexual não como uma forma superior ou inferior ao amor espiritual. Na
própria natureza do homem o “racional” e o “animal” estão intimamente unidos,
assim também devem estar o amor sexual e o amor espiritual. Mesmo porque,
se quisermos fazer uma avaliação correta entre o que é “normal” e “anormal”
no comportamento humano, devemos admitir que o conceito de normalidade
nem sempre está atrelado ao da natureza biológica. “Normais” são também as
pautas de conduta adotadas pela coletividade e não apenas aqueles
comportamentos que procuram satisfazer as necessidades puramente
biológicas da natureza.

Sem desejar subestimar as variáveis organísmicas, é necessário acrescentar à
natureza humana os componentes culturais. Dentro desta ótica, é possível
entender como variações: a felação, a cunilíngua, a masturbação, a
contracepção que, naturalmente, repugnam os moralistas ortodoxos que,
presos ao conceito restrito da “natureza”, consideram tais atos como anti-
naturais.

De tudo isto resta-nos uma grande lição. Sexo simplesmente como forma de
prazer ou simplesmente como forma de reprodução dá uma idéia incompleta
da sexualidade e não satisfaz o homem. Ele é as duas coisas e mais ainda, ele
é acima de tudo uma forma de comunicação.

Eric Berne afirma que “a humanidade deu um grande salto ao separar os
prazeres do sexo de seu propósito biológico meramente reprodutivo”. O
homem é a única forma de vida deste planeta capaz de fazer semelhante
arranjo. Arranjos que poderão leva-lo a um patamar mais sólido. Quebrando as
barreiras do seu isolamento psicofísico, o homem pode se prolongar em sua


parceira como uma forma mística de comunhão primordial. Este sentido místico
se observa nas religiões orientais.

Sexo é comunicação amorosa e, como se trata de uma atividade a dois, faz-se
necessário uma retroalimentação de informações, o que amplia ainda mais a
estimulação erótica. Sexo é diversão, prazer, êxtase. É a soma total de Eros e
Ágape. Vivendo a plenitude da sexualidade, dando e recebendo amor, é que
seremos capazes de planejar a reprodução da sexualidade, dando e recebendo
amor, é que seremos capazes de planejar a reprodução num clima de respeito
e de decisões mútuas.

Só assim o exercício do comportamento sexual alcançará sua forma mais
criativa, mais prazerosa, mais íntima e mais perfeita de comunicação humana.

“Homem Cobra Mulher Polvo”

É da natureza biológica, cromossômica do homem e da mulher ter
comportamentos distintos. Os hormônios são fundamentais neste processo,
pois agem impelido o homem pela testosterona a procurar fêmeas e espalhar
seus genes pelo mundo. A mulher para atrair o macho precisa ter quadris
largos que agasalhem bem a gravidez. Mas a natureza deu ao ser humano o
instinto de autopreservação, e primeiro ele satisfaz as próprias necessidades e
desejos para depois perpetuar a espécie. Sexo primeiro,
paternidade/maternidade depois.

As diferenças são percebidas em diversos âmbitos, bio-psico-sócio-econômico-
cultural-espiritual. Na personalidade, não apenas entre os gêneros masculino e
feminino, mas na identidade e papel de gênero, e na orientação sexual.

Apesar de todo determinismo cromossômico, a vida sexual dos seres humanos
tem uma diferença fundamental das outras espécies: o “Como Somos” que nos
dá a racionalidade, a inteligência, a criatividade e motivações únicas que
transformam o simples ritual biológico do instinto sexual numa história de amor,
única, verdadeira, espiritualizada, cultural. O Amor se constrói nas diferenças.

“O afeto nosso de cada dia”

Isto só ocorre porque possuímos um conjunto de sentimentos que chamamos
de Comportamento Emocional, que é a forma de dar e receber afeto.

“A Afetividade é um conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob
forma de emoções, paixões e sentimentos acompanhados sempre da
impressão da dor, ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou
desagrado, de alegria ou de tristeza”.

O Afeto nosso de cada dia que devemos considerar sob a mais simples forma
de atenção, podendo ser positiva ou negativa. Afeto positivo que possibilita ao
outro um contínuo crescimento, mobilizando fatores essenciais na construção
da auto-estima.

Edina Bom Sucesso aponta para alguns pontos que considera importante para
a construção da auto-estima: auto aceitação – admitir nossos limites e
reconhecer os dos outros; respeito – expressar adequadamente as emoções,
saber escutar, guardar sigilo, desculpar-se, etc.; apoiar as iniciativas – conduta
assertiva, autodisciplina; relacionamento de amizade; além de elogios
verdadeiros.


“Com-Vivemos” em sociedade rodeados de pessoas dos mais diversos tipos e
comportamentos, às vezes tão diferentes dos nossos que poderiam dificultar
nossa convivência, no entanto se fossemos exatamente iguais as coisas não
seriam mais fáceis.

Aposto que você tem aquele casal de amigos, que você não entende como
ainda estão juntos, pois brigam o tempo todo.

  • Você pegou o controle remoto? Eu disse que não era pra tirá-lo do lugar!
  • Viu, eu não falei que o caminho estava errado! Se você tivesse ido por
    onde eu avisei….

Todos nós, até podemos viver sem a relação sexual, mas ninguém sobrevive
sem afeto. Para tanto algumas atitudes nos favorecem e ao parceiro também,
contribuindo para que a convivência seja o mais coerente possível.

O amor, o diálogo, o elogio, o toque corporal, a comunhão, a assertividade, a
espiritualidade, as fantasias, a cumplicidade e o erotismo são pontos chaves no
desenrolar de um relacionamento sadio e promissor. Muitas das dificuldades
entre os casais em seus relacionamentos e até na cama estão intimamente
atribuídas a um destes aspectos, senão a todos.

O Erotismo

Estudos demonstram que existe uma diferença na visão masculina e
feminina do erotismo:

COMPORTAMENTO ERÓTICO


Visão masculina

Visão feminina

Centraliza o exercício da sexualidade
na

Deseja ser considerada, admirada
e

ereção

acariciada como todo.

Visão parcial

Visão total

Interesse instantâneo desaparece
após a

Desejo contínuo permanece após
o

ejaculação

orgasmo

Prazer inicia com a visão do próprio
membro

Afeto, emoção, ternura,
sinceridade,

ereto

doçura estimula o erotismo

Maior estímulo visão

Maior estímulo toques e odores

Evidencia mais a genitalidade

Sexualidade é evidência prioritária

Orgasmo é orgasmo

Orgasmo é avaliado em relação
ao

antes e depois

Orgasmo é quantitativo

Orgasmo é qualitativo

Estas posições ambíguas geram, muitas vezes inseguranças. Esse
desencontro se faz justamente em detrimento das desinformações e
dificuldades de diálogo entre os sexos. O importante é captar as virtudes do
masculino e do feminino, sem se importar se é homem ou mulher, agregando
qualidades e habilidades, utilizando de todo afeto positivo.

Anatomia e fisiologia sexual

O Psicanalista não tem que necessariamente conhecer em detalhes a
anatomia sexual. Cabe ao médico diagnosticar e tratar problemas
relacionados a distúrbios anatômicos, biológicos, dos órgãos envolvidos com a
sexualidade. Faremos aqui apenas uma revisão rápida da anatomia dos
órgãos genitais, para que possamos compreender a sua fisiologia e os
distúrbios que podem ocorrer na função sexual.

As Fases da Resposta Sexual Humana

O estudo do funcionamento sexual humano, do ponto de vista fisiológico, só
foi iniciado de modo científico a partir de 1954, com os estudos de William
Masters e Virgínia Johnson, cujos resultados foram publicados pela primeira
vez em 1966, no livro “A Resposta Sexual Humana”. Até então, só se tinha
estudado o sexo do ponto de vista da reprodução, deixando a sexualidade
para os estudos sociológicos e psicológicos. Sem a base biológica, muitas das
teorias e conceitos psicológicos e sociológicos acabaram exagerando em suas
interpretações, perdendo grande parte de sua validade. Basta ter os conceitos
de Freud acerca da sexualidade feminina, hoje considerados inválidos e, em
alguns pontos, absurdos.

Masters e Johnson dividiram a resposta sexual em quatro fases, conhecidas
como o modelo EPOR da resposta sexual. São estas: a Excitação, o Plateau,
o Orgasmo e a Resolução. Tais fases estariam presentes tanto no homem
quanto na mulher, embora algumas diferenças tivessem sido detectadas.
Basicamente, o homem teria uma fase de excitação geralmente mais rápida, e
uma fase de resolução onde há um período refratário, logo após o orgasmo,
em que a excitação seria impossível. Já na mulher, a excitação poderia seguir
padrões variáveis, desde uma fase rápida, como a do homem, seguindo-se o
plateau, até uma excitação mais lenta, que atingiria o orgasmo sem passar
pelo plateau. Também o período refratário estaria ausente, possibilitando à
mulher os orgasmos múltiplos.

Helen Singer Kaplan, no decorrer da década de 1970, modifica esta divisão,
diminuindo a importância da existência ou não da fase de plateau, e
desconsiderando a fase de resolução, por considerar clinicamente
insignificantes estas fases. Inicialmente abordando a resposta sexual como
bifásica, ou seja, compreendendo excitação (o que englobaria as fases E e P
de Masters e Johnson) e orgasmo (fase O de Masters e Johnson), Kaplan logo
percebeu que uma outra etapa é de fundamental importância no ciclo da
resposta sexual: a fase do desejo! Depois de alguns anos trabalhando com
terapia sexual, Kaplan percebeu que as técnicas de terapia breve, cognitivo-
comportamentais, que eram utilizadas com todos os pacientes, funcionavam
muito bem em problemas como anorgasmia, vaginismo, disfunção erétil e
ejaculação prematura, porém quando havia uma diminuição do desejo sexual,
a terapia tendia ao fracasso. Em 1979, com o livro “Disorders of Sexual Desire”
(Transtornos do Desejo Sexual), Kaplan estabelece o modelo trifásico da
resposta sexual, mais apropriado como base para o diagnóstico e o tratamento
dos transtornos sexuais.


Deste modo, podemos hoje esquematizar desta forma a resposta sexual
humana:

Estímulo -> Desejo

|

Excitação

|

Orgasmo

Cada uma destas fases tem a sua própria fisiologia, cuja descrição foge ao
escopo desta aula. É suficiente dizer que envolve mecanismos psicológicos,
neurológicos e vasculares, sendo estes últimos os responsáveis pelos
fenômenos observáveis da excitação, ou seja, a ereção, no homem, e a
lubrificação vaginal, na mulher. No entanto, qualquer tentativa de simplificação
daria uma falsa impressão da verdadeira complexidade da neurofisiologia da
resposta sexual.

É importante ressaltar, entretanto, um único ponto que é motivo de
controvérsias, e também críticas à Psicanálise. Trata-se da questão do
orgasmo feminino, que foi considerado por Freud como podendo ser originado
por dois tipos de estímulos: o vaginal e o clitoridiano. Mais ainda, Freud afirmou
ser o orgasmo vaginal o único “correto”, considerando “imaturo” o orgasmo


clitoridiano. Fisiologicamente, não existe diferença entre o orgasmo resultante
do estímulo direto do clitóris e aquele decorrente do coito, uma vez que os
movimentos coitais estimulam, através da tração dos pequenos lábios, pelo
menos de forma indireta o clitóris. Mais ainda, uma certa porcentagem das
mulheres não têm orgasmos apenas pela penetração, sendo necessária a
estimulação direta do clitóris, seja pelo parceiro, seja por si mesma, não sendo
consideradas “anormais” por isso.

A partir da divisão da resposta sexual em fases, podemos classificar mais
adequadamente os diversos problemas que podem ocorrer com a mesma, no
intuito de orientarmo-nos para o tratamento mais adequado de cada transtorno.
Mas não basta apenas classificá-los segundo a fase da resposta
comprometida. Para uma boa chance de sucesso terapêutico, devemos
pesquisar as possíveis causas dos transtornos apresentados.

Entre as causas de transtornos sexuais, observamos desde causas orgânicas,
interferindo nos diversos níveis da resposta sexual, até causas psicológicas
profundas, envolvendo transtornos cujas raízes encontram-se em fases
remotas da história psíquica do indivíduo, passando por causas psíquicas
menos profundas, seja individuais, seja do casal, e até por questões sócio-
culturais e circunstanciais.

Cabe ao psicanalista atuar em conjunto com os outros profissionais (sexólogo,
médico), atuando principalmente nas causas psíquicas profundas, mas também
auxiliando na abordagem das causas psíquicas mais imediatas, sendo
essencial uma postura aberta e não preconceituosa em relação à sexualidade.

Disfunções sexuais


De acordo com o modelo de Kaplan, os transtornos sexuais foram classificados
em transtornos do desejo, da excitação e do orgasmo. Não se encaixam nestas
três categorias os transtornos caracterizados por dor à relação sexual
(vaginismo e dispareunia), e foram colocadas à parte, na classificação, as
disfunções causadas por condições médicas (orgânicas), e as induzidas por
substâncias químicas (tanto substâncias ilegais quanto medicações utilizadas
para fins terapêuticos). Também estão classificadas separadamente as
parafilias, também denominadas desvios sexuais, que foram estudadas por
Freud de modo ainda preconceituoso, embora menos agressivo que a
abordagem vista até então, dando-lhes inclusive a alcunha de perversões.

Transtornos do Desejo Sexual

Inicialmente desconsideradas, devido à visão de Masters e Johnson, que
considerava a resposta sexual apenas desde a fase de excitação, as queixas
de diminuição de desejo sexual estão, atualmente, entre as mais freqüentes no
atendimento sexológico. Nas últimas duas décadas, um número significativo de
pesquisas abordou o tema do desejo sexual, principalmente pela constatação
de que algumas situações orgânicas podem afetar negativamente o desejo,
como produção alterada de hormônios e efeitos colaterais de medicações.

Os transtornos do desejo estão subdivididos em três categorias: desejo sexual
hipoativo, aversão sexual e desejo sexual hiperativo. No entanto, ao
considerarmos um casal, existe uma possibilidade de existir uma inadequação
quanto ao desejo, sem que haja um verdadeiro transtorno, uma vez que o
desejo sexual considerado como “normal” tem uma grande variação. Como
exemplo, um casal onde um dos parceiros gostaria de ter uma freqüência de
relações sexuais de uma vez por semana e o outro preferiria tê-las duas vezes
ao dia, pode ter problemas importantes no relacionamento, sendo considerado


um casal inadequado, embora ambos estejam dentro da faixa considerada
“normalidade”.

Pode parecer estranha a inclusão de uma categoria para desejo sexual
hiperativo, mas esta é justificada pela ocorrência de casos onde existe uma
falta de controle sobre os impulsos sexuais, com comportamento sexual
impulsivo, freqüência alta de relações ou atividade masturbatória (várias vezes
ao dia), chegando a comprometer o funcionamento profissional ou social,
prejudicando os relacionamentos pessoais, e levando a sofrimento pessoal. Os
indivíduos com desejo sexual hiperativo podem ser considerados como
pessoas com “compulsão pelo sexo”, lembrando o transtorno obsessivo-
compulsivo, porém, com características nitidamente diversas deste. As
classificações oficiais do DSM-IV e do CID 10 ainda não aceitaram a inclusão
desta categoria, porém KAPLAN (1995) afirma categoricamente a necessidade
de seu diagnóstico.

Do outro lado do “contínuo” do desejo sexual estão as aversões sexuais. Estas
são caracterizadas por aversão extrema e evitação, persistentes ou
recorrentes, a todo (ou quase todo) contato sexual genital com um parceiro,
causando sofrimento ou dificuldades interpessoais importantes. As aversões
podem ser “primárias”, ou seja, existirem por toda a vida, ou adquiridas, ou
seja, iniciadas após um evento ou situação traumática. Também podem ser
generalizadas, independentes do parceiro, ou situacionais, dependendo de um
parceiro ou de uma situação específicos.

Já o desejo sexual hipoativo pode ser de leve a grave, caracterizando-se
por fantasias e desejo sexuais persistentes ou recorrentemente
deficientes (ou ausentes), devendo ser levados em conta para sua
caracterização fatores como idade e o contexto da vida pessoal do cliente.
É importante para a sua caracterização que o distúrbio cause sofrimento
ou dificuldades interpessoais marcantes, e também, assim como as


aversões, pode ser “primário” ou “adquirido”, “generalizado” ou
“situacional”.

O desejo sexual tem uma regulação neurológica complexa, dependendo
de múltiplos fatores, inclusive alguns ainda ignorados pela ciência. No
entanto, podemos dividir os fatores que o influenciam em dois grupos: os
“incitantes” sexuais, e os “supressores” sexuais. Dentro destes dois
grupos, podemos citar fatores fisiológicos, como a testosterona, a
estimulação tátil, e possíveis substâncias afrodisíacas, como incitantes do
desejo, e a prolactina, medicamentos com efeitos colaterais sexuais, e a
depressão, como supressores do desejo, e fatores psicológicos, como um
parceiro atraente, a estimulação erótica, as fantasias, e o amor, como
incitantes do desejo, e um parceiro pouco atraente, os pensamentos
“negativos”, as “anti-fantasias”, o “stress”, e as emoções negativas, como
supressores do desejo.

Atuando sobre estes fatores, seja nos fisiológicos – modificando
medicações e corrigindo distúrbios endócrinos, por exemplo – seja nos
psicológicos – estimulando as fantasias e o uso de material erótico, e
resolvendo os conflitos e emoções negativas situacionais, por exemplo -,
podemos auxiliar o cliente a aumentar seu desejo sexual, com resultados
pelo menos parcialmente satisfatórios na maioria dos clientes. Em uma
porcentagem significativa de pessoas, no entanto, somente uma
psicoterapia mais profunda, capaz de modificar os fatores mais remotos
da disfunção do desejo, como conflitos edipianos, experiências eróticas da
infância, e injunções negativas de pais, professores e sacerdotes, pode
realmente transformar sua vida sexual.

Aqui entra a ação do psicanalista, que deve trabalhar em conjunto com o
terapeuta sexual, para que os resultados do tratamento sejam
maximizados. É fundamental o conhecimento, por parte do psicanalista,


dos fatores mais “imediatos” que podem influenciar o desejo, e que irão
ser abordados pela terapia sexual, para que não se incorra no erro de
procurar apenas as raízes mais profundas de um problema, deixando que
os “galhos e folhas podres” impeçam o restabelecimento da sexualidade
saudável.

Modelo Psicossomático de Controle Duplo da Motivação Sexual
Humana Helen Singer Kaplan

Incitadores

Supressores

Sexuais

Sexuais

Incitadores Fisiológicos:

Centros

1

– Testosterona

2

– Estimulação Física
Genital

Reguladores

3

  • Afrodisíacos

Sexuais

Hipotalâmicos

E Límbicos

Incitadores Psicológicos:

1

– Parceiro Atraente

2

– Estimulação Erótica

3

– Fantasias


4

– Amor

5

– Galanteio


  • Supressores Fisiológicos:

1 – Distúrbios Hormonais

2 – Drogas com Efeitos Colaterais Sexuais

3 – Depressão

Inibidores Psicológicos:

1 – Parceiro Não Atraente

2 – Pensamentos Negativos

3 – Anti-fantasias

4 – Emoções Negativas

5 – “Stress” e Raiva

Desejo Sexual
Evitação Sexual

Experiência

Subjetiva de

Desejo

Transtornos da Excitação Sexual

Os transtornos da excitação sexual englobam a disfunção erétil, no homem e
alterações da lubrificação vaginal, na mulher.

A introdução no mercado, em 1998, do Sildenafil (viagra), levou a uma
“revolução” no tratamento da disfunção erétil, que é considerado um “divisor de
águas” na Sexologia moderna. Inicialmente temido pelos terapeutas sexuais
como um possível “esvaziador” de suas clínicas, o Viagra mostrou-se não um
inimigo, mas um grande aliado dos terapeutas. Uma vez que as causas da
disfunção erétil, desde as mais superficiais até as mais profundas, não são
modificadas com o uso da medicação, o simples uso da mesma não resolve os
conflitos interpessoais, nem restaura o bem estar sexual, nem do homem,
muito menos da mulher. Assim, a terapia da disfunção erétil continua incluindo
diversas técnicas cognitivas e comportamentais, além de, em alguns casos,
necessitar de um tratamento mais profundo, como a psicanálise.

