DISFUNÇÃO SENSORIAL NO AUTISMO – ENTENDA AS PERTURBAÇÕES NA SENSIBILIDADE



Disfunção sensorial

Postado por Autismo em Dia em 09/set/2020 – 17 Comentários

Você sabe o que é a disfunção sensorial e como ela se conecta com o autismo? Pois este é o assunto que vamos abordar hoje!

Também chamado de transtorno do processamento sensorial, são, sobretudo, distúrbios biológicos que mexem na capacidade que o cérebro tem de entender os estímulos sensoriais. Esses estímulos podem ser vários, como sensações de cheiros, sabores, texturas, sons, luzes, cores, e tudo mais que o corpo humano é capaz de sentir. Igualmente, existem as sensibilidades que têm a ver com o movimento do corpo, como andar, correr, pular, subir escadas, balançar objetos, entre outros. 

A disfunção sensorial não é um problema que afeta somente o espectro do autismo. Atinge, igualmente, pessoas com deficiências intelectuais. Mas a questão principal é que, naturalmente, pessoas dentro do espectro possuem mais sensibilidade. Por isso, podem ter reações ruins quando entram em contato com o elemento que causa/essa irritação. ¹

Essa sensibilidade pode estar – ou não – ligada à disfunção sensorial. Assim, é necessário investigar se o autista fica incomodado com algo que não costuma atingir as outras pessoas ao redor. Por isso, falaremos abaixo sobre como entender essa questão na realidade do autista, como isso afeta sua vida e quais são os tratamentos. ¹

Disfunção sensorial

Índice

Como é a sensibilidade do autista?

Para um autista com sensibilidade sensorial, dificuldades para ir a lugares com barulhos ou super iluminados talvez seja o menor problema. A questão piora quando falamos daqueles que têm reações ruins a alimentos ou a objetos que se têm tudo a ver com hábitos necessários. Dormir, comer, tomar banho – coisas simples, mas importantes a todo ser humano – podem se tornar um momentos problemáticos em casa e trazer perdas à própria saúde.

Quando a disfunção sensorial no autista começa a afetar elementos importantes do dia a dia, pode haver, também, um sentimento de angústia sobre essas coisas. Além disso, o autista tende a ficar ansioso e resistente. E ansiedade é o primeiro passo para outros problemas mentais, como a depressão – além de atrapalhar a já tão difícil relação com as pessoas. ¹

Apesar disso, o contrário também pode acontecer. Assim, o autista pode encarar as sensibilidades como uma forma de conhecer melhor as coisas ao redor. Como, por exemplo, ao ficar cheirando colocando na boca coisas que não são de comer. Apesar do fato, em si, não ser uma hábito necessariamente aceitável, isso pode ser uma boa oportunidade para os pais e cuidadores de entenderem que tipo de curiosidade está levando a essa atitude e estimulá-la de forma positiva. Se a criança ama a textura do papel, por exemplo, por que não ensiná-la a fazer pinturas, dobraduras ou outra atividade?

Sobretudo, é importante lembrar que não existe um padrão específico de comportamento sobre os efeitos das sensibilidades. Cada autista é único e seus problemas devem ser investigados considerando a realidade de cada um.

Como as sensibilidades se manifestam no autista?

Existem duas categorias de sensibilidades entre os autistas: os que são hiposensíveis e os hipersensíveis. Mas qual é a diferença entre os dois?

A hiposensibilidade é quando o autista coloca sempre seu corpo num movimento que é atraído pela sensação que será causada. Em alguns casos, isso pode estar relacionado a comportamentos perigosos, pois eles podem ser mais desajeitados, por exemplo, batendo nos móveis, colocando a roupa do avesso, andando de forma errante, entre outros desajustes. Eles podem sentir, também, reações contrárias, como não perceber fome, cansaço, dor ou saciamento da comida. ³

Em contrapartida, os hipersensíveis no geral fogem das situações incômodas. Eles podem ter reações de fuga, agressividade e congelamento quando encontram com algo que abala seu conforto. Os hipersensíveis estão ligados aos estímulos mais “invisíveis”, assim como cheiros, sabores, texturas e outras sensações. ³

disfunção sensorial - como é com os autistas

Formas de manifestação das sensibilidades no autista

  • Visual – marcados, principalmente, por fontes de luz, objetos que giram, cores e até dificuldade para reconhecer expressões do rosto.
  • Auditiva – pode ocorrer surdez aparente (a criança não atende a chamados), incômodo com alguns tipos de sons e emissão de sons repetitivos.
  • Somatossensorial – perda o excesso de sensibilidade ao calor, ao frio e a dores físicas. Tem, também, atração por coisas ásperas e repulsa a coisas que toquem a pele (como contato físico e roupas).
  • Olfativas – o autista passa a não gostar de alguns cheiros, o que impacta, principalmente, a alimentação.
  • Sensibilidade bucal/paladar – ocorre a seletividade alimentar por recusa a algumas texturas, cheiros ou sabores. A criança pode começar a explorar coisas não comestíveis com a boca
  • Vestibular – relativo aos movimentos de balanço e ao equilíbrio, que passa a agir de forma errada
  • Cinestésica – um porte desajeitado no andar ou andar com a ponta dos pés.

Como ajudar quem tem autismo e disfunção sensorial?

As necessidades e as reações dos hiposensíveis e dos hipersensíveis são diferentes, mas nos dois casos você pode fazer algo para ajudar. 4

Como ajudar os autistas HIPOsensíveis:

  • Ofereça pontos visuais para quem tem dificuldade de entender o que é falado.
  • Experimente brinquedos sensoriais, como os próprios para mastigar.
  • Use os momentos de muita movimentação para trabalhar as questões corporais e corrigir o que for preciso.
  • Quando precisar tocar na criança, seja firme.
  • Utilize cobertores mais pesados – isso aumenta a sensação de segurança.
  • Em casa, prefira móveis que não tenham superfícies e formatos que possam machucar. Assim como arestas pontiagudas e cortantes. Ou aqueles que atrapalhem o espaço para o autista andar pelo espaço.

Dicas para ajudar os autistas HIPERsensíveis:

  • Diminuir a intensidade da iluminação – para quem é hipersensível a luzes. Assim, prefira lâmpadas incandescentes em vez das fluorescentes.
  • Quando for necessário, use óculos de sol e viseiras.
  • Em ambientes barulhentos, use tampões ou fones de ouvido que bloqueiem os sons. Alguns modelos de fone já oferecem a opção de ruído branco com o intuito de ajudar quem precisa do recurso.
  • Quando precisar que o autista se concentre, feche as portas para evitar distrações.
  • Na higiene pessoal e do lar, evite produtos muito perfumados, como sabonetes, vaporizadores, sprays, etc.
  • Observe que sensações os alimentos disponíveis podem causar – por exemplo, se existe algo picante ou se algo é servido muito gelado.
  • Verifique se as roupas possuem partes que apertem; retire as etiquetas e cubra as costuras expostas; evite os tecidos ásperos.
  • Sempre peça permissão para tocá-lo.
sensibilidade autista

Disfunção sensorial no autismo: como tratar?

O tratamento mais comentado hoje em dia para tratar a disfunção sensorial do autista é a integração sensorial. Esse é um dos tipos de terapia ocupacional. Por isso, os objetivos principais desse tipo de terapia são identificar quais sensibilidades o autista possui e diminuir os efeitos negativos dos hábitos hipo e hipersensíveis5

Dentro das atividades de integração sensorial, existem algumas que podem começar no consultório, feitas pelo terapeuta, e os pais ainda podem fazer igual em casa, para dar continuidade ao tratamento. Assim, alguns exemplos são o teste cego de texturas (a criança fecha os olhos e toca em algo para adivinhar o que é) e brincadeiras de giro e balanço (exercita o equilíbrio do corpo e a noção de movimento no espaço). 5