O diagnóstico da disfunção erétil deve levar em conta não apenas as causas
psicológicas, mas também as causas orgânicas, entre as quais se destacam
principalmente o diabetes mellitus e a hipertensão arterial, em especial
relacionada aos efeitos colaterais das medicações anti-hipertensivas. Uso de
drogas, em especial o álcool, podem estar envolvidos na gênese da dificuldade
de ereção.

Mas o principal gerador de disfunção erétil é a ansiedade antecipatória. Num
mecanismo do tipo “bola de neve”, o indivíduo que “falha” uma vez,
“assombrado” pelo mito do “homem infalível”, por temores relativos à
homossexualidade, e tantos outros conceitos distorcidos pela nossa cultura
sexual, passa a “observar-se” de modo excessivo durante a relação sexual, e o
“stress” gerado por essa “cobrança” de perfeição acaba por dificultar ainda
mais a ereção.

Já entre as mulheres, além das causas orgânicas, a dificuldade de excitação
sexual está mais relacionada a causas mais profundas, incluindo os mitos
sexuais, e também a causas relacionadas ao relacionamento do casal, também
chamadas de causas diádicas. Os transtornos da excitação sexual nas
mulheres são muito difíceis de se diagnosticar, uma vez que o desejo sexual
costuma estar mais comumente comprometido, o que afeta secundariamente a
excitação, sendo raro encontrarem-se mulheres com desejo sexual intacto, e
dificuldade à excitação, que não seja de causa orgânica.

Transtornos do Orgasmo

Os transtornos do orgasmo incluem a anorgasmia, que é a dificuldade ou
impossibilidade de atingir o orgasmo, e a ejaculação precoce, que é a
dificuldade ou impossibilidade de o homem retardar a ejaculação por tempo


suficiente para manter uma relação sexual satisfatória. A anorgasmia
masculina é chamada de ejaculação retardada, e muitas vezes, tem a
conotação de dificuldade para ejacular apenas durante o coito, não existindo tal
dificuldade à masturbação.

Os transtornos do orgasmo, de modo geral, têm geralmente causas mais
superficiais, mesmo quando são “primários”, ou seja, quando o indivíduo nunca
experimentou um orgasmo, ou nunca conseguiu um controle ejaculatório
adequado. Assim, o tratamento cognitivo-comportamental, com técnicas
específicas bem estabelecidas, tem na maioria dos casos um resultado
excelente, sendo rara a necessidade de terapia psicanalítica.

Cabe lembrar que a anorgasmia feminina está muito ligada a mitos e
preconceitos, sento comum a queixa de “anorgasmia” por mulheres que
atingem normalmente o orgasmo, porém apenas quando estimulam seu clitóris,
considerando-se inadequadas em função de conceitos ultrapassados. Outras
vezes, a “anorgasmia” está relacionada especificamente à ausência de
orgasmos com um parceiro específico, sendo uma conseqüência de
transtornos do desejo, muito mais que um problema do orgasmo “em si”.

Transtorno de Dor Sexual

Em uma categoria à parte estão os transtornos sexuais que se caracterizam
por dor ao coito, independentemente do ciclo de resposta sexual. Estes
englobam o vaginismo e as dispareunias.

A dispareunia é a dor ao coito, seja na mulher, seja no homem. Na grande
maioria dos casos está relacionada a algum problema orgânico, porém, em
especial nas mulheres, existe sempre um componente psicológico envolvido,


sendo possível a dor exclusivamente psicogênica, resultado da combinação de
contratura excessiva da musculatura vaginal e da lubrificação insuficiente, fruto
da dificuldade de excitação. Algumas vezes, o desejo sexual está hipoativo, ou
mesmo trata-se de uma aversão sexual, seja estes percebidos
conscientemente ou não. Já entre os homens a dispareunia tem quase que
exclusivamente causa orgânica.

Já o vaginismo é um reflexo de defesa da musculatura do assoalho pélvico,
levando a um espasmo dos músculos perineais, que impedem a penetração
vaginal, impossibilitando ou dificultando ao extremo o coito, e até o exame
ginecológico. A maioria das mulheres vagínicas tem desejo, excitação e
orgasmo normais, muitas vezes praticando prazerosamente atividades sexuais
não-coitais, mas não conseguindo consumar a penetração vaginal.

Embora as causas do vaginismo sejam quase sempre exclusivamente
psicológicas, levando a uma espécie de “fobia da penetração”, raramente o
tratamento visa atingir tais causas, exceto no sentido de um reforço cognitivo. A
terapêutica sexual do vaginismo inclui basicamente métodos comportamentais,
incluindo relaxamento muscular progressivo e dessensibilização sistemática.
Os resultados, com esta forma breve de terapia, varia de 72 a 99% de sucesso,
não sento, portanto, recomendada a psicanálise para tais casos. Apenas
quando concomitante a outros transtornos, de causas profundas, encaminham-
se as pacientes vagínicas para psicoterapia de longo prazo.

AS PARAFILIAS

As parafilias, definidas como “transtornos sexuais caracterizados por fantasias
sexuais especializadas e intensas necessidades e práticas que, em geral, são
de natureza repetitiva e angustiam a pessoa”. (KAPLAN, SADOCK & GREBB,
1997) No DSM-IV, os critérios para diagnósticos de uma parafilia sempre


incluem um período de pelo menos seis meses de evolução, e a ocorrência de
“sofrimento clinicamente significativo ou comprometimento no funcionamento
ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”, como
conseqüência da mesma. Deste modo, são excluídas do diagnóstico de
parafilia as práticas que se restringem ao relacionamento sexual, de um ou
mais indivíduos, enquanto isto não atrapalhe as outras áreas de sua vida, nem
causem sofrimento (para si ou para outrem).

Antes consideradas como “perversões”, práticas como a masturbação, relações
sexuais incluindo mais de duas pessoas, e até mesmo fantasias sexuais, são
hoje consideradas absolutamente normais, desde que não causem sofrimento,
nem invadam outras áreas da vida dos indivíduos. Ainda se considera como
“anormal” qualquer prática que seja “exclusiva”, ou seja, que seja a única forma
de expressão da sexualidade, limitando assim a capacidade do indivíduo de se
relacionar de maneira saudável.

A questão da orientação sexual, em especial a homossexualidade, abordada
mais adiante, era antes considerada como uma parafilia. Hoje não se admite
chamar os homossexuais de parafílicos, tendo o diagnóstico de
homossexualidade sido retirado das classificações internacionais de doenças
desde a década de 1970.

Exibicionismo

No exibicionismo, existe o impulso ou desejo de expor os genitais a uma
pessoa estranha ou desprevenida. A pessoa se excita por antecipação da
exposição, e masturba-se até o orgasmo durante ou após o evento.
Praticamente todos os casos são de homens expondo-se a mulheres, e a
observação da reação da “vítima”, de medo, surpresa, aversão, levando à
“afirmação da masculinidade”, o que remete ao Complexo de Castração.

Fetichismo

O fetichismo consiste em uma concentração do foco sexual em objetos
intimamente relacionados com o corpo humano, como sapatos, calcinhas,
meias, luvas, etc. A atividade sexual pode ser dirigida ao próprio objeto (por
exemplo, masturbação dentro de um sapato), ou este ser incorporado ao ato
sexual, como na exigência de utilização de meias com ligas, por exemplo.
Também é quase exclusivamente masculino, sendo considerado por Freud
como decorrente também do Complexo de Castração, estando o fetiche
associado, simbolicamente, com o fato.

Frotteurismo

Este termo designa a prática de “roçar” o pênis contra as nádegas ou qualquer
parte do corpo de uma mulher completamente vestida, geralmente em locais de
grande aglomeração de pessoas, principalmente ônibus e trens lotados. Para
sua caracterização, tal ato deve ser realizado sem consentimento da vítima,
podendo, em alguns momentos, caracterizar-se também pelo uso das mãos
para acariciar uma vítima incauta.

Pedofilia

Pedofilia é o impulso ou excitação sexual recorrente e intenso por crianças de
até 13 anos de idade. Para ser caracterizado como pedófilo, o indivíduo deve
ter pelo menos 16 anos de idade, e ser, no mínimo, 5 anos mais velho do que a
vítima. São excluídas deste diagnóstico as pessoas no final da adolescência
que têm um relacionamento sexual contínuo com um “pré-adolescente” de 12
anos ou 13 anos de idade.


A grande maioria dos casos envolve carícias genitais ou sexo oral, sendo
pouco freqüente a penetração genital ou anal, exceto nos casos de incesto. A
maioria das vítimas que chegam a ser tocadas (+/- 60%) são meninos,
enquanto que 99% dos casos onde não há toque (como no exibicionismo), a
vítima é menina. É importante notar que 50% dos pedófilos consomem álcool
em excesso por ocasião do incidente, e 95% são heterossexuais.

Sadismo e Masoquismo Sexuais

O sadismo e o masoquismo estão intimamente associados, não apenas por
sua complementaridade, como também pela presença de fantasias sádicas em
30% dos masoquistas. Sadismo refere-se a fantasias, impulsos ou
comportamentos sexuais que envolvem atos reais (ou seja, não simulados) nos
quais o sofrimento psicológico ou físico do outro é sexualmente excitante. Já o
masoquismo caracteriza-se por fantasias, impulsos ou comportamentos
sexuais envolvendo atos reais (não simulados) de ser humilhado, espancado,
atado, ou de outra forma submetido a sofrimento físico ou psicológico, o que é
sexualmente excitante para o indivíduo.

Para caracterizarmos o sadismo ou o masoquismo clinicamente, é necessário
que tais fantasias, impulsos ou comportamentos causem sofrimento
significativo ou comprometam o funcionamento social, profissional, ou outras
áreas importantes da vida do indivíduo. Assim, muitos casais que incorporam
práticas sado-masoquistas em suas vidas sexuais, desde que não causem
sofrimento ou comprometimento funcional, não são considerados parafílicos,
embora tais práticas possam parecer chocantes para muitos.

Contrariamente à impressão comum, o masoquismo é mais freqüente em
homens do que em mulheres, sendo atribuído por Freud a fantasias destrutivas
do indivíduo, voltadas contra si mesmo, num mecanismo de introjeção. Muitas


vezes, no entanto, a análise mostra que as experiências da infância levaram o
indivíduo a acreditar que a dor é um requisito para o prazer sexual, às vezes
através de mensagens contraditórias simultâneas de prazer e desprazer.

Já o sadismo é considerado pela Psicanálise como uma defesa contra o temor
de castração, como se os sádicos fizessem aos outros aquilo que temem que
lhes aconteça (ou, no caso das mulheres, que acreditam ter acontecido). Por
outro lado, o pouco compreendido “instinto de destruição”, ou “pulsão de
morte”, está geralmente nas raízes desta distorção do prazer sexual.

Voyeurismo

Voyeurismo refere-se a fantasias ou atos que envolvem a busca ou observação
de pessoas nuas, despindo-se ou em atividade sexual. Evidentemente tais
fantasias ou atos são considerados normais, desde que não causem sofrimento
significativo, nem comprometam o funcionamento social ou profissional, ou as
relações interpessoais do indivíduo. Mais comum entre os homens, o
voyeurismo inicia-se geralmente na infância ou adolescência, e envolvem a
observação sem que as pessoas observadas o saibam, mas geralmente a
excitação depende de algum risco de ser descoberto.

Fetichismo Transvéstico

Trata-se de fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais em homens
heterossexuais, que envolvem o uso de roupas femininas. Iniciando-se
tipicamente na infância ou início da adolescência, pode evoluir, com o passar
dos anos, para o desejo de vestir-se e viver permanentemente como mulheres,
quando então é classificado como fetichismo transvéstico com disforia quanto
ao gênero.


Nem todo homem com fetichismo transvéstico se encaixa na subcultura dos
“travestis”, existindo aqueles que só utilizam roupas femininas em situações
solitárias, que levam a sentimentos de culpa e depressão. Também existem
homens sexualmente sadios, que têm fantasias transvésticas dentro de um
contexto saudável e positivo, mas muitas vezes sendo inibidos por suas
parceiras neste aspecto de sua sexualidade, por conta de mitos e preconceitos
envolvendo o homossexualismo.

Necrofilia

É a obsessão por obter satisfação sexual de cadáveres. Na maioria dos casos,
os corpos são encontrados em necrotérios, mas alguns necrofílicos violam
sepulturas para obter os corpos que desejam. Em alguns casos, o indivíduo
comete primeiro um assassinato, para depois ter relações sexuais com o
cadáver, mostrando o caráter psicopático deste desvio.

Não é incomum que um necrofílico se case, e exija que sua parceira faça
“banhos de assento” gelados, antes de iniciar uma relação sexual, ou que
ordene à mesma que mantenhas-se completamente imóvel durante todo o ato
sexual.

Zoofilia

A inclusão de animais – que podem ser treinados para tanto – nos atos sexuais
é relativamente comum, embora seja rara como parafilia organizada e
persistente. Muitas vezes, especialmente em regiões mais isoladas, onde o
contato sexual é coibido por convenções religiosas e sociais rígidas, as
relações com animais são freqüentes entre os mais jovens. Situações de


isolamento pessoal, forçado ou circunstancial, podem também levar a práticas
zoofilicas, sem que necessariamente esteja presente um “desvio” sexual.

Urofilia

É o prazer sexual associado com o desejo de urinar sobre o parceiro, ou de
receber sobre si a urina deste. Pode estar associada com técnicas
masturbatórias envolvendo a inserção de objetos estranhos na uretra, tanto em
homens quanto em mulheres.

Coprofilia e Clismafilia

Coprofilia é o parzer sexual associado ao desejo de defecar sobre o parceiro,
de receber as fezes deste sobre o próprio corpo, ou de comer fezes (chamado
de coprofagia). Já a clismafilia é o uso de enemas (lavagens intestinais) como
parte da estimulação sexual. Teoricamente, ambas estariam ligadas à fixação
do estágio anal do desenvolvimento psicossexual.

Parcialismo

No parcialismo, o indivíduo focaliza-se em uma parte específica do corpo,
excluindo todas as demais. Normalmente o contato oral com os genitais é
associado à fase de excitação sexual, mas quando um indivíduo utiliza essas
atividades como única fonte de prazer sexual e não consegue ou se recusa a
praticar o coito, pode-se caracterizar uma parafilia.

O contato oral com os genitais femininos externos é chamado de cunilingus. Já
o contato oral com o pênis é denominado felação, enquanto que o contato oral
com o ânus tem o nome de anilingus.

Escatologia Telefônica

Caracterizada por telefonemas obscenos, a escatologia telefônica envolve
tensão e antecipação que começam em antecipação ao ato, uma “vítima” (em
geral mulher) que de nada suspeita, e a exposição verbal das fantasias e
preocupações sexuais, ou a indução da “vítima” a falar de sua atividade sexual,
sendo a conversa acompanhada de masturbação, podendo ser completada
após a interrupção da ligação.

Variações da escatologia telefônica são cada vez mais comuns, em serviços
telefônicos especializados, ou pela Internet, que propicia desde “salas de bate-
papo” até o uso de correio eletrônico, com mensagens de texto, imagens e
vídeos explícitos. A utilização compulsiva destes serviços é que caracteriza
uma parafilia, sendo considerado, quando não compulsivo, um meio saudável
de expressão da sexualidade, desde que não inflija sofrimento.

Masturbação

A masturbação é comum em todos os estágios da vida, desde a infância até a
“terceira idade” (ou até mesmo a recentemente batizada “quarta idade”), sendo
considerada uma atividade auto-erótica normal e saudável. No entanto, por
diversos motivos, entre os quais os dogmas religiosos, a masturbação foi
considerada como patológica, e causadora dos mais diversos males, desde a
acne até a “neurastenia”, que era considerada por Freud como decorrente de


“masturbação excessiva”. Ainda hoje encontramos pessoas evitando a
masturbação, sentindo-se culpadas quando a praticam, e até desenvolvendo
neuroses graves relacionadas aos “fantasmas” ligados ao auto-erotismo.

Quando a masturbação é o único tipo de atividade sexual, realizada, quando é
praticada com uma freqüência tal que prejudique outros aspectos da vida do
indivíduo, ou quando é constantemente preferida ao contato sexual com um
parceiro, pode se tratar de uma “anormalidade”, da mesma maneira que as
fantasias e outras práticas descritas acima. Mas a maior parte destas, quando
praticadas de maneira prazerosamente saudável, não dão motivos para serem
condenadas, sendo inclusive excelentes meios para estimular relacionamentos
desgastados e “esfriados” sexualmente.

Identidade de gênero e orientação sexual

Enquanto o “sexo biológico”, masculino ou feminino, tem uma determinação
anatomo-fisiológica bem definida, quando falamos em “gênero”, estamos
abrangendo aspectos muito mais amplos do que somente a biologia e a
hereditariedade. O conceito de identidade de gênero envolve questões
biológicas, culturais, históricas, psicológicas, e até mesmo espirituais. Afinal, o
que é “ser homem” e o que é “ser mulher”?

Desde o nascimento, ou até antes dele (com os recursos tecnológicos que nos
possibilitam saber o sexo do feto alguns meses antes do parto), nos são
impostos vários elementos que irão fazer parte de nossa noção de gênero, e de
nossa identidade como homens ou mulheres. Desde o nome escolhido,
passando pelas cores das roupas do bebê, pelos brinquedos que nos são
dados, pela educação que recebemos, pelas diferentes atitudes de pais,


professores, parentes, sacerdotes, tudo contribui para formar em cada um de
nós uma noção pessoal de gênero, e do que é ser homem ou mulher.

Infelizmente, muitos mitos e preconceitos estão incluídos e arraigados nessa
noção, sendo muito difícil percebermos o que são as diferenças reais, e o que
são diferenças artificialmente impostas, socialmente, culturalmente,
historicamente. Desde o século passado, através inicialmente da luta das
feministas pela igualdade, e depois pelos movimentos “GLS”, o mundo
ocidental vem lentamente tentando desfazer alguns desses mitos e
preconceitos, gerando desconforto, inicialmente, por estar atingindo estruturas
solidificadas por milênios, mas gradualmente levando a um reconhecimento da
necessidade de mudanças, até mesmo para os homens, que começam agora a
perceber que o estereótipo do “macho” está cada vez menos adequado ao
mundo e à sociedade atuais.

Hoje vivemos uma fase de transição, com uma profusão de livros, debates,
discussões acaloradas, conselhos em revistas e jornais, enfim, todo um
“burburinho”, que saudável enquanto “meio de cultura” para a formação de uma
nova consciência sobre a sexualidade, consciência que ainda não tem forma
nem tamanho definidos, mas que dá sinais de ser mais abrangente, tolerando
mais as diferenças, enquanto existe maior respeito pelo “espaço” do outro.

Orientação sexual: “Hetero”, “Homo” ou “Bi”?

Diferente da identidade de gênero, que é a noção que o indivíduo tem de si, se
homem ou mulher, e o que significa isso, a orientação sexual refere-se à
preferência em relação à atração sexual. Assim, chamamos de homossexual a
pessoa que tem preferencialmente atração sexual por pessoas do mesmo
sexo, enquanto que aqueles cuja atração sexual se dá preferencialmente pelas


pessoas do outro sexo são denominados heterossexuais. Bissexual seria uma
pessoa que tem atração sexual por ambos os sexos.

Embora Freud não considerasse a homossexualidade como doença mental, ele
dizia que era “uma variação das funções sexuais, produzida por um certo
comprometimento do desenvolvimento sexual”, colocando-a junto de outros
transtornos da personalidade ao tentar justificar a homossexualidade como
resultante de forte fixação da mãe, falta de cuidados paternos efetivos, inibição
do desenvolvimento masculino pelos pais, fixação ou regressão no estágio
narcisista do desenvolvimento, ou fracasso na competição com irmãos e irmãs,
no caso dos homossexuais masculinos, ou da falta de resolução da inveja do
pênis e conflitos edipianos não resolvidos, para explicar a homossexualidade
feminina.