Além da terapia ocupacional, casos ainda mais específicos podem ser trabalhados com terapias relacionadas à fala e outras que tratem os comportamentos cognitivos4

O mais importante é entender que cada autista terá diferenças na hora de encontrar o tratamento certo. Forçar estímulo ou ajuda pode ser mais prejudicial do que benéfico, pois pode gerar uma associação negativa tanto ao estímulo quando à pessoa que está fazendo. Sempre que puder, antecipe o que pode trazer desconforto. Supra o bloqueio antes de a situação acontecer (como entregar um fone contra ruídos antes de entrar num ambiente cheio de gente), e não durante. ³

Uma curiosidade sobre disfunção sensorial

Em 2014, dois alunos de uma faculdade de artes dos Estados Unidos resolveram produzir um curta-metragem. A ideia era simular toda a sobrecarga de sensações que vive uma pessoa com transtorno do espectro autista. Assim como na ideia, o conceito do vídeo animado é demonstrar como a vida talvez seja vista pelos olhos e ouvidos de um autista e os desafios de lidar com o mundo ao redor.

No vídeo, os sons são confusos, o visual muda repentinamente, com formas giratórias e cores vivas. Objetos e seres nunca são visíveis em sua totalidade, mas são representados por partes – um gato por seu nariz e bigodes, um cachorro por seu nariz e língua.

“Nosso desejo com esta peça é dar um mostrar a vida de crianças que vivem com autismo e, de qualquer maneira que pudermos, inspirar uma mudança positiva por meio de uma tolerância e compreensão mais profundas”, contaram, em conclusão, os criadores do premiado vídeo ao jornal The New York Times. 6

Só um autista poderia dizer qual o grau de realidade o vídeo tem quanto à disfunção sensorial no autismo, mas certamente projetos como esse ajudam a população neurotípica a tentar entender melhor como funciona a mente autista para, quem sabe, buscar soluções que ajudem a comunidade TEA.

Assista o vídeo a baixo:

O que você achou deste artigo?

Nossa intenção é trazer informações que possam te ajudar a lidar com a rotina de um autista. Por isso, se você tem alguma história interessante sobre sensibilidade ou sentiu que isso te ajudou a esclarecer alguma dúvida, deixe um comentário! Sem dúvida, vamos adorar ler e te responder.

Siga, também, nossas redes sociais para não perder nenhum conteúdo. Estamos no Facebook assim como no Instagram. Até a próxima! =)

Superguia de brincadeiras para fazer em casa

Colaborou neste artigo:

Dra. Fabrícia Signorelli Galeti
Psiquiatra especialista em TEA – CRM 113405-SP


Referências bibliográficas e a data de acesso:

1. Instituto NeuroSaber – 19/08/2020

2. Scielo – 19/08/2020

3. Autimates – 19/08/2020

4. Autism Speaks – 19/08/2020

5. Freedom – 19/08/2020

6. The New York Times – 20/08/2020

“O Autismo em Dia não se responsabiliza pelo conteúdo, opiniões e comentários dos frequentadores do portal. O Autismo em Dia repudia qualquer forma de manifestação com conteúdo discriminatório ou preconceituoso.”

17 respostas para “Disfunção sensorial no autismo – entenda as perturbações na sensibilidade”