Muitas outras hipóteses foram formuladas sobre a origem da orientação
homossexual, desde explicações psicodinâmicas até alterações biológicas e
hereditárias, mas até hoje ainda se debate muito esta questão, sem uma
conclusão definitiva. A única diretriz universalmente aceita é a
descaracterização da homossexualidade como patologia, sendo considerada
como transtorno apenas a homossexualidade ego-distônica, ou seja, a situação
em que a atração sexual pelo mesmo sexo não é aceita pelo próprio indivíduo,
levando-o a sofrimento significativo.

Uma criação que resume bem a situação da homossexualidade é a frase de
David Hawkins (citado por Kaplan, Sadock e Grebb, 1997): “A presença de
homossexualidade não parece ser uma questão de escolha; sua expressão é
uma questão de escolha”.

Talvez a conclusão mais provável para o futuro seja que a sexualidade é
extremamente abrangente, não se limitando necessariamente à atração sexual


por indivíduos do outro sexo, mas envolvendo a capacidade de relacionamento
com ambos os sexos, numa troca de afeto e prazer que pode ser orientada
positivamente, independentemente do sexo do outro, como também deve
ocorrer em relação à cor da pele, origem geográfica, religião, etc. Assim o
“sexo do futuro” tenderia para o bissexualismo, ou melhor, para o universalismo
sexual.

Transtornos de Identidade de Gênero

Classificados à parte das disfunções sexuais estão os transtornos de
identidade de gênero. Estes são caracterizados por sentimentos persistentes
de desconforto com o próprio sexo biológico, ou com o papel de gênero do
próprio sexo.

Vale a pena diferenciar essas duas expressões: Identidade de gênero é um
estado psicológico que reflete o senso íntimo de si mesmo como homem ou
mulher. Entre outras palavras, refere-se a como a pessoa se sente, se homem
ou mulher, “por dentro”. Já o papel de gênero refere-se ao padrão
comportamental externo, que reflete o senso interno da pessoa quanto à sua
identidade de gênero. Resumindo, identidade de gênero é como a pessoa se
sente, homem ou mulher, e papel de gênero é como ela se apresenta aos
outros, como masculino ou feminino. Não se deve confundir estes conceitos
com os de sexo, que é rigidamente limitado às características anatômicas e
funcionais (biológicas), ou de orientação sexual, que é a tendência de resposta
erótica da pessoa, levando em consideração a escolha objetal, a atração
sexual, e a própria vida de fantasias do indivíduo.

No transtorno de identidade de gênero, existe uma angústia persistente e
intensa acerca do sexo atribuído, e um desejo ou insistência para ser do outro
sexo. Os indivíduos sentem-se literalmente como “aprisionados num corpo do


sexo oposto”, referindo não sentirem aquele corpo como seu. Muitas vezes,
crêem ter “nascido com o sexo errado”, não conseguindo sentir-se à vontade
com o próprio corpo, a despeito de tentativas de tratamento.

A opção terapêutica de escolha é a cirurgia para troca de sexo, que requer, no
entanto, um diagnóstico preciso, uma vez que tal cirurgia, se realizada em um
indivíduo homossexual, por exemplo, que não tenha o transtorno de identidade
de gênero, levaria a um desconforto permanente e irreversível.

A VISÃO DE FREUD SOBRE A SEXUALIDADE

A lista de escritos de Freud sobre a sexualidade é extensa, mesmo se
selecionarmos apenas aqueles que lidam mais diretamente com o assunto (ver
abaixo). Para termos uma idéia, ainda que parcial, de seus pontos de vista,
vejamos o resumo que ele mesmo faz de seus “Três Ensaios…”, sendo
fortemente recomendada a leitura da íntegra dos mesmos (Volume VII das
“Obras Completas”).

Resumo dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”

É chegado o momento de ensaiarmos um resumo. Partimos das aberrações da
pulsão sexual com respeito a seu objeto e seu alvo, e deparamos com a
questão de saber se elas provêm de uma disposição inata ou são adquiridas
como resultado das influências da vida. A resposta a essa pergunta nos veio da
compreensão, mediante a investigação psicanalítica, das condições da pulsão
sexual nos psiconeuróticos, um grupo humano numeroso que não fica longe
dos sadios. Assim, descobrimos que, nessas pessoas, a inclinação para todas
as perversões é demonstrável da qualidade de forças inconscientes e se


denuncia como formadora de sintomas, e podemos dizer que a neurose é
como que o negativo das perversões. Diante da ampla disseminação das
tendências perversas, agora reconhecidas, fomos impelidos ao ponto de vista
de que a disposição para as perversões é a disposição originária universal da
pulsão sexual humana, e de que a partir dela, em conseqüência de
modificações orgânicas e inibições psíquicas no decorrer da maturação,
desenvolve-se o comportamento sexual normal. Alimentamos a esperança de
poder apontar na infância essa disposição originária; entre as forças que
restringem a orientação da pulsão sexual destacamos a vergonha, o asco, a
compaixão e as construções sociais da moral e da autoridade. Assim, tivemos
de ver em cada aberração fixa da vida sexual normal um fragmento de inibição
do desenvolvimento e infantilismo. Embora tenha sido necessário situar em
primeiro plano a importância das variações da disposição originária, tivemos de
supor entre elas e as influências da vida uma relação de cooperação, e não de
antagonismo. Por outro lado, já que a disposição originária é necessariamente
complexa, pareceu-nos que a própria pulsão sexual seria algo composto de
diversos fatores e que, nas perversões, como que se desfaria em seus
componentes. Com isso, as perversões se revelaram, de um lado, como
inibições do desenvolvimento normal, e de outro, como dissociações dele.
Essas duas concepções foram reunidas na hipótese de que a pulsão sexual do
adulto nasce mediante a conjugação de diversas moções da vida infantil numa
unidade, numa aspiração com um alvo único.

Juntamos a isso o esclarecimento da preponderância das inclinações
perversas nos psiconeuróticos, na medida em que a reconhecemos como o
enchimento colateral de canais secundários em função do bloqueio do leito
principal (da corrente sexual) pelo “recalcamento”, e passamos então ao exame
da vida sexual na infância. Pareceu-nos lamentável que se negasse a
existência da pulsão sexual na infância e que as manifestações sexuais não
raro observadas nas crianças fossem descritas como acontecimentos que
fogem à regra. Pareceu-nos, ao contrário, que a criança traz consigo ao mundo
germes de atividade sexual e que, já ao se alimentar, goza de uma satisfação


sexual que então busca reiteradamente proporcionar-se através da conhecida
atividade de “chuchar”. Todavia, a atividade sexual da criança não se
desenvolve no mesmo passo que as demais funções, mas sim, após um breve
período de florescência entre os dois e os cinco anos, entra no chamado
período de latência. Neste, a produção de excitação sexual de modo algum é
suspensa, mas continua e oferece uma provisão de energia que é empregada,
em sua maior parte, para outras finalidades que não as sexuais, ou seja, de um
lado, para contribuir com os componentes sexuais para os sentimentos sociais,
e de outro (através do relacionamento e da formação reativa), para construir as
barreiras posteriores contra a sexualidade. Assim se construiriam na infância, à
custa de grande parte das moções sexuais perversas e com a ajuda da
educação, as forças destinadas a manter a pulsão sexual em certos rumos.
Outra parte das moções sexuais infantis escapa a esses empregos e consegue
expressar-se como atividade sexual. Pudemos então verificar que a excitação
sexual da criança provém de uma multiplicidade de fontes. A satisfação surge,
acima de tudo, mediante a excitação sensorial apropriada das chamadas zonas
erógenas, e provavelmente pode funcionar como tal qualquer ponto da pele e
qualquer órgão dos sentidos – provavelmente qualquer órgão -, embora
existam certas zonas erógenas destacadas cuja excitação estaria assegurada,
desde o começo, por certos dispositivos orgânicos. Além disso, a excitação
sexual parece surgir como um subproduto, por assim dizer, de um grande
número de processos que ocorrem no organismo, tão logo eles alcançam certa
intensidade, e muito especialmente, de todas as comoções mais fortes, ainda
que de natureza penosa. As excitações de todas essas fontes ainda não estão
conjugadas, cada qual seguindo separadamente seu alvo, que é meramente a
obtenção de certo prazer. Na infância, portanto, a pulsão sexual não está
centrada e é, a princípio, desprovida de objeto, ou seja, auto-erótica.

Ainda durante a infância começa a fazer-se notar a zona erógena da genitália,
seja porque, como qualquer outra zona erógena, ela produz satisfação
mediante a estimulação sensorial apropriada, seja porque, de um modo não
inteiramente inteligível, havendo uma satisfação proveniente de outras fontes,


produz-se ao mesmo tempo uma excitação sexual que mantém uma relação
particular com a zona genital. Temos de admitir com pesar que não se chegou
a um esclarecimento suficiente das relações entre a satisfação sexual e a
excitação sexual, como também entre a atividade da zona genital e a das
demais fontes da sexualidade.

Pelo estudo dos distúrbios neuróticos, observamos que é possível identificar na
vida sexual infantil, desde seus primórdios, os rudimentos de uma organização
dos componentes sexuais da pulsão. Numa primeira fase, muito precoce, o
erotismo oral fica em primeiro plano; uma segunda dessas organizações “pré-
genitais” caracteriza-se pela predominância do sadismo e do erotismo anal;
somente numa terceira fase (desenvolvida na criança apenas até a primazia do
falo) é que a vida sexual passa a ser determinada pela contribuição das zonas
genitais propriamente ditas.

Tivemos então de registrar, como uma de nossas mais surpreendentes
descobertas, que essa eflorescência precoce da vida sexual infantil (dos dois
aos cinco anos) também acarreta uma escolha objetal, com toda a riqueza das
realizações anímicas que isso implica, de modo que a fase correspondente e
ligada a ela, apesar da falta de síntese entre os componentes pulsionais
isolados e da incerteza do alvo sexual, deve ser apreciada como uma
importante precursora da posterior organização sexual definitiva.

A instauração bitemporal do desenvolvimento sexual nos seres humanos, ou
seja, sua interrupção pelo período de latência, pareceu-nos digna de uma
atenção especial. Ela se afigura como uma das condições da aptidão do
homem para o desenvolvimento de uma cultura superior, mas também de sua
tendência à neurose. Ao que saibamos, nada de análogo é demonstrável entre
os parentes animais do homem. A origem dessa peculiaridade humana deveria
ser buscada na proto-história da espécie.

Não pudemos dizer que medida de atividade sexual na infância poderia ainda
ser descrita como normal, como não perniciosa, para o desenvolvimento
ulterior. O caráter dessas manifestações sexuais revelou-se
predominantemente masturbatório. A experiência permitiu-nos ainda comprovar
que as influências externas da sedução podem provocar rompimentos
prematuros da latência e até a supressão dela, e que, nesse aspecto, a pulsão
sexual da criança comprova ser, de fato, perverso-polimorfa; comprovamos
ainda que tal atividade sexual prematura prejudica a educabilidade da criança.

Apesar das lacunas em nossos conhecimentos da vida sexual infantil, foi-nos
então preciso fazer uma tentativa de estudar as transformações sobrevindas
com a chegada da puberdade. Destacamos duas delas como decisivas: a
subordinação de todas as outras fontes de excitação sexual ao primado das
zonas genitais e o processo do encontro do objeto. Ambos já estão
prefigurados na vida infantil. A primeira consuma-se pelo mecanismo de
exploração do pré-prazer: os atos sexuais outrora autônomos, ligados ao
prazer e à excitação, convertem-se em atos preparatórios do novo alvo sexual
(a descarga dos produtos sexuais), cuja consecução acompanhada de enorme
prazer, põe termo à excitação sexual. Nesse aspecto, havíamos levado em
conta a diferenciação dos seres sexuados em masculino e feminino e
descobrimos que, no tornar-se mulher, faz-se necessário um novo
recalcamento, que suprime parte da masculinidade infantil e prepara a mulher
para a troca da zona genital dominante. Por fim, descobrimos que a escolha
objetal é guiada pelos indícios infantis, renovados na puberdade, da inclinação
sexual da criança pelos pais e por outras pessoas que cuidam dela, e que,
desviada dessas pessoas pela barreira do incesto erigida nesse meio-tempo,
orienta-se para outras que se assemelhem a elas. Cabe ainda acrescentar, por
último, que durante o período de transição da puberdade os processos de
desenvolvimento somático e psíquico prosseguem por algum tempo sem
ligação entre si, até que a irrupção de uma intensa moção anímica de amor,


levando à inervação dos genitais, produz a unidade da função amorosa exigida
pela normalidade.

Fatores que Perturbam o Desenvolvimento

Cada passo nesse longo percurso de desenvolvimento pode transformar-se
num ponto de fixação, cada ponto de articulação nessa complexa montagem
pode ensejar a dissociação da pulsão sexual, como já discutimos em diversos
exemplos. Resta-nos ainda fornecer um panorama dos diversos fatores
internos e externos que perturbam o

desenvolvimento, e indicar o lugar do mecanismo afetado pela perturbação
proveniente deles. É claro que, os fatores mencionados numa mesma série
podem não ter o mesmo valor, e devemos estar preparados para encontrar
dificuldades na devida avaliação de cada um deles.

Constituição e Hereditariedade

Em primeiro lugar, cabe mencionar aqui a diversidade inata da constituição
sexual, em que provavelmente recai o peso principal, mas que, como é
compreensível, só pode ser deduzida de suas manifestações posteriores e,
mesmo assim, nem sempre com grande certeza. Concebemos essa
diversidade como uma preponderância desta ou daquela das múltiplas fontes
de excitação sexual, e cremos que tal diferença entre as disposições deve
expressar-se de alguma maneira no resultado final, mesmo que este se
mantenha dentro das fronteiras da normalidade. Sem dúvida é concebível que
haja também variações na disposição originária que levem necessariamente, e
sem a ajuda de outros fatores, à configuração de uma vida sexual anormal.
Poder-se-ia descreve-los como “degenerativos” e considera-los como a
expressão de uma deterioração hereditária. Nesse contexto, tenho um fato
notável a relatar. Em mais da metade dos casos de histeria, neurose obsessiva


etc. que tive em tratamento psicoterapêutico, pude demonstrar com certeza
que o pai sofrera de sífilis antes do casamento, quer se tratasse de tabes ou
paralisia progressiva, quer a doença luética fosse indicada de algum outro
modo pela anamnese. Quero observar expressamente que as crianças
posteriormente neuróticas não traziam em si nenhum sinal físico de sífilis
hereditária, de modo que justamente sua constituição sexual anormal é que
devia ser considerada como a última ramificação de sua herança sifilítica.
Embora eu esteja longe de afirmar que a descendência de pais sifilíticos é a
condição etiológica invariável ou imprescindível da constituição neuropática,
não creio que a coincidência por mim observada seja acidental ou sem
importância.

As condições hereditárias dos perversos positivos são menos conhecidas, pois
eles sabem furtar-se à investigação. Ainda assim, há boas razoes para supor
que o que é válido para as neuroses também o seja para as perversões. E que
não raro se encontram numa mesma família a perversão e a psiconeurose,
distribuídas de tal modo entre os dois sexos que os membros masculinos, ou
um deles, são perversos positivos, enquanto os membros femininos, em
consonância com a tendência de seu sexo ao recalcamento, são perversos
negativos, ou seja, histéricos – uma boa prova das relações essenciais por nós
descobertas entre os dois distúrbios.

Elaboração Ulterior

Por outro lado, não se pode defender o ponto de vista de que a conformação
da vida sexual ficaria inequivocadamente determinada com a instauração dos
diversos componentes da constituição sexual. Ao contrário, o processo de
determinação prossegue e surgem outras possibilidades, conforme as
vicissitudes por que passam as correntes tributárias das sexualidades
provenientes das diversas fontes. Obviamente, é essa elaboração ulterior que


decide em termos definitivos, enquanto o que se poderia descrever como uma
constituição idêntica pode levar a três desfechos diferentes.

Quando todas as disposições se mantêm em sua proporção relativa,
considerada anormal, e são reforçadas com o amadurecimento, o desfecho só
pode ser uma vida sexual perversa. A análise dessas disposições
constitucionais anormais ainda não foi devidamente empreendida, mas já
conhecemos casos facilmente explicáveis mediante tais hipóteses. Os autores
opinam, por exemplo, que toda uma série de perversões por fixação teria como
precondição necessária uma debilidade inata da pulsão sexual.

Expressa nessa forma, tal colocação me parece insustentável, mas ela passa a
fazer sentido quando se pensa numa debilidade constitucional de determinado
fator da pulsão sexual, qual seja, a zona genital, zona esta que assume
posteriormente a função de conjugar num todo cada uma das atividades
sexuais isoladas, tendo por alvo a reprodução. Quando a zona genital é fraca,
essa conjugação exigida na puberdade está fadada a fracassar, e o mais forte
dentre os demais componentes da sexualidade impõe sua prática como uma
perversão.

Recalcamento

Produz-se um desfecho diferente quando, no curso do desenvolvimento, alguns
componentes que tinham força excessiva na disposição passam pelo processo
de recalcamento, sobre o qual devemos insistir em que não é equivalente a
uma supressão. Nesse caso, as excitações correspondentes continuam a ser
produzidas como antes, mas são impedidas por um obstáculo psíquico de
atingir seu alvo e empurradas para muitos outros caminhos, até que se
consigam expressar como sintomas. O resultado pode aproximar-se de uma
vida sexual normal – restrita, na maioria das vezes –, mas complementada pela


doença psiconeurótica. São justamente esses os casos que se tornaram
familiares para nós através da investigação psicanalítica dos neuróticos. A vida
sexual dessas pessoas começa como a dos perversos, e toda uma parte de
sua infância é ocupada por uma atividade sexual perversa, que ocasionalmente
se estende para além da maturidade. Produz-se então, por causas internas –
em geral antes da puberdade, mas uma vez por outra até mesmo depois dela –
, uma reversão devida ao recalcamento, e a partir daí a neurose toma o lugar
da perversão, sem que se extingam os antigos impulsos. Isso faz lembrar o
provérbio “Junge Hure, alte Betschwester”, só que, nesse caso, a juventude foi
curta demais. Essa substituição da perversão pela neurose na vida de uma
mesma pessoa, assim como a já mencionada distribuição de perversão e da
neurose entre os diferentes membros de uma mesma família, é coerente com a
concepção de que a neurose é o negativo da perversão.

Sublimação

O terceiro desfecho da disposição constitucional anormal é possibilitado pelo
processo de “sublimação”, no qual as excitações hiperintensas provenientes
das diversas fontes da sexualidade, encontram escoamento e emprego em
outros campos, de modo que de uma disposição em si perigosa resulta um
aumento nada insignificante da eficiência psíquica. Ai encontramos uma das
fontes da atividade artística, e, conforme tal sublimação seja mais ou menos
completa, a análise caracterológica de pessoas altamente dotadas, sobretudo
as de disposição artística, revela uma mescla, em diferentes proporções, de
eficiência, perversão e neurose. Uma subvariedade da sublimação talvez seja a
supressão por formação reativa, que, como descobrimos, começa no período
de latência da criança e, nos casos favoráveis, prossegue por toda a vida.
Aquilo que chamamos “caráter” de um homem constrói-se, numa boa medida,
a partir do material das excitações sexuais, e se compõe de pulsões fixadas
desde a infância, de outras obtidas por sublimação, e de construções
destinadas ao refreamento eficaz de moções perversas reconhecidas como


inutilizáveis. Por conseguinte, a disposição sexual universalmente perversa da
infância pode ser considerada como a fonte de uma série de nossas virtudes,
na medida em que, através da formação reativa, impulsiona a criação delas.

Experiências Acidentais

Comparadas às descargas sexuais, às ondas de recalcamento e às
sublimações (sendo inteiramente desconhecidas para nós as condições
internas destes dois últimos processos), todas as outras influências parecem
bem menos importantes. Quem incluir os recalcamentos e sublimações na
disposição constitucional e encará-los como manifestações vitais desta, poderá
afirmar, justificadamente, que a conformação final da vida sexual resulta, acima
de tudo, da constituição inata. Mas ninguém com algum discernimento
contestará o fato de que, em tal cooperação de fatores, há também espaço
para as influências modificadoras do que foi acidentalmente vivenciado na
infância e depois. Não é fácil avaliar a eficácia dos fatores constitucionais e
acidentais em sua relação recíproca. Na teoria, sempre se tende a
superestimar os primeiros; a prática terapêutica destaca a importância dos
últimos. Mas em nenhum caso se deve esquecer que existe entre ambos uma
relação de cooperação, e não de exclusão. O fator constitucional tem de
aguardar experiências que o ponham em vigor, o acidental precisa apoiar-se na
constituição para ter efeito. Na maioria dos casos, pode-se imaginar o que se
tem chamado de “série complementar”, na qual as intensidades decrescentes
de um fator são compensadas pelas intensidades crescentes de outro, mas
não há razão alguma para negar a existência de casos extremos nos dois
limites da série.

Harmoniza-se ainda melhor com a investigação psicanalítica dar um lugar de
destaque, entre os fatores acidentais, às experiências da primeira infância. A
série etiológica única decompõe-se então em duas, que podem ser chamadas
de disposicional e definitiva. Na primeira, a constituição e as vivências


acidentais da infância interagem da mesma maneira que na segunda, a
disposição e as vivências traumáticas posteriores. Todos os fatores nocivos ao
desenvolvimento sexual externam seu efeito promovendo uma regressão, um
retorno a uma fase anterior do desenvolvimento.

Prossigamos agora em nossa tarefa de enumerar os fatores que verificamos
serem influentes no desenvolvimento sexual, quer representem forças eficazes
ou meras manifestações delas.

Precocidade

Um desses fatores é a precocidade sexual espontânea, demonstrável com
certeza pelo menos na etiologia das neuroses, muito embora, tal como outros
fatores, não seja por si só uma causa suficiente. Manifesta-se na interrupção,
encurtamento ou encerramento do período infantil de latência, e converte-se
em causa de perturbações por ocasionar manifestações sexuais que, pelo
estado incompleto das inibições sexuais, de um lado, e por ainda não estar
desenvolvido o sistema genital, de outro, só podem trazer em si o caráter de
perversões. Essas tendências à perversão podem então permanecer como tais
ou, instaurado o recalcamento, transformar-se em forças propulsoras de
sintomas neuróticos. De qualquer modo, a precocidade sexual dificulta o
desejável domínio posterior da pulsão sexual pelas instâncias anímicas
superiores, e aumenta o caráter compulsivo que, à parte isso, os substitutos
[Vertretungen] psíquicos da pulsão reivindicam para si. A precocidade sexual
amiúde corre paralela ao desenvolvimento intelectual prematuro, e como tal é
encontrada na história infantil dos indivíduos mais eminentes e capazes; em
tais condições, não parece tornar-se tão patogênica como quando surge
isoladamente.


Fatores Temporais

Da mesma forma, exigem consideração outros fatores que, ao lado da
precocidade, podem ser reunidos sob a designação de “temporais”. A ordem
em que são ativadas as diversas moções pulsionais, bem como o lapso de
tempo em que podem manifestar-se antes de sucumbir a influência de uma
nova moção pulsional emergente, ou a algum recalcamento típico, parecem
filogeneticamente determinados. Todavia, tanto nessa seqüência temporal
quanto nessa duração parece haver variações que devem exercer uma
influência dominante no resultado final. Não é indiferente que uma dada
corrente emirja antes ou depois de sua corrente contraída, pois o efeito de um
recalcamento não pode ser desfeito: cada desvio temporal na montagem dos
componentes produz invariavelmente uma alteração no resultado. Por outro
lado, as moções pulsionais que emergem com intensidade especial têm, com
freqüência, um decurso assombrantemente rápido, como, por exemplo, o
vínculo heterossexual dos que depois se tornam homossexuais manifestos.
Não há justificativa para o medo de que as tendências estabelecidas com mais
violência na infância dominem permanentemente o caráter adulto; é igualmente
esperável que elas venham a desaparecer, cedendo lugar a seu oposto.
(“Gestrenge Herren regieren nicht lange”)

Não estamos sequer em condições de fornecer indícios das causas dessas
complicações temporais dos processos de desenvolvimento. Abre-se aqui o
panorama de uma densa falange de problemas biológicos, e talvez também
históricos, dos quais nem ao menos nos aproximamos o bastante para travar
batalha com eles.

Adesividade


A importância de todas as manifestações sexuais precoces é aumentada por
um fator psíquico de origem desconhecida, que por ora decerto só pode ser
apresentado como uma hipótese psicológica provisória. Refiro-me à elevada
adesividade [Haftbarkeit] ou fixabilidade dessas impressões da vida sexual, que
é preciso admitir, para a complementação dos fatos, nas pessoas que depois
se tornarão neuróticas ou perversas, já que as mesmas manifestações sexuais
prematuras em outras pessoas não conseguem gravar-se de maneira tão
profunda, a ponto de produzirem uma repetição convulsiva e poderem
prescrever por toda a vida os caminhos da pulsão sexual. Parte da explicação
dessa adesividade talvez resida num outro fator psíquico que não podemos
negligenciar na causação das neuroses, a saber, a preponderância que cabe
na vida anímica aos traços mnêmicos, em comparação com as impressões
recentes. Esse fator é obviamente dependente da formação intelectual e
aumenta conforme a elevação da cultura pessoal. Em contraste com isso, o
selvagem tem sido caracterizado como “das unglückselige Kind des
Augenblickes”. Em decorrência da relação inversa entre a cultura e o livre
desenvolvimento da sexualidade, cujas conseqüências podem ser seguidas
muito de perto na conformação de nossa vida, a importância do rumo tomado
pela vida sexual da criança para a vida posterior é muito pequena nos níveis
cultural ou social mais baixos e muito grande nos mais elevados.

Fixação

O terreno preparado pelos fatores psíquicos que acabamos de mencionar é
favorável aos estímulos acidentalmente vivenciados da sexualidade infantil.
Estes últimos (sobretudo a sedução por outras crianças ou por adultos)
fornecem o material que, com a ajuda dos primeiros, pode fixar-se como um
distúrbio permanente. Boa parte dos desvios da vida sexual normal
posteriormente observados tanto nos neuróticos quanto nos perversos é
estabelecida, desde o começo, pelas impressões do período infantil,
supostamente desprovido de sexualidade. De sua causação participam a


complacência constitucional, a precocidade, a característica da adesividade
elevada e a estimulação fortuita da pulsão sexual por influências estranhas.

Todavia, a conclusão insatisfatória que emerge dessas investigações das
perturbações da vida sexual provém de não sabermos, sobre os processos
biológicos que constituem a essência da sexualidade, o bastante para formar,
com base em nossos conhecimentos isolados, uma teoria suficiente para
compreendermos tanto o normal quanto o patológico.

Escritos de Freud sobre seuxalidade

(do apêndice do Volume VII das “Obras Completas” de Freud)

É claro que as referências à sexualidade são encontradas na grande maioria
dos escritos de Freud. A lista que se segue compreende aqueles que versam
mais diretamente sobre o assunto. A data indicada no início de cada item
corresponde ao ano de publicação, e o número romano entre parêntese, ao
volume das “Obras Completas” em que se encontra.

1898 (III) – “A Sexualidade na Etiologia das
Neuroses”. 1905 (VII) – Três Ensaios sobre a
Teoria da Sexualidade.

1906 (VII) – “Minhas Teses sobre o Papel da Sexualidade na Etiologia das
Neuroses”. 1907 (IX) – “O Esclarecimento Sexual da Criança”.

1908 (IX) – “Caráter e Erotismo Anal”.

1908 (IX) – “Sobre as Teorias Sexuais das Crianças”.

1908 (IX) – “Moral Sexual ‘Civilizada’ e Doença Nervosa
Moderna”. 1910 (XI) – Cinco Lições de Psicanálise,
Conferência IV.

1910 (XI) – Leonardo Da Vinci e Uma Lembrança de Sua Infância, Capítulo III.

1910 (XI) – “Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita Pelos
Homens (Contribuições à Psicologia do Amor 1)”.

1912 (XII) – “Contribuições para um Debate sobre a Masturbação”.

1913 (XII) – “A Disposição à Neurose Obsessiva – Uma
Contribuição ao Problema da Escolha da Neurose”.

1913 (XIII) – “O Interesse Científico da Psicanálise”,
Parte II (C). 1913 (XII) – Prefácio a Scatologic Rites of All
Nations, de Bourke. 1914 (XIV) – “Sobre o Narcisismo:
Introdução”.

1916-17 (XV) – Conferências Introdutórias sobre Psicanálise,
Conferências XX, XXI, XXII e XXVI.

1917 (XVII) – “As Transformações do Instinto Exemplificadas no
Erotismo Anal”. 1918 (XI) – “O Tabu da Virgindade”.

1919 (XVII) – “Uma Criança é Espancada”.

1920 (XVIII) – “A Psicogênese de um Caso de Homossexualismo Numa
Mulher”.


1922 (XVIII) – “Alguns Mecanismos Neuróticos no Ciúme, na
Paranóia e no Homossexualismo”, Seção C.

1923 (XVIII) – Dois Verbetes de Enciclopédia: (2) “A Teoria
da Libido”. 1923 (XIX) – “A Organização Genital Infantil”.

1924 (XIX) – “O Problema Econômico do Masoquismo”.

1924 (XIX) – “A Dissolução do Complexo de Édipo”.

1925 (XIX) – “Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença
Anatômica entre os Sexos”.

1927 (XXI) – “Fetichismo”.

1931 (XXI) – “Tipos Libidinais”.

1931 (XXI) – “Sexualidade Feminina”.

1933 (XXII) – Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise,
Conferências XXXII e XXXIII.

1940 (XXIII) – [1938] Um Esboço de Psicanálise, Capítulos
III e VII. 1940 (XXIII) – [1938] “A Divisão do Ego no
Processo de Defesa”.

A SEXUALIDADE INFANTIL E A PSICANÁLISE.


Na experiência e na teoria psicanalíticas, “sexualidade” não designa apenas as
atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital,
mas toda uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância
que proporcionam um prazer irredutível à satisfação de uma necessidade
fisiológica fundamental (respiração, fome, função de excreção, etc.), e que se
encontram a título de componentes na chamada forma normal do amor sexual.

A psicanálise confere, como sabemos, grande importância à sexualidade no
desenvolvimento e na vida psíquica do ser humano. Mas não poderemos
compreender esta tese sem avaliarmos, ao mesmo tempo, a transformação por
que passou a noção de sexualidade. Não pretendemos aqui determinar qual a
função da sexualidade na apreensão psicanalítica do homem, mas apenas
precisar, quanto à sua extensão e compreensão, o uso que os psicanalistas
fazem do conceito da sexualidade. Se partirmos da visão comum que define a
sexualidade como instinto, isto é, como um comportamento pré-formado,
característico da espécie, como um objeto (parceiro do sexo oposto) e uma
meta (união dos órgãos genitais no coito) relativamente fixos, perceberá que
ela só muito imperfeitamente explica fatos fornecidos tantos pela observação
direta como pela análise.

Em extensão a existência e a freqüência das perversões sexuais, cujo
inventario fora realizado por alguns psicopatologistas do fim do século XIX
(Krafft-Ebing, Havelock Ellis), mostraram que existe grande variedade quanto à
escolha de objeto sexual e quanto ao modo de atividade utilizado para obter a
satisfação. Freud estabelece que existem numerosas transições entre a
sexualidade perversa e a chamada sexualidade normal: aparecimento de
perversões temporárias quando a satisfação habitual se torna impossível,
presença – sob a forma de atividades que preparam e acompanham o coito
(prazer preliminar) – de comportamentos encontrados nas perversões, seja
como substitutos, seja como condição indispensável da satisfação.


A psicanálise das neuroses mostra que os sintomas constituem realizações de
desejos sexuais que se efetuam sob forma deslocada, modificada por
compromissos com a defesa, etc. Por outro lado, são freqüentemente desejos
sexuais perversos que encontramos por detrás deste ou daquele sintoma. Para
Freud, é sobretudo a existência de uma sexualidade infantil, que atua desde o
princípio da vida, que vem ampliar o campo daquilo que os psicanalistas
chamam sexual. Ao falarmos de sexualidade infantil, não pretendemos
reconhecer apenas a existência de excitações ou de necessidades genitais
precoces, mas também de atividades aparentadas com as atividades perversas
do adulto, na medida em que põem em jogo zonas corporais (zonas erógenas)
que não são apenas a zonas genitais, e na medida em que buscam um prazer
(sucção do polegar, por exemplo). Neste sentido, os psicanalistas falam de
sexualidade oral, anal, etc. Em compreensão esta maior extensão do campo da
sexualidade levou necessariamente Freud a procurar determinar os critérios
daquilo que seria especificamente sexual nestas diversas atividades. Uma vez
estabelecido que o sexual não é redutível ao genital (assim como o psiquismo
não o é ao consciente), o que autoriza o psicanalista a atribuir caráter sexual a
processos onde o genital está ausente? A questão se coloca essencialmente
em relação à sexualidade infantil, porque no caso das perversões do adulto a
excitação genital está geralmente presente.

O problema é francamente abordado por Freud, especialmente nos capítulos
XX e XXI das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise –1915-17, onde
coloca para si mesmo a seguinte objeção: “Por que haveis de teimar em já
chamar sexualidade a estas manifestações da infância que sois os primeiros a
considerar indetermináveis e a partir das quais o sexual vai mais tarde
constituir-se? Por que não dizer simplesmente, contentando-vos apenas com a
descrição fisiológica, que já no lactente são observadas atividades”, como a
sucção e a retenção dos excrementos, que nos mostram que a criança visa
prazer de órgão. Embora deixando a questão em aberto, Freud responde
apresentando o argumento clínico segundo o qual a análise dos sintomas no
adulto nos conduz a estas atividades infantis geradoras de prazer, e isto por


intermédio de um material incontestavelmente sexual. Postular que as próprias
atividades infantis são sexuais supõe uma operação suplementar: para Freud,
aquilo que se encontra no fim de um desenvolvimento que podemos
reconstituir passo a passo devia encontrar-se, pelo menos em germe, desde o
início. No entanto, ele reconhece por fim que “…não estamos ainda de posse
de um sinal universalmente reconhecido e que permita afirmar com certeza a
natureza sexual de um processo”. Freud declara muitas vezes que tal critério
deveria ser descoberto na ordem bioquímica. Em psicanálise, tudo o que se
pode postular é dada pela clínica, a qual, porém, nos mostra a sua evolução e
transformações.

Vemos que a reflexão freudiana parece tropeçar numa dupla aporia referente,
por um lado, à essência da sexualidade (em que a última palavra é deixada a
uma hipotética definição bioquímica) e, por outro, à sua gênese, pois Freud
contenta-se em postular que a sexualidade existe virtualmente desde o início. É
no que se refere à sexualidade infantil que esta dificuldade é mais patente; é
aqui também que podemos encontrar indicações quanto à solução. Já ao nível
da descrição quase fisiológica do comportamento sexual infantil, Freud mostrou
que a pulsão sexual se destaca a partir do funcionamento dos grandes
aparelhos que garantem a conservação do organismo. Num primeiro tempo, só
poderíamos referenciá-la como um a mais de prazer fornecido à margem da
realização da função (prazer sentido com a sucção, além do saciar da fome). É
num segundo tempo que este prazer marginal será procurado por si mesmo,
para além de qualquer necessidade de alimentação, para além de qualquer
prazer funcional, sem objeto exterior e de forma puramente local ao nível de
uma zona erógena. Apoio, zona erógena, auto-erotismo são para Freud as três
características, estreitamente ligadas entre si, que definem a sexualidade
infantil. Vemos que, quando Freud procura determinar o momento de
emergência da pulsão sexual, esta surge quase como uma perversão do
instinto, em que se perdem o objeto específico e a finalidade


orgânica.

Numa perspectiva temporal bastante diversa, Freud insistiu muitas vezes na
noção de a posteriori; novas experiências vão conferir a experiências precoces,
relativamente indeterminadas, uma significação que elas não possuíam na
origem. Poderemos dizer, em último caso, que as experiências infantis, a da
sucção por exemplo, começam não-sexuais e que o seu caráter sexual só lhes
é atribuído secundariamente, depois que aparece a atividade genital? Essa
conclusão parece infirmar, na medida em que sublinha a importância do que há
de retroativo na constituição da sexualidade, o que dizíamos acima da
emergência desta, e a “fortiori” a perspectiva genética segundo a qual o sexual
já está implicitamente presente desde a origem do desenvolvimento
psicobiológico.

Essa é justamente uma das principais dificuldades da teoria freudiana na
sexualidade; esta, na medida em que não é um dispositivo inteiramente
montado, mas se estabelece ao longo de uma história individual que muda de
aparelhos e de objetivos, não pode ser entendida exclusivamente no plano de
uma gênese biológica, mas, inversamente, os fatos estabelecem que a
sexualidade infantil não é uma ilusão retroativa. Na nossa opinião, a solução
para esta dificuldade poderia ser procurada na noção de fantasias originárias
(ou protofantasias), que de certa maneira vem equilibrar a de a “posteriori”.
Sabe-se que Freud designa assim, apelando para a “explicação filogenética”,
certas fantasias (cena originária, castração, sedução) que podemos encontrar
em cada sujeito e que informam a sexualidade humana. Esta, portanto, não
seria explicável apenas pela maturação endógena da pulsão: constituir-se-ia no
seio de estruturas intersubjetivas que preexistem à sua emergência no
indivíduo. A fantasia de “cena originária” pode, no seu conteúdo, nas
significações corporais que nela estão presentes, referir-se preferencialmente a
determinada fase libidinal (sádico-anal), mas, na sua própria estrutura
(representação e solução do enigma da concepção), não se explica, para


Freud, pela simples conjunção de indícios fornecidos pela observação; constitui
a variante de um “esquema” que “já está lá” para o sujeito.

A outro nível estrutural, poderíamos dizer o mesmo do complexo de Édipo,
definido como regendo a relação triangular entre a criança e os pais. Ora, é
significativo que os psicanalistas que mais se dedicaram a descrever o jogo
fantasístico imanente à sexualidade infantil (escola kleiniana) nele tenham visto
em ação, muito precocemente, a estrutura edipiana. A reserva de Freud quanto
a uma concepção puramente genética e endógena da sexualidade verifica-se
igualmente no papel que continuou a atribuir à sedução, uma vez reconhecida
a existência de uma sexualidade infantil. Simultaneamente ligada, pelo menos
nas origens, a necessidades tradicionalmente designadas como instintos, e
independente deles, simultaneamente endógena, na medida em que conhece
uma linha de desenvolvimento e passa por diversas etapas, e exógena, na
medida em que irrompe no sujeito a partir do mundo adulto (pois o sujeito tem
que se situar de saída no universo fantasístico dos pais e recebe deles, de
forma mais ou menos velada, incitamentos sexuais), a sexualidade infantil é
difícil de aprender ainda pelo fato de não ser suscetível nem de uma explicação
redutora que faria dela um funcionamento fisiológico, nem de uma
interpretação “pelo alto”, qu pretendesse que Freud descreve sob o nome de
sexualidade infantil os avatares da relação de amor. Quando Freud a encontra
em psicanálise é sempre sob a forma de desejo: este, ao contrário do amor,
está em estreita dependência de um suporte corporal determinado e, ao
contrário da necessidade, faz depender a satisfação de condições fantasísticas
que determinam estritamente a escolha de objeto e a articulação da atividade.

OS TRANSTORNOS DE SEXUALIDADE.

Uma pessoa que tem transtornos da sexualidade, não completou o processo
evolutivo normal até o ajustamento adulto saudável. A permanência da ameaça
infantil inconsciente de castração pelo pai ou de separação da mãe oferece um


campo aberto para o desenvolvimento desses transtornos. A tentativa de se
associar fatores orgânicos ao comportamento sexual sempre acaba caindo em
generalizações que tornam a hipótese falha. Níveis hormonais anormais, sinais
neurológicos leves ou subclínicos, anormalidades cromossômicas e alterações
inespecíficas no eletroencefalograma parecem ocorrer em alguns casos. Na
realidade, a diferenciação entre a sexualidade normal e anormal é muito tênue
e sujeita a diversas influências. O comportamento sexual e as fantasias
individuais são muito íntimos e só raramente chegam ao conhecimento médico.
Ainda estamos distantes de detectar fatores psicológicos ou orgânicos claros
para afirmar serem eles

os responsáveis por qualquer comportamento específico. Apesar do consenso
de que os transtornos de identidade sexual e de preferência sexual não sejam
raros e suas definições facilmente operacionalizadas, são poucos os trabalhos
epidemiológicos. Talvez porque o diagnóstico não seja realizado, já que os
examinadores freqüentemente não questionam os pacientes sobre suas
intimidades sexuais ou porque na maioria dos casos os sintomas são ego-
sintônicos e os pacientes não os apresentam como queixa ou, ainda, porque
são muitas vezes omitidos deliberadamente.

Mais de 50% dos transtornos de preferência sexuais se iniciam antes dos 18
anos de idade. No caso dos transtornos de identidade sexual, parece que
raramente se iniciam depois dos 21 anos de idade, sendo muitas vezes
relatados em crianças de três a cinco anos de idade. A pedofilia é o transtorno
de preferência sexual mais comum. Aproximadamente 15% de todas as
crianças já foram molestadas antes de atingir 18 anos. A violência à crianças é
sempre considerada com a maior seriedade, e os casos descobertos chegam
sempre a público. Os casos de sadomasoquismo são sempre sub-
representados porque só chegam às estatísticas os casos graves com
conseqüências legais ou policiais. Entre os pacientes com transtorno de


preferência sexual que procuram tratamento, quase 50% apresentam pedofilia,
25% queixam-se de exibicionismo e 12% de voyeurismo.

A 10ª edição da Classificação dos Transtornos Mentais (CID10) da
Organização Mundial de Saúde (OMS) divide os transtornos sexuais em três
grupos:

DISFUNÇÃO SEXUAL NÃO CAUSADA POR TRANSTORNO OU DOENÇA
ORGÂNICA (F52).

A resposta sexual é tão intrínseca da personalidade que se torna impossível
avaliar a importância relativa dos fatores psicológicos e orgânicos. Alguns tipos
de disfunção (perda do interesse sexual, por exemplo) acometem homens e
mulheres, embora as mulheres, mais freqüentes relatem falta de prazer ou
interesse.

FALTA OU PERDA DE DESEJO SEXUAL.

É o problema principal e não o secundário em relação a outras dificuldades,
tais como falha da ereção ou dispareunia. Embora não impossibilitando o
prazer, torna a iniciativa da atividade mais difícil. É um transtorno sexual
hipoativo que se expressa com frigidez. A disfunção do desejo pode ser: Total:
quando nunca, em momento algum, sentem prazer no coito. Não são
portadoras de libido. Parcial: quando apenas algumas poucas vezes
apresentam desejo sexual. Normalmente tais mulheres dificilmente atingem o


orgasmo. Circunstancial: neste caso, a disfunção de desejo está ligada a
determinadas circunstâncias, a momentos, que podem ser ocasionado, pelo
objeto sexual (um parceiro inadequado sexualmente), pelo local (ninho de amor
inadequado), trauma ligado ao ato sexual (violência sexual, etc.), etc.,
permanecendo enquanto existir o problema.

AVERSÃO SEXUAL E AUSÊNCIA DE PRAZER SEXUAL.

A possibilidade de relação sexual provoca fortes sentimentos negativos,
suficientes para que a relação seja evitada, ou para que as respostas sexuais
ocorram normalmente. O orgasmo pode ser alcançado, mas há uma falta de
prazer apropriado, ao que se denomina anedonia sexual.

FALTA DE RESPOSTA GENITAL

No homem é caracterizada pela disfunção na ereção no ato sexual, ocorrendo
quando a ereção surge normalmente em certas situações como a masturbação
ou com uma parceira diferente ou durante o sono; muito provavelmente, o fator
fundamental é psicológico. Em mulheres, o problema mais freqüente é o
ressecamento ou falha de lubrificação vaginal , sendo que os fatores
importantes podem ser psicogênicos ou infecções ou deficiências de estrogênio
(freqüentemente na menopausa).

DISFUNÇÃO ORGÁSTICA


No orgasmo não ocorre ou se faz de modo muito retardado. Isso pode ser
situacional (ocorre sobretudo com determinados parceiros) ou é invariável
quando fatores de natureza física não podem ser excluídos. É mais comum em
mulheres do que em homens. As disfunções orgásticas ou anorgasmias são
classificadas em: Primária: quando a mulher nunca experimentou o orgasmo.
Secundária: neste caso, a mulher tornou-se anorgástica, após ter
experimentado o orgasmo. Anorgasmia total: trata-se da popularmente
conhecida frigidez, que é a incapacidade de a mulher atingir o orgasmo em
qualquer situação ou momento. Anorgasmia parcial: denomina-se anorgasmia
parcial a dificuldade que a mulher tem em atingir o orgasmo, ou seja, é lenta
em sua resposta orgástica. Anorgasmia circunstancial: é o caso em que a
mulher tem dificuldade de atingir o orgasmo em determinadas circunstâncias, à
semelhança da disfunção de desejo circunstancial, já citada. Podemos ainda,
aqui acrescentar: o sentimento de culpa, onde muitas mulheres, por nutrirem tal
sentimento ligado ao sexo, têm seus pensamentos desviados do ato;
narcisismo, quando a mulher é bela vive se admirando, tão concentrada em
sua beleza que não consegue se concentrar no ato sexual, antes está
preocupada em não desarrumar o cabelo, quebrar a unha, etc.

EJACULAÇÃO PRECOCE

Refere-se à incapacidade de controlar a ejaculação para que ambos os
parceiros possam ter orgasmo. Em muitos casos, a ejaculação pode ocorrer
antes mesmo do que em homens. Esta impossibilidade só se observa
geralmente no caso do coito, podendo ejacular normalmente pelo processo
masturbatório. Podem ser das seguintes origens:

Orgânica: diabetes, doença neurológica que interfira na sensibilidade do pênis,
doenças que causem baixa de androgênio, etc. Psicológica: ocorre na maioria


dos casos, sendo : a fixação à auto-ereção, associada à masturbação na
puberdade; fixação à fase fálica, associada à micção, gerando um medo
inconsciente de punição por ejacular; um mau relacionamento conjugal;
aversão inconsciente a ser pai, etc.

VAGINISMO NÃO-ORGÂNICO

Surge quando há espasmos dos músculos que circundam a vagina, causando
oclusão da abertura vaginal. A penetração torna-se difícil e dolorosa ou mesmo
impossível, no vaginismo patogênico.

DISPAREUNIA NÃO-ORGÂNICA

Refere-se a dor durante a relação sexual, ocorrendo tanto em mulheres como
em homens. Essa categoria só deve ser usada quando não há outra disfunção
sexual (como vaginismo ou ressecamento vaginal).

IMPULSO SEXUAL EXCESSIVO.

Não costuma ser queixa de pacientes, embora possa ocorrer em mulheres e
homens, sobretudo na adolescência e início da idade adulta. No homem é
chamada satiríase, e na mulher, ninfomania.Quando o impulso sexual é
secundário a um transtorno primário deve ser codificado.

TRANSTORNOS DE IDENTIDADE SEXUAL


São relativamente raros, eles chamam a atenção devido às suas
características surpreendentes, bizarras e muitas vezes inadequadas.

TRANSEXUALISMO

É o desejo de viver e ser aceito como um membro do sexo oposto. Usualmente
acompanha-se por uma sensação de desconforto ou impropriedade de seu
próprio sexo anatômico. Muitas vezes, os pacientes recorrem a tratamentos
hormonais e cirurgias com o objetivo de tornar o corpo congruente com o sexo
preferido.

TRANSVESTISMO DE DUPLO PAPEL

Caracteriza-se pelo uso de roupas do sexo oposto durante um breve período
para desfrutar a experiência temporária de ser o sexo oposto. Não há desejo
de mudança de sexo ou busca de cirurgias ou hormônios.

TRANSTORNO DE IDENTIDADE SEXUAL NA INFÂNCIA

É o desejo persistente e invasivo da criança de ser do sexo oposto.
Acompanha-se de intensa rejeição pelo comportamento, atributos e/ou
vestimentas do sexo original. Em geral, começa nos anos pré-escolares.
Ocorre mais em meninos do que em meninas. Aproximadamente 70% desses
indivíduos, quando adultos, mantêm orientação homossexual.

TRANSTORNOS DE PREFERÊNCIA SEXUAIS


Têm em comum algumas características: são fantasias sexuais persistentes,
repetitivas ou intrusivas; são, muitas vezes, ego-sintônicas, mas reconhecidas
como pouco usuais; a excitação sexual e o orgasmo são inteiramente
dependentes destas fantasias; há uma grande importância da fantasia na vida
do paciente; nos casos graves há outros diagnósticos psiquiátricos associados,
como transtorno de personalidade “borderline” ou psicoses.

FETICHISMO

È a presença de dependência de alguns objetos inanimados, em geral artigos
de vestuário e calçados, como estímulo para excitação e satisfação sexuais. O
fetichismo só deve ser diagnosticado quando é a fonte mais importante ou
única de excitação sexual.

TRANSVESTISMO FETICHISTA.

É o uso de roupas do sexo oposto para obter excitação sexual. O
transvestismo fetichista se distingue do transvestismo transexual por sua
associação à excitação sexual, com forte desejo de tirar a roupa assim que o
orgasmo acontece.

EXIBICIONISMO.

É uma tendência recorrente ou persistente de expor a genitália a estranhos ou
a pessoas em lugares públicos, sem convite ou pretensão de um contato mais
íntimo. Há excitação quando da exposição, e o ato é comumente seguido de
masturbação.

VOYEURISMO.

É o comportamento recorrente ou persistente de olhar pessoas envolvidas em
comportamentos sexuais ou íntimos, tais como despir-se, sem que a pessoa
observada tome conhecimento. Isso leva à excitação e masturbação.

PEDOFILIA.

É a preferência sexual por crianças, usualmente em idade pré-puberal ou no
início da puberdade. A pedofilia, apesar de sua freqüência elevada, raramente
é identificada em mulheres. Freud classificou a pedofilia como sendo a
perversão dos indivíduos “fracos e impotentes”. Estes sentem-se atraídos por
crianças por serem mais fracas e mais fáceis de conquistar quando outros
objetos lhe são excluídos pela angústia.

SADOMASOQUISMO.

É a preferência por atividade sexual que envolva servidão ou a inflição de dor
ou humilhação. Caso o indivíduo prefira ser objeto de tal estimulação,
chamamos de masoquismo; se é executor, chamamos de sadismo. Muitos
indivíduos apresentam as duas caraterísticas.

TRANSTORNOS MÚLTIPLOS; E OUTROS TRANSTORNOS

A) NECROFILIA: é uma desordem sexual caracterizada pela necessidade de
ato sexual com cadáveres. Está ligada a um distúrbio mental normalmente


hereditário. Tem uma relação bem clara com o complexo de castração, onde a
equação pode ser definida da seguinte maneira, “transar com quem já morreu,
não me traz o risco de ser castrado.”. Os desajustes desta ordem têm um
componente neurótico mas também profundamente psicótico, onde em
momentos de angústia há dissociação da realidade e o instinto impele
profundamente para a necessidade de satisfação sexual com um corpo morto,
que não lhe possa reagir.

B) ZOOFILIA: também conhecida como bestialidade, consiste na relação
sexual com animais. É um distúrbio sexual encontrado principalmente em
pessoas pervertidas com características de rudez, insensibilidade e grosseria,
normalmente mais presente no campo, entre lavradores. Devido a transtornos
neuróticos, tal pessoa vive um bloqueio afetivo para com o amor a um parceiro
humano, onde a idéia presente em nível consciente expressa a crença errada
de que o animal é mais adequado que o semelhante em termos sexuais.

C) INCESTO: caracteriza pela prática sexual entre pessoas unidas por vínculo
familiar. É normalmente resultante da mudança de objeto no período de
desenvolvimento edipiano, onde ocorre um deslocamento parental, fazendo
com que a libido seja direcionada somente a certo membro da família, tendo
mais freqüência o caso entre irmãos, entre pais e filhos, e parentes próximos.

D) GERONTOFILIA: caracteriza-se pela preferência sexual por pessoas de
idade avançada. Boa parte destes pervertidos, foi criada por pessoas ou
mesmos pais idosos desde o nascimento, passando pelas fases do
desenvolvimento psicossexual na companhia destes, e pelo fato de sofreram
alguma interferência, desenvolvendo a regressão a um ponto onde houve a
fixação da sua sexualidade.


TRATAMENTOS

Em geral, os transtornos de sexualidade estão associados a um prognóstico
desfavorável. Entretanto, alguns fatores podem melhorar o prognóstico, como a
motivação para a mudança. Entre os fatores que pioram o prognóstico
incluímos: idade de início precoce, freqüência elevada dos atos, ausência de
culpa ou vergonha e o uso associado de drogas.

A motivação do indivíduo em buscar tratamento é o fator determinante para a
obtenção de resultados favoráveis. O tratamento dos transtornos sexuais deve
levar em consideração todos os fatores biológicos, psicológicos e sociais
envolvidos na sexualidade. Sabemos que muitos desses transtornos têm raiz
em problemas médicos subjacentes e que devem ser tratados. Muito
freqüentemente são fatores medicamentosos, tanto de ordem médica como
psiquiátrica. É importante acentuar que mesmo na prática da masturbação, que
permite o prazer do indivíduo com o próprio corpo, faz parte do impulso sexual
ser voltado dominantemente para a relação com outra pessoa de modo real ou
imaginário. Esse aspecto dá à vida sexual caráter peculiar. Na vida dos casais
com ligação duradoura, a satisfação sexual é fator preponderante de harmonia.
A relação sexual bem-sucedida (prazerosa) dá aos parceiros um sentimento de
gratidão mútua que ajuda a suportar os desgastes naturais da vida cotidiana. A
insatisfação exacerba os pequenos antagonismos. É importante, por isso
mesmo, estimular a boa relação entre os parceiros. Isso exige um diálogo
franco sobre todos os aspectos da sexualidade. O fato de ser adulto não indica
que as pessoas estão em condições de viver o sexo com liberdade. Pesa ainda
sobre o sexo uma atitude preconceituosa que impede que os parceiros possam
dialogar livremente sobre desejos, preferências e limites. A base desse diálogo
deve ser o reconhecimento de que não existe o amante ideal. A vida sexual é
uma conquista permanente que vai permitindo um conhecimento maior entre os
parceiros.


Os homens ainda têm dificuldades em aceitar a iniciativa das mulheres. Isso se
deve ao fato de nem sempre se achar dispostos para o relacionamento sexual.
As mulheres, que não têm impedimentos de natureza fisiológica, por vezes
forçam uma disposição que psicologicamente não tem. Esses aspectos não
são conversados entre os parceiros como deveriam. Numerosos homens ainda
se julgam insuficientes por se avaliarem portadores de pênis pequeno. Na
quase totalidades dos casos são atribuídas ao tamanho do pênis outras
insuficiências não anatômicas. O homem é condenado à autenticidade sexual e
não consegue muitos orgasmos seguidos. As mulheres têm maior liberdade
anatômica e fisiológica; são capazes de orgasmos múltiplos e podem manter
relação sexual fingindo um desejo inexistente. Só a aceitação dos limites
permite o diálogo franco e aberto.

A vida sexual é um aprendizado em que cada parceiro precisa escutar o desejo
do outro. Isso não é fácil. Desvios como a pedofilia, o fetichismo, a necrofilia,
os estupros mostram a dificuldade de respeitar o parceiro e a tendência
freqüente de anulá-lo. É importante ter presente os limites de ordem biológica.
Numerosas doenças de natureza médica estão envolvidas na disfunção da
ereção.

Doenças cardiovasculares, como o aneurisma da aorta e a insuficiência
cardíaca; distúrbios urológicos, como o mal de Peyronie, hidrocele ou
varicocele; genéticos, como a síndrome de Klinefelter; distúrbios endócrinos,
como os diabetes mellitus. Quando essas e outras condições médicas estão
envolvidas, cumpre trata-las para evitar os efeitos sobre a ereção e ejaculação.

Efeitos colaterais de várias substâncias, como os antidepressivos tricíclicos
(imipramina, clomipramina, etc.), o carbonato de lítio e as anfetaminas, também
podem dificultar a ereção, a ejaculação e o orgasmo. Outras drogas usadas de
modo abusivo, tais como álcool, cocaína, heroína, podem comprometer a
ereção e a ejaculação. Antidepressivos, como imipramina, clomipramina,


nortriptilina, fluoxetina e sertralina, podem contribuir para a inibição do orgasmo
feminino. Quando o sintoma aparece simultaneamente com essas medicações,
importa avaliar a relação de custo e benefício das mesmas. Apesar de difícil, o
tratamento deve ser sempre multidisciplinar, com acompanhamento médico
(psiquiatra, ginecologista ou endocrinologista), psicólogos de diferentes
orientações e assistentes sociais.

Há relatos de tratamentos dos transtornos sexuais com métodos psicanalíticos,
comportamentais e outras técnicas diretivas. É sempre difícil acompanhar
esses casos. O que sabemos é que nenhuma dessas técnicas consegue ser
eficiente em todos eles. Isso deve levar a uma atitude humilde de abertura para
outros tipos de investigação. A psicanálise e as psicoterapias de orientação
psicanalítica são a abordagem mais comum desses problemas, apesar da
escassez de estudos controlados. Ajudam o paciente a entender a dinâmica
psicológica dos eventos e tentar reformula-las. A terapia comportamental deve
ser utilizada para corrigir padrões específicos de desajustamento sexual.
Estímulos aversivos desagradáveis são pareados com os impulsos, que então
tendem a diminuir. Técnicas cognitivas (autoconscientização, auto-avaliação e
auto-reafirmação) e de dessensibilização sistemática também podem ser
utilizadas. O uso de medicação fica restrito a sintomas ou síndromes ansiosas
ou depressivas associadas. A medicação deve ser utilizada por tempo limitado
e em indicações muito precisas, apenas como um coadjuvante às
psicoterapias.

UM BREVE HISTÓRICO SOBRE A SEXUALIDADE E FASES
PSICOSSEXUAIS.

Até o final do século passado havia a noção de que o sexo era um instinto que
despertava com a puberdade e tinha como objetivo a reprodução. O sexo era


entendido em termos da sexualidade genital do adulto. A sexualidade infantil
era negada ou considerada como anomalia.

No início do século, as postulações revolucionárias de Freud situam a
sexualidade na infância e no inconsciente, ampliando o conceito do termo
“sexual”, que deixa de ser sinônimo de “genital”. Essa visão ampliada foi
exposta em 1905 nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. O termo
“sexual”, aparece ligado a um conjunto de atividades não restritas aos órgãos
genitais, que começa na infância e não na puberdade, e cuja finalidade é o
prazer e não apenas a reprodução. Essas postulações de Freud suscitaram
naturalmente numerosas discussões que foram permitindo uma visão nova
sobre a sexualidade humana, que começou a ser vista com menos preconceito.

O conceito de normalidade sexual tende a ser considerado como tudo o que é
praticado por adultos legalmente capazes, com o consentimento dos parceiros
e que não implique lesão física de nenhum dos participantes. A excitação
caracteriza-se essencialmente pela ereção do homem e a lubrificação vaginal
na mulher, que se verifica a partir de atividades ou pensamentos estimulantes.
O platô, é o estágio de grande excitação e tensão sexual que precede
imediatamente o orgasmo. A ereção é completada por vasocongestão do corpo
cavernoso do pênis, que aumenta de tamanho e de diâmetro. Nas mulheres há
ereção dos mamilos e do clitóris. Essas transformações são acompanhadas de
sensação de prazer. O orgasmo é a ejaculação com contrações do cordão
espermático, das vesículas seminais, da próstata e da uretra no homem, e
contrações vaginais e uterinas na mulher. A fase de resolução é a involução
gradativa da ereção, com a volta ao tamanho habitual do pênis e do clitóris em
razão da perda da vasocongestão; sensação de relaxamento e bem-estar dos
parceiros. Durante essa fase, os homens ficam refratários a novos orgasmos
por período que aumenta com a idade. As mulheres são capazes de outros
orgasmos, logo em seguida. Freud (1905/1972) reconstruiu, a partir dos
tratamentos de seus pacientes, das observações diretas realizadas por


pediatras e por ele próprio e as descrições publicadas de quadros
psicopatológicos e de povos primitivos, as diversas fases pelas quais passaria
o indivíduo, desde seu nascimento; elaborou a teoria da progressão da libido,
do estágio oral para o anal e para o genital com a conseqüente reorganização
seqüencial do impulso e da natureza do Id. Erikson (1976) estabeleceu que o
indivíduo passa da confiança para a autonomia e para a atividade, através da
reorganização seqüencial do Ego e das estruturas de caráter. Spitz (1979)
referiu-se aos princípios organizadores que levam a sucessivas restruturações
dos precursores do Ego. Mahler (1993) concluiu que o indivíduo vai do autismo
normal para a simbiose normal e para a separação-individuação, noção que
depois abandonou face à observação empírica contraditória; haveria
restruturação do Ego e do Id, mas nos termos da experiência e do eu-e-outro
do bebê. Klein (1974) descreve as posições esquizo-paranóide e depressiva,
que levam à restruturação da experiência de eu e outro. Stern (1992) pensa
que sua abordagem se aproxima mais às duas últimas, já que a preocupação
central é com a experiência de eu-e-outro do bebê, diferindo, entretanto,
quanto ao que se considera ser a natureza dessa experiência: a ordem de
seqüência do desenvolvimento do senso de self, livre dos obstáculos e das
confusões trazidas pelas questões do desenvolvimento do Ego ou do Id. Todas
as teorias psicanalíticas compartilham outra premissa: o desenvolvimento
progride de um estágio para o seguinte, sendo cada estágio não apenas uma
fase específica para o desenvolvimento do Ego ou do Id, mas também
específica para certas questões protoclínicas. As fases do desenvolvimento se
referem a um tipo específico de questão clínica que se verá desenvolvendo
patologias em etapas posteriores da vida (Stern, 1992). Dois autores citados
por Stern (1992), Peterfreund e Klein, criticam este ponto, afirmando que se
trata de uma teoria do desenvolvimento que, além de ser retrospectiva, ou seja,
descreve por uma reconstrução do passado a partir de estruturas mais
evoluídas, traduz-se pela morfologia da patologia.

FASES DO DESENVOLVIMENTO SEXUAL (FASES PSICOSSEXUAIS).

Freud foi o primeiro a nos fornecer um quadro claro da grande importância que
tem, para nossa vida e desenvolvimento psíquicos e sexuais, a relação com
outras pessoas. A primeira delas é naturalmente, a relação da criança com os
pais, relação esta que, a princípio, na maior parte dos casos se restringe
principalmente à mãe ou à sua substituta. Um pouco mais tarde surge a
relação com os irmãos, ou outros companheiros próximos, e o pai.

Freud assinalou que as pessoas às quais a criança se apega em seus
primeiros anos ocupam uma posição central em sua vida psíquica que é
singular no que concerne a sua influência. Isto é exato, quer o apego da
criança a essas pessoas seja por laços de amor, de ódio, ou ambos, sendo o
último caso o mais comum.

Nos estágios iniciais da vida, a criança não percebe os objetos como tais e só
gradativamente, ao longo dos primeiros meses de seu desenvolvimento,
aprende a distinguir sua própria pessoa dos objetos. Também entre os objetos
mais importantes da infância, se incluem as várias partes do próprio corpo da
criança, isto é, seus dedos, artelhos e boca. Todos eles são importantes como
fonte de gratificação, razão pela qual admitimos que sejam altamente
catexizados pela libido. Para sermos mais precisos, deveríamos dizer que os
representantes psíquicos dessas partes do corpo da criança são altamente
catexizados, já que não mais acreditamos, que a libido seja como um hormônio
que se pode transmitir a qualquer parte do corpo e lá se fixar.

A este estado de libido autodirigida Freud (1914) denominou de narcisismo,
segundo a lenda grega do jovem Narciso, que se enamorou de si mesmo. Os
primeiro objetos da criança são chamados de objetos parciais. Com isto


significamos, por exemplo, que só depois de muito tempo a mãe existe para a
criança como um objeto total. Antes disso, seu seio, ou a mamadeira, sua mão,
seu rosto, etc., consistiam, cada um, objetos separados na vida mental da
criança, e pode bem ser que mesmo aspectos diferentes do que fisicamente
constitui um único objeto seja também, para a criança, objetos distintos, e não
unidos ou relacionados. Só se desenvolve uma relação de objeto contínua na
última parte do primeiro ano de vida. Uma das características importantes
dessas primeiras relações de objeto é seu alto grau do que chamamos
ambivalência. Quer dizer, sentimentos de amor podem alternar em igual
intensidade com sentimentos de ódio, segundo as circunstâncias. As primeiras
fases das relações de objeto são comumente designadas como relações de
objeto pré-genitais, ou, às vezes, mais especificamente como relações de
objeto anais ou orais. O emprego habitual da palavra “pré-genital” neste sentido
é incorreto. O termo apropriado seria “pré-fálico”. De qualquer modo, na
literatura psicanalítica, as relações de objeto da criança denomina-se
comumente, conforme a zona erógena que, no momento, esteja
desempenhando o papel mais importante na vida libidinal da criança.

As características da sexualidade infantil, polimorfa e perversa, Freud bem as
descreveu em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”. A sexualidade
infantil difere da do adulto em diversos aspectos. A diferença que mais
impressiona situa-se no fato da maior excitação não se localizar,
necessariamente, nos genitais, mas no fato de que os genitais, a bem dizer,
desempenham a parte de “primus inter pares” entre muitas zonas erógenas.
Também diferem os objetivos: não levam, necessariamente, ao contato sexual,
mas alonga-se em atividades que vêm a desempenhar papel, futuramente, no
pré-prazer. A sexualidade infantil pode ser ato-erótica, ou seja, tomar para
objeto o próprio corpo ou partes deste. Os componentes que se dirigem para
os objetos portam traços arcaicos (objetivos de incorporação, ambivalência).
Quando um instinto parcial é bloqueado, reforçam-se, correspondentemente,
instintos parciais “colaterais”.


A criança pequena é uma criatura instintiva, cheia de impulsos sexual
perversos polimorfo, cheio de uma sexualidade total ainda indiferenciada, a
qual contém num só todos os instintos parciais. Freud sugeriu que se
distinguissem dois tipos de excitação : uma que é evocada por estímulos
externos, preceptivos, descontínuos; outra que resulta de estímulos instintivos
contínuos, dentro do organismo. A assertiva deve, contudo, ser considerada
com mais pormenores. Toda a percepção, todos os estímulos sensoriais, quer
se originem fora, quer se originem dentro do organismo, têm “caráter
provocativo”, isto é, provocam certo impulso à ação.

O papel excepcional que o deslocamento da energia dá aos instintos sexuais
foi o ponto de que Freud partiu na sua primeira classificação dos instintos, pelo
fato de haver notado que os neuróticos se sentiam mal porque reprimiam
certas experiências e porque estas experiências sempre representavam
desejos sexuais. As forças que combatiam os desejos sexuais eram a angustia,
os sentimentos de culpa, ou idéias éticos e estéticos da personalidade; forças
estas contra-sexuais que se podiam sumarizar como “instintos do ego”, vestem
servirem a auto-conservação. Existe a formação de um conflito estrutural onde
o ego rejeita, certas exigências do id; e, com base no conceito de ser o ego
uma camada superficial diferenciada do id, já não se pode sustentar a
esperança de que o ego abrigue, inatamente, outros instintos que não estejam
presentes no id. Ainda que as energias instintivas sejam tratadas no ego de
modo diverso do que o são no id, há de admitir-se que o ego deriva a sua
energia do id, não contendo, primariamente, outros tipos de instintos. Embora
as fases estejam distintamente descritas, é um engano imaginar que elas
ocorram absolutamente isoladas, pois elas podem se sobrepor, ocorrerem
paralelamente ou coincidir, assim como jamais serão completadas superadas,
sendo observado na fase adulta, comportamento que comprova a existência
das fases da sexualidade infantil, o que na maioria dos casos ocorre nas
neuroses. Pode-se dividir a sexualidade pré-adulta, de modo geral, em três
períodos principais: o período infantil, o período de latência e a puberdade.
Hoje em dia se conhece muito bem o começo e o fim do período infantil, ao


passo que aquilo situado no meio ainda requer muita pesquisa; possivelmente
neste período intermediário, ocorrem variações acidentais mais importantes
que as que se dão nas fases inicial e terminal.

PERÍODO PRÉ-GENITAL, PRÉ-FÁLICO OU INFANTIL.

Freud denomina de pré-genitais devido às zonas genitais ainda não atingiram
seu papel predominante. Ao nascer o ser humano traz impulsos inconscientes
em busca do prazer. Os impulsos naturais (id), são manifestações de uma
tenência inata, cuja causa é a libido ou energia sexual.

FASE ORAL.

É o estado oral (mas corretamente intestinal) de organização da libido. A
criança na fase fetal já desenvolve o instinto da sucção. O bebê, logo após seu
nascimento, acha prazer na sucção do seio materno e no vazio que sente
quando retira a boca do seio. Seu gozo é inconsciente, agarrando-se ao seio
materno com satisfação, olhando para os olhos da mãe durante este momento,
tendo o fator alimentar se estabelecido como desejo secundário. A criança
chupa tudo o que encontra, os dedos, lápis, só pelo prazer da sucção. Freud
mostrou que quando a sucção produz prazer, é combinada a fricção de certas
partes do corpo, como a orelha, umbigo ou os genitais externos, sendo estes
atos caracterizado como o movimento precursor que leva a criança a praticar a
masturbação. O fenômeno auto-erótico de chupar o polegar, mostra o prazer
que se obtém do seio ou da mamadeira não se baseia só na gratificação da
fome, mas também na estimulação da mucosa oral erógena; se não fosse
assim, o infante retiraria, desapontado o polegar, visto este não produzir leite.
Aí, a excitação sexual apoiou-se, originalmente, na necessidade de alimento;
tal qual, a excitação sexual primeira também se apoiou noutras funções


fisiológicas, na respiração e sensações cutâneas, nas sensações de defecar e
urinar.

Muitos fenômenos provenientes desta fase são retidos no adulto como o beijo e
muitos costumes alimentares. A “introjeção oral” é, do mesmo passo o
executivo da “identificação primária”. As idéias de que se come um objeto ou
de que por ele se é comido vêm a ser os modos pelos quais se pensa,
inconscientemente, em qualquer reunião objetal. A comunhão mágica que
consiste em “transformar-se na mesma substância”, ou comendo o mesmo
alimento, ou misturando os sangues respectivos, bem como a crença mágica
de que nos tornamos semelhantes ao objeto que comemos baseiam-se no
mesmo fato.

Algumas manifestações de neuroses orais são :beber e comer em excesso,
problemas da linguagem e fala, agressão com palavras (correspondendo ao
morder), xingamentos, gozações, escrúpulos exagerados para não
“incomodar”, desejo inconsciente de se instalar e desalojar todas as pessoas,
incapacidade de aceitar favores e receber presentes. O afã de saber, o estudo
de idiomas, o cantar, a oratória, a declamação, são exemplos de sublimação
das tendências orais.

FASE ANAL.

A análise das neuroses obsessivas permitiu a Freud inserir entre os períodos
oral e fálico outro nível organizacional da libido, a saber, o nível sádico-anal.
Embora o prazer anal se ache presente desde o início da vida, é no segundo
ano que a zona erógena-anal parece tornar-se o executivo principal de toda
excitação, a qual, então onde quer que se origine, tende a descarregar-se pela
defecação. É a fase em que a libido se concentra na região anal, que se torna
uma área carregada de emoção agradável, sendo que em primeiro lugar está a


satisfação física do “vazio” que sentimos após a saída das fezes, o esvaziar o
intestino e em seguida na satisfação mental que a criança sente na execução
desta função para os seus pais. Essa região compreende a junção da pela e a
membrana mucosa anu-retal. As junções de pele e mucosas do corpo são
sensíveis e ao receberem suave estimulação, produzem sentimentos de
prazer. O objetivo primário do erotismo anal, certamente, é o gozo de
sensações prazerosas na excreção. A estimulação da mucosa retal pode
aumentar com a retenção anal exemplificam bem as combinações de prazer
erógeno e a segurança contra a ansiedade. O medo da excreção originalmente
prazerosa leva à retenção e à descoberta do prazer que esta última produz. A
possibilidade de realizar estimulação mais intensa da mucosa (além de
sensação mais intensa pelo aumento da tensão de retenção) é responsável
pelo prazer tensional, que é maior no erotismo anal do que em qualquer outro.
Aqueles que, nas suas satisfações, procuram prolongar o pré-prazer e estender
o prazer final são sempre, latentemente, eróticos anais. A recusa de uma
criança em defecar, é um modo de desafiar a autoridade parental e reafirmar
que as fezes “são delas”, tendo um prazer adicional na sensação em manter o
reto cheio. Elas consideram que as fezes são parte integrante de si mesma,
com as quais presenteia os pais e os adultos que a envolvem, sendo muito
precioso pois é dado de dentro do seu próprio corpo, do seu ser. O manuseio
das fezes pela criança é proveniente desta fase, sendo reprovadas pelos pais
como algo nojento, sujo. Apesar deste valor (indesejado) que é transmitido
pelos pais para as crianças no seu consciente, para o inconsciente irá uma
mensagem de repressão devido ao valor atribuído as fezes pela criança. Onde
ocorreu a fixação anal (neurose anal) , mesmo que as próprias fezes não
possam ser acumuladas indefinidamente, o indivíduo acumulará o que de valor
puder adquirir, entesourando, sem contudo atingir o seu uso apropriado.
Vejamos alguns casos de neurose anal: o caso do avaro que junta dinheiro, o
colecionador que compra quadros valiosos, e não os exibe, e nem mesmo os
olha; dos indivíduos obsessivos, que insistem longo tempo e improdutivamente
em tarefas não completadas; pontualidade exagerada; tendência ao uso de
roupa íntima suja; sede de poder; prazer na descarga de uma linguagem chula.

As crianças que foram obrigadas a defecar por meio de ordens, quando adultas
apresentam acentuada tendência a terem seus problemas solucionados por
outras e tendem a realização de várias atividades simultaneamente, que se
manifesta numa obsessão à leitura durante a defecação. A origem e o caráter
da conexão que existe entre impulsos anais e sádicos, a que se alude na
expressão usada para designar o nível de organização (sadismo anal), são
análogas à oralidade e sadismo: em parte,

deve-se a influências frustradoras e, em parte, ao caráter dos objetivos de
incorporação. Acresçam-se, contudo, dois fatores: em primeiro lugar, o fato de
a eliminação ser, objetivamente, tão “destrutiva” quanto a incorporação; o
objeto do primeiro ato sádico-anal são as próprias fezes, cuja expulsão se
percebe como uma espécie de ato sádico; posteriormente, as pessoas são
tratada como já o foram as fezes; em segundo lugar, o fator de “poder social”
que se envolve no controle dos esfíncteres; exercitando-se no asseio, a criança
encontra oportunidade efetiva para exprimir oposição contra os adultos.
Razões fisiológicas existem para a conexão de erotismo anal, de um lado, e do
outro lado, ambivalência e bissexualidade. O erotismo anal faz que a criança
trate um objeto, a saber, as fezes, de maneira contraditória: expele a matéria
para fora do corpo e a retém como se fosse um objeto amado; aí está a raiz
fisiológica da “ambivalência anal”. Por outro lado ainda, o reto é órgão oco
excretório; órgão excretório que é, pode expelir ativamente alguma coisa; órgão
oco, pode ser estimulado por um corpo estranho que penetre. As tendências
masculinas derivam da primeira faculdade; as tendências femininas, da
segunda; temos aí a raiz fisiológica da conexão existente entre erotismo anal e
a “bissexualidade”. Quando a criança tem uma educação de higiene pessoal
prematura, o indivíduo posteriormente quando adulto poderá ter um
comportamento hostil e rebelde. Porém em seu aspecto formal apresenta-se
asseado, obediente, passivo e medroso. Quando a criança tem uma educação
de higiene tardia, o indivíduo tenderá a ser desasseado, desleixado e
irresponsável. Quando tem uma educação no momento adequado, o indivíduo


terá inconscientemente um sentido normal do poder, e conscientemente uma
atitude adequada diante da sujeira e da limpeza. Como sublimação das
tendências da fase anal, ou seja, os desvio das pulsões para fins aceitos pela
cultura, temos as atividades de artes-plásticas, que são transformações mais
ostensivas do prazer infantil de brincar com as fezes.

EROTISMO URETRAL

O aparecimento do erotismo uretral infantil liga-se tão intimamente ao erotismo
genital infantil que muito não se pode dizer a seu respeito antes de discutir a
genitalidade infantil. É freqüente, todavia aparecer em estádios ulteriores como
opoente pré-genital da sexualidade infantil genuína. A criança erótico-uretral
percebe, necessariamente, a diferença entre os sexos com referência à
micção; e, pois, é comum o erotismo uretral apresentar-se combinado ao
“complexo de castração”. Se bem que, certamente, o objetivo primário do
erotismo uretral seja o prazer da micção, há também um prazer secundário de
retenção uretral, análogo ao prazer de retenção anal, como há conflitos
desenvolvendo-se a este respeito. É o que se vê mais freqüentemente nas
meninas, provavelmente por motivos anatômicos. Seja como for, não parece
que se justifique a idéia suscitada por Ferenczi no sentido de fazer o prazer da
retenção sinônimo de prazer anal e o prazer excretório sinônimo de prazer
uretral. Os objetivos originais do erotismo uretral são auto-eróticos, tal qual o
são os de erotismo anal; posteriormente, também o erotismo uretral pode
voltar-se para os objetos, o aparelho uretral transformando-se, então, em
executivo de fantasias sexualmente excitantes relacionadas com o ato de
urinar em objetos, de ser urinado por objetos; ou de fantasias em que menos
se mostra a conexão com a micção. É freqüente a criança molhar ativamente a
calça ou a cama, por prazer auto-erótico. Mais adiante, pode desenvolver-se a
enurese como sintoma neurótico involuntário, cuja natureza é a de equivalente
inconsciente da masturbação. De modo geral, o prazer de urinar tem caráter
duplo: em ambos os sexos, podem ter significação fálica e até sádica, a micção


equivalendo a penetração ativa, com fantasias de lesar ou destruir; ou se sente
como “deixar escorrer”, como entrega passiva e desistência do controle.

O objetivo do fluxo passivo pode condensar-se com outros objetivos passivos
nos meninos; por exemplo, ser acariciado no pênis, ou ser estimulado na raiz
deste ou no períneo (na próstata). A parte fálica ativa do erotismo uretral nos
meninos não tarda a ser substituída pela genitalidade normal, mas pode
ocorrer que objetivos erótico-uretrais conflitem com a genitalidade,
condensados, muitas vezes, com objetivos anais; é certo que, às vezes, o
erotismo uretral masculino se associa a fantasias, a bem dizer, sádicas,
conforme se vê na análise de casos de ejaculação precoce severa. Muitas
vezes a idéia de “deixar escorrer” desloca-se, da urina para as lágrimas. Nas
mulheres, ocorrem dificuldades erótico-uretrais ulteriores, exprimindo, com a
maior freqüência, conflitos que giram em redor da “inveja do pênis”. Existe uma
conexão entre o erotismo uretral e o sentimento de vergonha.

FASE FÁLICA.

Ao concluir-se a sexualidade infantil, está realizada na concentração genital de
toda excitação sexual; o interesse pelos genitais e pela masturbação alcança
significação dominante; chega a aparecer uma espécie de orgasmo genital. Foi
esta fase que Freud chamou organização genital infantil, ou fase fálica. É a
fase precursora da forma final assumida pela vida sexual e que muito se
assemelha a ela, que se dá por volta do quarto ano de vida. Nesta fase a
criança descobre o prazer na região genital, seja pelo contato do vento, ou da
mão de quem realiza sua higiene, ainda que inconsciente. Assim, os garotos
passam a pegar com mais freqüência no o pênis e as garotas no clitóris, daí o
termo “fálico”.


O ego da criança de três ou quatro anos é mais experiente, mais desenvolvido,
mais integrado e, conseqüentemente, diferente sob muitos aspectos, do ego da
criança de um ou dois anos. Essas diferenças se evidenciam no aspecto do
funcionamento do ego, isto é , nas características das relações de objeto da
criança que se relacionam ao ego. Nessa idade a criança já não mais possui
relações parciais de objeto, se seu desenvolvimento foi normal. Assim, por
exemplo, as diversas partes do corpo da mãe, seus diferentes humores, e seus
papéis contraditórios de mãe “boa” que satisfaz os desejos da criança e de
mãe “má” que os frustra, são todos reconhecidos pela criança dessa idade
como compondo um objeto único chamado mãe. Não existem libidos orais,
libido anal e libido genital específicas; existe apenas uma libido, a qual se
desloca de uma zona erógenas para outra. Nos casos, porém, em que se
desenvolveram certas fixações, operam forças que resistem a deslocamento
desta ordem, de modo que, por exemplo, as fixações pré-genitais dos
neuróticos obstam a concentração genital progressiva da excitação durante o
ato sexual. O prazer se encontra basicamente nessas regiões, onde
permanecerá, embora haja na garota um deslocamento, diríamos parciais, para
a vagina e na puberdade para o clitóris-vaginal. Nenhuma catexia libidinal forte
seja jamais completamente abandonada. É possível, que grande parte da libido
flua para outros objetos, porém, pelo menos certa quantidade permanece
ligada ao objeto de origem. É nesta fase que desperta nas crianças de ambos
os sexos o desejo de ver os genitais umas das outras, bem como mostrar os
seus, incluindo neste ato de curiosidade e exibicionismo outras partes do corpo
e também outras funções corporais. A “masturbação”, ou seja, a estimulação
dos genitais próprios para obtenção do prazer sexual é normal na infância; nas
condições culturais atuais, também é normal na adolescência e até na idade
adulta como substituto quando não se dispõe de objeto sexual. Se um indivíduo
cujas atividades sexuais são bloqueadas por circunstâncias exteriores se
recusa a usar deste expediente, a análise sempre revela medo inconsciente ou
sentimento de culpa na raiz da inibição.

Os pacientes que não se masturbaram na adolescência também revelam
haverem sido seus desejos sexuais esmagados em alto grau pelo medo e por


sentimentos de culpa, casos em que o prognóstico é mau, resultando, em gera,
de repressão especialmente profunda da masturbação infantil.

A micção é também um componente da sexualidade infantil, denominado de
erotismo uretral. O garoto então é despertado em divertir-se no
dimensionamento do jato de urina, onde se encontra a raiz com a preocupação
futura com a força, com a competição, com o poder, com o desejo de ser
maior, mais poderoso e mais importante.

O fato de os adultos ameaçarem ou brincarem de castração com tanta
facilidade e animação constitui, certamente, expressão dos seus próprios
complexos de castração, porque amedrontar os outros é meio ótimo de
acalmar os próprios temores, donde resulta que os complexos de castração
vão passando de geração em geração. Não sabemos de que forma eles se
formaram originalmente, mas é certo que o respectivo desenvolvimento tem
história muito remota.

Uma pessoa neurótica de origem fálica, é ambiciosa e tem prazer à velocidade
(forma do prazer da penetração).

A ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO NOS
MENINOS.

O medo de alguma coisa acontecer a este órgão sensível e prezado chama-se
angústia de castração; medo a que se atribui papel tão significativo no
desenvolvimento total do menino e que representa resultado, não causa desta
valoração narcisística elevada. É só a alta catexia narcisística do pênis neste


período que explica a eficácia da angústia de castração; aos seus precursores
nas angústias orais, e anal pela perda do seio ou das fezes, falta à força
dinâmica que caracteriza a angústia de castração fálica.

A angústia de castração no menino do período fálico pode comparar-se ao
medo de ser comido do período oral, ou ao medo de ser despojado do
conteúdo corporal do período anal; é o medo retaliatório do período fálico, que
representa o clímax dos temores fantásticos de lesão corporal.

Em última análise, pode-se rastrear a idéia de castração no antigo reflexo
biológico da autotomia; menos profunda, porém mais certamente, baseia-se ela
na idéia retaliatória arcaica de talião: o próprio órgão que pecou tem de ser
punido. Vê-se, entretanto, que o ambiente das crianças lhes reforça idéias
fantásticas de punição, muitos adultos ainda ameaçando o menino de “cortar-
lhe isto” quando o surpreendem masturbando-se. Em geral, a ameaça é menos
direta, mas há outros castigos que se sugerem, a sério ou brincando, e a
criança interpreta-os como ameaças de castração. Todavia, mesmo as
experiências que, objetivamente, não contêm qualquer ameaça podem ser
falsamente interpretadas neste sentido pelo menino que tenha a consciência
culpada; por exemplo, a experiência de que existem realmente criaturas sem
pênis: a observação dos genitais femininos. Há vezes em que uma observação
desta ordem empresta caráter sério a uma ameaça anterior a que não se dera
maior atenção; noutros casos, a realização da fase fálica basta, só ela, para
ativar ameaças passadas que não haviam feito impressão excessivamente
intensa durante os períodos pré-genitais.

Também varia a natureza do perigo que se acredita esteja ameaçando o pênis.
Há quem pense estar o pênis ameaçado por um inimigo masculino, ou seja, por
um instrumento penetrante, pontudo; ou por um inimigo masculino, ou seja, por
um instrumento penetrante, pontudo; ou por um inimigo feminino, isto é,
instrumento que envolve, isso conforme se apresente o pai ou a mãe como a


pessoa que mais ameaça; ou conforme as fantasias especiais que tem o
menino no tocante ao contato sexual. Meninos ou pessoas com uma neurose
com medo de castração podem desenvolver fantasias de que o pênis lhe
voasse do corpo, micróbios devorando o pênis, sonhos com calvície, cortar
cabelos, extração ou queda de dentes, decapitação. O medo preventivo da
castração pode ser representado em um sonho como uma lagartixa (perde o
rabo e cresce novamente) ou quando um símbolo peniano aparece mutilado.
Há indivíduos com fixações orais que temem lhes seja o pênis arrancado a
mordidas, de onde resultam idéias confuso compostas de elemento tanto orais
quanto genitais. Existem homens que têm medo obsessivo consciente de terem
o pênis pequeno demais, cujo resultado foi alguma observação impressionante,
na infância, do tamanho do pênis de outrem, quando o deles era realmente
pequeno. Nos meninos, a “feminilidade” nem sempre significa: “Acho que já
estou castrado”, mas, pelo contrário, uma evolução para a feminilidade (que
representa desvio do uso ativo do pênis) muitas vezes se tenta como
tranqüilização contra castração futura possível: “Se proceder como se já não
tivesse pênis, não o cortarão”; ou até: “Se não há meio algum de evitar a
castração, prefiro praticá-la ativamente na previsão a pode acontecer; e, pelo
menos terei a vantagem de ficar nas boas graças de quem me ameaça…”.

A intensidade da “angústia da castração” à valorização intensa do órgão
durante a fase fálica; valoração esta que faz o menino decidir (quando enfrenta
a questão: ou renuncio às minhas funções genitais, ou arrisco o meu pênis) em
benefício da desistência da função. Um adulto perguntará: “Para que serve um
órgão, quando me proíbem de usa-lo?” No período fálico, contudo os fatores
narcisísticos contrabalançam os sexuais, de modo que a posse do pênis vem a
ser o objetivo principal. Problemas desta ordem resultam de outra característica
do estádio oral. Segundo Freud, o menino desta idade ainda não toma posse
de um pênis como questão de determinação sexual; diferencia não em função
de homem e mulher, mas em função de portador de pênis e castrado. Quando
obrigado a aceitar a existência de pessoas sem pênis, fica presumindo que
elas um dia, tiveram o órgão, mas o perderam. Os analistas, que têm


confirmado os achados desta ordem, cogitam que este modo de pensar talvez
resulte de repressão anterior. Talvez que o menino tenha razão mais primária
de temer os genitais femininos do que o medo da castração (angústias orais de
uma vagina dentada [Otto Fenichel-72], significando temor retaliatório de
impulsos sádicos-orais); daí tentar negar-lhes a existência. Recebi um e-mail
de um colaborador questionando sobre o “mito da vagina dentada”, que
corrobora com o relatado acima (impulsos sádicos-orais) . O interessante é que
ele relata que há um ano e meio ou dois, vem sonhando que “todos” os dentes
da sua boca caíram, não havia a sensação de dor e que de fato era até
agradável senti-los soltos dentro da sua boca (sonho que pode representar a
angústia de castração). Entretanto para um diagnóstico preciso seria
necessária a realização de uma análise, que eu recomendo. A idéia de que as
meninas tiveram um pênis, mas de que este lhes foi cortado representaria
tentativa no sentido desta negação. Certo é que vem, ao mesmo tempo, a
angústia: “Isto pode acontecer também comigo”, com a vantagem, porém, de
que se nega a existência primária dos temidos genitais femininos. Não se tem a
impressão, contudo, de que os meninos se consolem, de qualquer modo, por
saber que certas criaturas tiveram o pênis cortado; pelo contrário, esta idéia
afigura-se muito assustadora. De mais a mais, parece natural que o menino
presuma, enquanto não lhe ensinam o contrário, que todas as pessoas sejam
construídas tal qual ele o é, de modo que esta presunção não se baseia,
necessariamente, no medo; mas, sim, a idéia de que a presunção é incorreta é
que cria o medo.

INVEJA DO PÊNIS NAS MENINAS.

O clitóris nas meninas, é a parte do aparelho genital que se apresenta mais rica
em sensações e que atrai e descarrega toda excitação sexual; é o ponto
central de práticas masturbatórias tanto quanto de interesse psíquico. Em
segundo lugar, significa que também a menina classifica as pessoas em
“fálicas” e “castradas”; ou seja, a menina tipicamente reage à noção de que
existem criaturas com pênis tanto com a atividade “Gostaria de ter isto” quanto


com a idéia “Já tive isto, mas perdi”. Mulheres portadoras de forte inveja do
pênis têm revelado, à análise, haver sofrido “fuga da feminilidade”,
desenvolvendo certo medo da própria feminilidade e, portanto, construído
inveja reativa do pênis.

A análise de neuróticas obsessivas mostra, a princípio, uma quantidade de
impulsos anais e sádicos reprimidos; mais tarde, descobre-se que, em níveis
mais profundos, existem desejos genitais inconscientes, os quais foram
rejeitados por uma regressão a desejos sádicos-anais. Daí não dizermos que a
índole reativa dos desejos sádicos-anais contradiz a existência de um período
sádico-anal original no desenvolvimento libidinal da criança, mas que os
desejos reativos seguiram vias regressivas. A menina tem o sentimento de que
a posse do pênis traz vantagens erógenas diretas no que diz respeito à
masturbação e à micção. A posse de um pênis, aos olhos da menina, faz o
possuidor mais independente e menos sujeito a frustrações; sentimento talvez
resultante da concentração de todos os sentimentos sexuais no clitóris, durante
esta fase, o clitóris sendo “inferior” em comparação com o pênis.

PERÍODO INTERMEDIÁRIO.

É o período onde a sexualidade infantil atinge o seu ponto culminante, seguida
de seu declínio.

FASE EDIPIANA.

É o estágio que vai por volta do 3º-4º ano até o 6º-7º ano de vida. É também, o
mais importante no desenvolvimento da personalidade. É nele que a criança
desenvolve um grande interesse pelo genitor do sexo oposto e


conseqüentemente, um forte sentimento de rivalidade em relação ao genitor do
mesmo sexo, com o desejo de deslocar este. Durante este tempo, a criança
aprende que seus desejos sexuais são proibidos, apresentando sentimentos de
amor e ódio em relação ao genitor do mesmo sexo. Isso leva a sentimentos de
ansiedade e de culpa, bem como de medo, de punição pelo crime.

Freud cedo descobriu em suas pacientes manifestações metódicas
inconscientes de fantasias de incesto com o genitor do sexo oposto, aliadas ao
ciúme e à raiva homicida contra o genitor do mesmo sexo, a que denominou de
Complexo de Édipo, por analogia com a lenda clássica grega do inocente
príncipe de Tebas, a quem o oráculo predisse que assassinaria o seu pai e
casaria com sua mãe. Abandonado por seu pai numa encosta, para morrer de
frio e inanição, foi encontrado e educado por forasteiros; retomando, sem nada
saber, cumpre a profecia. Matando o rei, liberta o reino da opressão de uma
criatura selvagem e terrível, casando a seguir com a rainha, que era a sua
mãe. Por remorso pelo crime, apesar das evidências mostrarem não ter ele
responsabilidade pessoal, arrancou seus próprios olhos e, uma vez mais,
vagueia, cego e exilado, através do mundo. Além de reconhecer que o
complexo edipiano é universal, nossos conhecimentos sobre os desejos
edipianos expandiram-se durante as duas primeiras décadas deste século,
abrangendo o que, a princípio, era conhecido como desejos edipianos inversos
ou negativos, isto é, fantasias de incesto com o genitor do mesmo sexo e
desejos homicidas contra o do sexo oposto. Por sua vez, essa constelação de
fantasias e emoções foi, a princípio, considerada excepcional; verificou-se que,
ao contrário, era geral. Quando estava redigindo e copilando esta pesquisa
através de fragmentos de livros e outros trabalhos, resolvi cortar o meu cabelo
e de 2 dos meus 3 filhos. A cabeleireira se queixou comigo que a filha dela
estava chorando quando ela saia de casa para trabalhar todos os dias. Ela
achava estranha esta atitude, pois desde os 3 anos ela não chorava, e agora
com 7 estava tendo estas “crises”. Ela estava determinada a levá-la em um
psicólogo. Eu expliquei que estava estudando este assunto e provavelmente
ela estava na fase edipiana e buscava uma aproximação dela por algum


problema com o pai. Neste momento ela me revelou que era separada e não
tinha ninguém do sexo masculino próximo que ela pudesse se relacionar.

Essa é, pois, da maneira mais sumária, a explanação completa do que
compreendemos por complexo edipiano. É uma atitude dupla em relação aos
dois genitores; de um lado, o desejo de eliminar o pai odiado de forma
ciumenta e até de lhe tomar o lugar em uma relação sensual com a mãe; de
outro lado, o desejo de eliminar a mãe, também odiada com ciúmes, e de lhe
tomar o lugar junto ao pai. O fato isolado mais importante a se ter em mente a
respeito do complexo edipiano é a força e a intensidade dos sentimentos
envolvidos. É um verdadeiro caso de amor. Para muitas pessoas é o caso mais
ardoroso de toda sua vida, mas é de qualquer modo tão ardoroso quanto
qualquer outro que o indivíduo possa vir a experimentar. A intensidade da
tempestade de paixões de amor e ódio (ambigüidade), de desejo e ciúme, de
fúria e medo que ruge dentro da criança (veja o caso Hans de Freud).

A FORMAÇÃO DO SUPEREGO.

O superego corresponde, de modo geral, ao que comumente chamamos de
consciência e compreende as funções morais da personalidade, as quais
incluem: -A aprovação ou desaprovações de ações e desejos baseados na
retidão. -A auto-observação crítica.

-A autopunição

-A exigência de reparação ou arrependimento por haver agido mal

-Auto-elogio ou auto-estima como recompensa por pensamentos e ações
virtuosas ou recomendáveis.

Existem desejos inconscientes em cada indivíduo, que ele conscientemente
repudia e nega, pois existem muitas exigências morais e proibições mais
numerosas e rigorosas em cada um de nós . Logo, as funções do superego
atuam no inconsciente.

A intensidade do medo de castração torna-se tão intensa e intolerável, que a
criança é obrigada a render-se ante um rival muito poderoso e a desistir dos
seus desejos em relação ao genitor do sexo oposto, pelo que reprime os seus
sentimentos sexuais. Ao renunciar aos sentimentos agressivos em relação ao
genitor do mesmo sexo e sexuais em relação ao do sexo oposto, a criança
indentifica-se com partes de cada genitor, tornando-as partes de si mesma,
partes essas, que vão formar o Superego da criança. Com Superego, tem-se
que é o que a criança internaliza, tomando de cada genitor, desde que seja
classificado como valor moral e como ideal. Uma porção do Superego será à
parte que estabelece o que seja certo ou errado. A outra parte, que é o
chamado Ego-ideal, é composta pelas características elevadas que todos
devem portar, para se tornarem dignos dos elogios e da aprovação geral. O
Superego é, principalmente uma parte inconsciente da psique.

As exigências e proibições morais de pais, amas, governantas e professores
que podem atuar como substitutos dos pais, começam muito cedo a influenciar
a vida mental da criança. Sua influência torna-se certamente evidente ao fim do
primeiro ano de vida. As exigências morais desse período mais remoto são até
simples, se as julgarmos de acordo com nossos padrões adultos.

Entre as mais importantes incluem-se as que se relacionam aos hábitos de
higiene. Ferenczi referiu-se a esses precursores do superego como
“moralidade do esfíncter”. Na fase pré-edipiana, entretanto, a criança trata as
exigências morais que se lhe fazem como parte do seu ambiente. Se a mãe, ou


algum outro árbitro moral, está presente e a criança deseja agrada-la, evitará a
transgressão. Se estiver sozinha, ou zangada com a mãe, ela a desagradará
ou procederá como bem entender, sendo apenas dominada pelo medo da
punição.

No decorrer da própria fase edipiana, as coisas começam a mudar a esse
respeito e, por volta dos cinco ou seis anos, a moralidade passa a ser uma
questão íntima. É aí, que a criança começa a sentir pela primeira vez que os
padrões morais e a exigência de que o mau procedimento deve ser punido,
suscitar o arrependimento e corrigido, vêm de dentro de si própria e não de
outra pessoa a quem deve obedecer. Aos nove ou dez anos de idade, esse
processo de internalização se torna bastante estável para ser absolutamente
permanente, mesmo que de maneira normal, ainda esteja sujeito a ampliações
e modificações durante toda a adolescência e, talvez, até certo ponto, na idade
adulta. À medida que abandona e reprime ou de qualquer forma repudia os
desejos incestuosos e homicidas que constituem o complexo edipiano, as
relações da criança com os objetos desses desejos incestuosos e homicidas
que constituem o complexo edipiano, as relações da criança com os objetos
desses desejos transformam-se, em grande parte, em identificações com os
mesmos. Em vez de amar e odiar os pais, que segundo crê, se oporiam a
esses desejos e os puniriam, ela se torna igual a eles no repúdio a seus
desejos. Assim o núcleo original das proibições do superego é constituído pela
exigência de que o indivíduo repudie os desejos incestuosos e hostis que
compunham o seu complexo edipiano.Além disso, essa exigência persiste pela
vida afora, de forma inconsciente, é claro, como a essência do superego. O
superego, consiste originalmente nas imagens internalizadas dos aspectos
morais dos pais na fase fálica ou edipiana.O ego é capaz de participar do poder
dos pais ao se identificar com eles, mas, à custa, porém, de uma submissão
aos mesmos, mais ou menos permanentemente. Freud (1923) fez duas outras
observações referentes à formação dessas identificações. A primeira consiste
em que a criança suporta as proibições dos pais, em grande parte, como
ordens ou admoestações verbais. A segunda observação foi que, em grande


parte, as imagens dos pais introjetadas para formar o superego são as dos
superegos dos pais. Os pais ao educar os filhos, tendem a discipliná-los tal
qual o foram por seus próprios pais durante a infância. Suas exigências morais,
particulares, adquiridas na infância, eles as aplicam aos filhos, cujos
superegos, em conseqüência, refletem ou se assemelham aos superegos dos
pais. Esta característica tem uma conseqüência social importante, como Freud
(1923) salientou. Acarreta a perpetuação do código moral de uma sociedade e
é, em parte, responsável pelo conservadorismo e pela relutância em mudar
demonstradas pelas estruturas sociais. As catexias instintivas são afastadas de
seus objetos originais, sua procura constante de outro objeto original leva à
formação de uma identificação com o objeto original dentro do próprio ego, a
que, então, se unem as catexias. Assim, o que era catexia do objeto passa a
ser catexia narcísica. No caso que agora nos interessa, naturalmente, as
identificações que assim se formam dentro do ego compreendem a parte
determinada do ego que chamamos de superego. Assim, do ponto de vista do
id, o superego é o substituto e o herdeiro das relações de objeto edipianas. É
por esta razão que Freud o descreveu como tendo suas raízes profundas no id.
Os impulsos incestuosos ou homicidas da criança com os pais são reprimidos e
continuam a viver no id como desejos reprimidos, ainda dirigidos para os
objetos originais, porém impedidos de se expressar abertamente em atos ou
pensamentos e fantasias conscientes. No entanto, esses desejos edipianos
reprimidos, com suas catexias, não contribuem para a formação de superego.
A intensidade dos próprios impulsos hostis da criança para com seus pais,
durante a fase edipiana, é um dos fatores principais para determinar a
severidade do superego, e não o grau de hostilidade ou de severidade dos pais
em relação à criança, e podemos explicar isto da seguinte maneira. Quando os
objetos edipianos são abandonados e substituídos por identificações do
superego, a energia do impulso, que anteriormente catexizava esses objetos,
fica, pelo menos em parte, à disposição da porção do ego recentemente
estabelecida, e que chamamos de superego. Assim, a energia agressiva à
disposição do superego deriva da energia agressiva das catexias de objeto
edipianas, e as duas são pelo menos proporcionais, senão iguais em
quantidade. Isto é quanto maior a quantidade de energia agressiva das


catexias de objeto edipianas, maior a quantidade da mesma que ficará
subseqüentemente à disposição do superego. Como conseqüência , a criança
pequena, cujas fantasias edipianas foram violentas, e destrutivas, terá
tendência a sentir maior sentimento de culpa que outra cujas fantasias tenham
sido menos destrutivas.

Uma das maneiras de formular os conflitos do período edipiano consiste em
afirmar que os impulsos do id associados aos objetos daquele período, isto é,
os pais, fazem crer à criança que a estão expondo ao perigo de uma lesão
corporal. No caso do menino, o medo será de perder o pênis, no caso da
menina será qualquer coisa análoga ao medo da lesão genital, ou uma
sensação intensamente desagradável de mortificação devida à falta do pênis,
ou ambos. Em qualquer caso, há, de um lado, um conflito entre as exigências
das catexias de objeto, e, de outro, das autocatexias ou catexias narcísicas.
Por ser ilustrativo registraremos que o problema se decide em favor das
catexias narcísicas. As catexias de objeto, perigosas, são reprimidas ou
abandonadas, ou são dominadas ou repudiadas por outros meios, enquanto as
catexias narcísicas são mantidas essencialmente intactas. O componente
narcísico da vida instintiva da criança é normalmente mais forte que a parte
que se refere às relações de objeto, embora estas sejam muito mais fáceis de
observar e conseqüentemente mais propícias a ocupar nossa atenção. Na
formação do superego são estabelecidas modificações, acréscimos e
alterações que resulta de uma identificação com um objeto de ambiente da
criança ou do adulto, com o aspecto moral desse objeto. Essas identificações
são especialmente comuns na pré-puberdade e na adolescência e modelam o
superego do indivíduo, visando à aceitação dos padrões morais e ideais dos
grupos sociais dos quais é membro. Podem até mesmo ocorrer modificações
no superego durante a vida adulta, como acontece, por exemplo, em
conseqüência de uma conversão religiosa. Entretanto, o núcleo original do
superego que se formou durante a fase edipiana continuará a ser sempre a
parte mais firme e efetiva. Por conseguinte, as proibições contra o incesto e o
parricídio são as partes da moralidade da maioria das pessoas mais


completamente internalizadas, ou , inversamente, as que serão menos
provavelmente transgredidas. Outras proibições do superego são mais
passíveis de transgressão, desde que haja uma oportunidade particularmente
favorável, ou uma tentação especialmente forte. O Superego surge em
conseqüência da introjeção das proibições e exortações paternas na fase
edipiana e, pelo resto da vida, sua essência inconsciente continua sendo a
proibição dos desejos sexuais e agressivos do complexo edipiano, apesar dos
numerosos acréscimos e alterações que sofre mais tarde, na infância, na
adolescência e mesmo na idade adulta.

A RESOLUÇÃO DO CONFLITO EDIPIANO.

Tanto na resolução do conflito edipiano quanto na formação do Superego, no
menino, dá-se algo como se fora o seguinte quadro: não há como eu ter a
minha mãe só para mim, mas eu posso fazer com que uma parte dela (no caso
os ideais, as inclinações, os critérios de julgamento) se torne parte de mim;
assim sendo, eu a possuirei de um modo seguro. Do meu pai, a quem amo e
odeio (e por isso mesmo temo), não posso me livrar, mas para que ele não
mais me venha castrar, eu vou me tornar como ele (adotando partes dos seus
princípios morais e valores) e aí então ele gostará de mim e não será mais
perigoso para mim.

Nas meninas, a atração pelo pai é também denominada de edipiana para nós
freudianos (os junguianos dizem Complexo de Electra). A resolução da
situação é muito mais complexa para a menina do que para o menino, pois
este, a despeito de ter de desistir de sua ligação com a mãe, normalmente,
quando maduro, vem a contrair uma ligação com uma mãe substituta, a
esposa. Já a menina, que começa ligada à mãe, sente-se atraída pelo pai na
fase edipiana, odeia a mãe, que ter o pai só para si, mas acaba por desistir,
compensando-se com o propósito de vir a ter um homem seu. Mas acontece


que uma mulher sadia, não é capaz, como o homem, de encontrar substituição
para a ligação infantil, pelo que é levada a compensar-se se propondo ela
mesma a vir a ter um filho, tornar-se mãe e assim realizar uma satisfatória
relação mãe-filho.

CASO O CONFLITO EDIPIANO NÃO SEJA
SATISFATORIAMENTE RESOLVIDO O

QUE PODE OCORRER:

A excessiva identificação com o genitor do sexo oposto pode estar associada
ao desenvolvimento de características de inversão sexual no menino, ou
mesmo nas meninas.

O medo do genitor do sexo oposto, pode prejudicar a capacidade individual em
lidar com pessoas deste sexo em fase ulterior da vida. Um estágio edipiano
parcialmente solucionado pode resultar num superego mal formado ou mesmo
deficiente, o qual pode vir a ser determinante de alterações sociopáticas do
caráter e das neuroses.

CAUSAS DE UMA SOLUÇÃO NÃO-SATISFATÓRIA DO ESTÁGIO
EDIPIANO. Acesso ao período edipiano com conflitos na fase oral, ou anal, ou
fálica, que são do período pré-edipiano, trazendo para período novo, alguém
sem energia suficiente para enfrentar as novas circunstâncias.

A ausência de um dos genitores (sem, também, haver um substituto à altura),
devido a divórcio ou qualquer outro tipo de separação. Severa psicopatologia
da parte de um dos genitores, dos tipos, por exemplo, ser um deles


excessivamente sedutor, ou cruel, ou ameaçador, ou daqueles que vivem a
rejeitar, ou inconsistente, ou inseguro, ou em constantes transformações, ou
frio etc. Severos defeitos no Superego, como um pai efeminado, poderão vir a
ser determinantes de uma confusa identificação com tal genitor o que pode
resultar numa formação superegóica instável, inconsistente e não-razoável.

Ao fim do período Edipiano, instala-se o princípio do que Freud chamou de fase
genital, em que o interesse primário passa a ser a experiência genital, isto é, a
tendência em vir a unir os órgãos genitais com o sexo oposto: é a atração
direcionada à outra pessoa, um redirecionamento objetal, que significa a
ultrapassagem da fase auto-erótica, como até então o era na última fase, fálica.

FASE DE LATÊNCIA.

Esta é a fase que vai dos 6-12 até os 11-14 anos ou a puberdade. A
característica desta fase é a repressão das fantasias e das atividades sexuais,
onde os desejos e impulsos sexuais são recalcados no inconsciente. As mães
costumam relatar que a partir dos 7 anos, as crianças, especialmente os
meninos, ficam mais mansinhas. Na verdade o que ocorre é que as crianças,
acessam um período de quiescência sexual. Aqui surgem as forças anímicas,
que posteriormente surgirão como entraves à pulsão sexual, estreitando seu
curso semelhante a um dique (o asco, o sentimento de vergonha, as exigências
dos ideais estéticos e morais). Embora a educação tenha muita a ver com a
construção desses diques, tal desenvolvimento é organicamente condicionado
e fixado pela hereditariedade, podendo produzir-se, no momento oportuno,
independente da ajuda da educação. Esta fica inteiramente dentro do âmbito
que lhe compete, ao limitar-se a seguir o que foi organicamente prefixado e
imprimi-lo de maneira um pouco mais polida e profunda. Na descrição clássica
original de Freud, as manifestações sexuais são quiescentes neste período; em
particular, há uma profunda repressão da masturbação, que permanece a


grande tentação e problema da idade. Foi a preocupação com a masturbação e
outras manifestações libidinais diretas que levou os antigos analistas a
negligenciarem este período embora um fator adicional fosse a virtual ausência
de crianças como pacientes.

O período de latência proporciona à criança o equipamento, em termos de
desenvolvimento do ego, que a prepare para o encontro com o incremento de
impulsos da puberdade. Conseqüentemente, ela é capaz de desviar a energia
instintiva para estruturas psíquicas diferenciadas e para atividades
psicossociais, em vez de ter de experimenta-la unicamente como um aumento
da tensão sexual e agressiva, a que podemos denominar sublimação. A
primeira parte da latência começa dos 7 aos 8 anos aproximadamente. É
caracterizada, segundo observações de Freud, pela passagem do complexo de
Édipo e a formação do superego. Aqui há um primeiro caso de amor com uma
criança da mesma idade ou próxima. É bastante intenso enquanto dura, depois
é abandonado, após um intervalo bastante curto. A consolidação do superego
e o fortalecimento dos mecanismos do ego continuam sendo interesses
primordiais. A segunda parte da latência vai dos 8 ao 11-14 anos. Caracteriza-
se pela busca de colegas e a formação de grupos, tanto para meninos quanto
para meninas, e por consideráveis mudanças endocrinológicas.

FASE DE MATURAÇÃO PSICOSSEXUAL OU
PUBERDADE.

Este período vai dos 12-15 até os 18 anos. Começa de forma súbita uma
atividade endocrinológica intensa no organismo, que vai resultar numa
exacerbação da libido. É a partir daí que o indivíduo retoma, de forma muita
acelerada, as fases do desenvolvimento sexual, já que vem de sair da


quiescência que caracteriza o Período de Latência que, na realidade, foi uma
interrupção do desenvolvimento sexual intenso experimentado durante os
estágios pré-edipiano e edipiano. Observa-se nesta fase uma tendência para
uma reedição dos impulsos orais, anais e fálicos e um misto de interesse
sexual e de conflitos com os pais, como na fase edipiana.

Do ponto de vista sexual, é a época mais importante da vida humana, entre o
nascimento e a morte, é justamente a da maturação sexual, sendo seu
momento marcante pela primeira eliminação de células germinativas: primeira
polução entre os garotos, e primeira ovulação ligada à menarca, entre as
garotas. O que se dá, justamente na puberdade.

A puberdade é uma revolução fisiológica, psíquica e sexual, que se processa
de dentro par fora do organismo. O que vemos aparecer, de repente, como
sexualidade psicológica, não é mais que a manifestação exterior duma
atividade maior das glândulas nos recessos mais íntimos do ser. Os mesmos
hormônios sexuais que formam o tipo sexual conduzem o corpo, a alma e o
sexo do estado infantil à maturidade e desta a velhice, efetuando, dessa
maneira, a lenta evolução e involução do organismo. A puberdade é
caracterizada por certos efeitos fisiológicos gerais: crescimento rápido do corpo
e fortificação, principalmente, do esqueleto; aparição de pelos, sobretudo nas
axilas e na região pubiana; e, de um modo geral, modificação da fisiologia e
dos hábitos. Durante a puberdade, o crescimento das garotas se dá mais
rápido, que o dos garotos, ao contrário do que se verifica nos períodos
precedente e subseqüente. As jovens de 15 anos são, em geral, maiores e
mais pesadas que os rapazes da mesma idade. Em compensação, seu
crescimento pára aos 20 anos, enquanto nos jovens continua até os 23.
Paralelamente ao desenvolvimento das diferenças de caracteres sexuais,
provocadas sobre a constituição física e pelo instinto sexual e pela vida
psíquica, a personalidade psicofísica sofre, durante a puberdade, modificações
muito importantes. A consciência do Eu, aumentada ou exagerada, contrasta


estranhamente com a diminuição da resistência física. As modificações gerais,
devidas à puberdade, constam desse conjunto indefinível que constitui a
beleza, que é a estética feminina. Ao nascer, tudo é desproporção e fealdade.
A cabeça é enorme e desproporcionada no que se refere às outras partes do
corpo procuram harmonizar-se, estabelecendo as proporções físicas humanas.
A pele da mulher, na puberdade, é fina. Pode ter, no momento das regras, uma
coloração ligeiramente azulada, sobretudo nas morenas, mais notável em volta
dos olhos, onde forma um círculo negro escuro.Alguns meses antes das
primeiras regras, o púbis se cobre de pelos, cuja coloração pode ser diferente
da do cabelo. Depois do púbis, as axilas se cobrem por sua vez de pelos; na
maioria das ocasiões, já apareceram as regras quando se manifesta o sistema
capilar nessas regiões. Todas as glândulas da pele: glândulas sebáceas,
glândulas sudoríparas, etc., se desenvolvem no momento de chegar a
puberdade, produzindo, as primeiras, uma secreção sebácea, e o odor genital.
Conhecemos o papel que este odor desempenha nos animais, ocasionando a
procura dos sexos, isto é, o prazer sexual. A época da transformação da
criança em adolescente, varia segundo as latitudes. Pede-se admitir nesse
caso, a influência do sol sobre o processo sexual. Nas regiões polares, a
puberdade não se manifesta antes dos 18 anos de idade. Durante a noite polar,
que dura seis meses, as mulheres da Lapônia e da Groelândia não menstruam.
Já nas regiões quentes da África, a puberdade, muitas vezes, tem início aos 8
e aos 10 anos de idade. Não só as condições climáticas, mas as condições
particulares de vida e a própria alimentação, bem como o meio social
(informações absorvidas), podem precipitar ou retardar a puberdade. As
primeiras poluções e menstruações manifestam-se em geral, entre os 12 e 14
anos de idade. Todavia, o limite é muito largo para ambos os sexos e, dessa
forma, não se deve considerar um fenômeno patológico a primeira eliminação
de células germinativas, aos 17 anos. Pode-se denominar precoces os
fenômenos de puberdade antes dos 10 anos, e retardados os que iniciam
depois dos 18.


Polução (Emissão involuntária de esperma).

O esperma é um líquido opalino-grisáceo, semitransparente, que contém o
produto das glândulas seminais, isto é o espermatozóide. A composição deste
alcalóide consta de matéria albuminóide, que não contém as relações da
albumina nem da fibrina, mas o esperma-tinas. Esta é solúvel em água, sem
que o calor a coagule. O esperma dessecado, quando em contato com a água,
incha novamente. Processo utilizado para reconhecimento médico legal das
manchas encontradas em lençóis, visto que, por esse processo, pode-se
efetuar, no líquido obtido, o exame dos espermatozóides, único meio, no
momento, de esclarecer sua natureza. Por esfriamento podem ser encontrados
no esperma pequenos cristais em forma de prismas, formados sucessivamente
pro cristais de fosfato de magnésio, fosfato de cal e de albumina.

Menstruação ou regras.

É o sangue que as mulheres perdem, a partir da puberdade, que se dá a cada
mês lunar, isto é, de vinte e oito em vinte e oito dias, com maior ou menor
abundância, podendo chegar a trinta dias. Entre os antigos hebreus, as
mulheres eram, por lei, consideradas impuras durante o período menstrual, e
tudo que por elas fosse tocado, também. Assim, elas praticamente ficavam
isoladas do grupo por um período de sete dias, retornando a sua vida normal,
após um cerimonial de purificação. Dado estas práticas, ainda hoje temos
pessoas que semelhantemente agem, onde o contato sexual é proibido. Por
outro lado, muitas mulheres se excitam com o odor do sangue, achando o coito
nesse período muito prazeroso. Outras há que se sentem mais a vontade, no
ato, visto que o risco de uma gravidez indesejada é afastado nessa época.
Atualmente a maioria das mulheres atravessa seus ciclos menstruais de forma


quase imperceptível; realizam suas atividades normalmente. Apenas uma
pequena percentagem, devido à dismenorréia, mastodinia ou cólicas
menstruais, não consegue realizar seus afazeres cotidianos. Porém, por volta
do décimo quarto dia do ciclo menstrual, contado do início da menstruação, é
impossível passar despercebido. É o momento em que a mulher está com sua
máxima carga hormonal, e o desejo sexual está no ar, sentindo intenso desejo
de fazer amor, e, na maioria das vezes, não sabe como comunicar ao parceiro.
Então sente-se irritada, mal-humorada, sem saber precisar a causa. Na
ausência de um parceiro fixo, é comum a jovem adolescente relacionar-se
sexualmente com um amigo ou conhecido. E nesse período que a jovem,
mesmo desejando conservar-se virgem, perde a virgindade. É também aí que
ocorre a gravidez. indesejada.

FASE ADOLESCÊNCIA FINAL E ADULTO
JOVEM.

Neste período, a partir dos 16-18 anos e pelo resto da vida, podem ser
observados os chamados pontos de fixação, que são correspondentes às fases
não-solucionada, ou pelo mesmos não satisfatoriamente solucionada, que
determinam a existência de uma indivíduo adulto, que passa um quadro de
imaturidade em algumas áreas do seu caráter, de sua identificação sexual, de
seu equilíbrio afetivo, suas tendências a regredir ante o stress, sua
incapacidade de formar um relacionamento estável, suas eleições sexuais e
pelas evidentes indicações de eclosão de um comportamento neurótico.

SEXUALIDADE DO IDOSO.

O processo do envelhecimento é irreversível e contínuo, seus sintomas são
desenvolvimento e declínio. Tais processos encontram-se ligados ao longo da
vida, tendo em vista que constantemente estão se formando novas células,
enquanto outras

são destruídas, algumas são de curta duração, como as que formam as
camadas mais externas da epiderme. Como o envelhecimento é uma
realidade, o importante é se preparar para um envelhecimento com qualidade,
ou seja, com saúde mental, física e emocional e conseqüentemente uma vida
sexual saudável. Quanto a sexualidade, o que mais observamos, é um
despreparo psicológico, influenciado pela cultura, cheia de tabus. Se na
adolescência temos muitos preconceitos, imagine na chamada terceira idade.
Não se admite ver uma pessoa idosa namorando, e, na maioria dos casos, os
próprios idosos não aceitam tal idéia. Quantos são, que mesmo aos quarenta
se expressam: “eu já estou velho para isso”. Isto é um absurdo, pois está
provado que o ser humano, tanto o homem quanto a mulher, pode ter uma vida
sexual ativa até o fim de suas vidas.


Este material é parte das aulas do Curso de Formação em Psicanálise.
Proibida a distribuição onerosa ou gratuita por qualquer meio, para não alunos
do Curso. Os créditos às obras usadas como referências ou citação constam
nas Referências Bibliográficas.

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