  1. JOZINETE FERREIRA FRANCO disse:29/10/2020 às 21:29Gostei muito das informações gostaria de reveber mais informações mwu filho tem 11 anos , e nao e facil pra mim trabalhar com ele,.Responder
    • Autismo em Dia disse:30/10/2020 às 13:52Oi Jozinete como vai? Ficamos felizes que o texto te ajudou! Podemos inscrever seu e-mail em nossa lista, assim, você vai passar a receber informações bem legais sobre autismo 🙂 Recomendamos também que você salve nosso blog entre seus favoritos e visite a gente toda semana, aí você não perde nadinha do que compartilhamos por aqui 💙Ah siga a gente lá nas redes sociais, sempre tem conteúdo bacana para os familiares é só clicar: Facebook InstragramResponder
  2. Lucília Olimpia Cerqueira disse:07/11/2020 às 06:22Gostei bastante do texto. Meu neto tem TEA e tenho dificuldade ao lidar com ele. Não aceita abraços, mas gosta de brincadeira de toques no corpo. Além de ter um comportamento difícil qdo em contato com sons altos. Ele tem 4 anos.Responder
    • Autismo em Dia disse:07/11/2020 às 22:13Oi Lucília! Que bom que o texto te ajudou de alguma forma! Obrigada por contar um pouquinho da sua história como avó. Imaginamos como é difícil lidar com todas essas questões, mas também conseguimos sentir no seu comentário muito amor e carinho, isso é muito especial. Um abraço caloroso, volte outras vezes 🙂Responder
  3. Lilian disse:15/12/2020 às 21:15Achei ótimo o texto, precisamos divulgar essas informações principalmente para os profissionais que trabalham com crianças autistas, as sensibilidades sensoriais na maioria das vezes são classificadas como comportamento agressivo.Responder
  4. Eugenia Ventura disse:23/12/2020 às 09:51Meu filho tem 3 anos fica me cheirando adora texturas macias e esse texto me fez compreender melhor mas queria saber como fazer pra ele não cheira lugares inconvenientes ( tipo bumbum)Responder
  5. gabriela noremberg disse:10/05/2021 às 10:54Excelente texto!!
    Meu filho, não gosta de por roupa, aqui no sul é muito frio, ele puxa calça pra cima, manga da camiseta. Tem sido muito difícil, se puder me dar alguma dica como proceder, agradeço!
    Ele está aguardando a TO.Responder
    • Autismo em Dia disse:24/05/2021 às 13:26Oi Gabriela, puxa vida, que difícil! Infelizmente não existe uma resposta padrão para resolver essas questões sensoriais:( Tudo depende de identificar o desconforto e as possíveis intervenções que poderiam ajudar. Que bom que já estão procurando atendimento individualizado e especializado, certamente isso vai ajudar!Deseja muita força por aí 💙Responder
  6. Fabiane disse:13/05/2021 às 23:40Olá gostei do artigo.
    Meu filho tem 6 anos e muita sensibilidade.
    Essa parte sensorial é muito sacrificante pra ele.
    Chora muito.
    Barulhos incomoda ele.
    Eu nunca entendi muito dessa parte,o texto e o video foi bem claro.Responder
    • Autismo em Dia disse:24/05/2021 às 14:56Oi Fabiane, que bom que o texto te ajudou 💙Esperamos vê-la outras vezes por aqui! Um abraço.Responder
  7. GLORIA DIONE DE FREITAS LERBACK disse:24/05/2021 às 14:51Faço o seguinte comentário sobre o artigo, gostei e achei muito didático. Quero acompanhar o site e realizar a leitura de outros textos.
    Grata
    Glória Lerback/vice-diretora /JI 303 Sul – Brasília – DFResponder
  8. Adriana disse:10/06/2021 às 06:43Gostei muito da importância e do respeito em lidar nestas dificuldades. Venho enfrentando uma sensibilidade de tato na boca. A criança sempre que esfregar a boca suavemente quando para pra pensar.Responder
  9. DEVANIR MARTINS disse:22/08/2021 às 12:23MARAVILHOSAS INFORMAÇÕES, VOU PASSAR PRA FRENTE, EU JÁ CONHECIA ALGUMAS SENSIBILIZARDES DO AUTISTA, MAS COM DETALHAMENTO NÃO, ADOREI.Responder

Por journey

system analyst lawyer journalist ambientalist

Deixar um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: