21 lições para o século 21



yuval noah harari

21 lições para
o século 21

Tradução

Paulo Geiger


Copyright © 2018 by Yuval Noah Harari
Todos os direitos reservados.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
que entrou em vigor no Brasil em 2009.

Título original

21 Lessons for the 21st Century

Capa

© vintage, Penguin Random House uk

Foto de capa
Da série We Share Our Chemistry with the Stars, Marc Quinn, óleo sobre tela.
© cortesia de Marc Quinn studio

Preparação

Joaquim Toledo Jr.

Índice remissivo

Luciano Marchiori

Revisão

Huendel Viana
Valquíria Della Pozza

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Harari, Yuval Noah
21 lições para o século 21 / Yuval Noah Harari ; tradução Paulo
Geiger. — 1a ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2018.

Título original: 21 Lessons for the 21st Century.
isbn 978‑85‑359‑3091‑7

  1. Civilização moderna – Século 21 2. História moderna – Século
    21 3. Mudança social i. Título.
    18‑18028 cdd‑909.83

Índice para catálogo sistemático:

  1. Civilização : Século 21 : História 909.83
    Iolanda Rodrigues Biode — Bibliotecária — crb‑8/10014

[2018]
Todos os direitos desta edição reservados à

editora schwarcz s.a.

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Para meu marido, Itzik, para minha mãe, Pnina, e para minha
avó Fanny, por seu amor e seu apoio ao longo de tantos anos.


Sumário

Introdução………………………………………………………………………. 11

parte i: o desafio tecnológico

  1. Desilusão
    O fim da história foi adiado ……………………………………….. 21
  2. Trabalho
    Quando você crescer, talvez não tenha um emprego ……….. 40
  3. Liberdade
    Big Data está vigiando você ………………………………………… 69
  4. Igualdade
    Os donos dos dados são os donos do futuro ……………………. 102

parte ii: o desafio político

  1. Comunidade
    Os humanos têm corpos ………………………………………………. 115
  2. Civilização
    Só existe uma civilização no mundo ……………………………… 124
  3. Nacionalismo
    Problemas globais exigem respostas globais ……………………. 144
  4. Religião
    Deus agora serve à nação …………………………………………….. 164
  5. Imigração
    Algumas culturas talvez sejam melhores que outras ………… 178

parte iii: desespero e esperança

  1. Terrorismo
    Não entre em pânico …………………………………………………… 201
  2. Guerra
    Nunca subestime a estupidez humana ………………………….. 215
  3. Humildade
    Você não é o centro do mundo ……………………………………… 228
  4. Deus
    Não tomarás o nome de Deus em vão …………………………… 246
  5. Secularismo
    Tenha consciência de sua sombra …………………………………. 254

parte iv: verdade

  1. Ignorância
    Você sabe menos do que pensa que sabe…………………………. 271
  2. Justiça
    Nosso senso de justiça pode estar desatualizado ……………… 278
  3. Pós‑verdade
    Algumas fake news duram para sempre ………………………… 287
  4. Ficção científica
    O futuro não é o que você vê nos filmes …………………………. 304

parte v: resiliência

  1. Educação
    A mudança é a única constante ……………………………………. 319
  2. Sentido

A vida não é uma história……………………………………………. 331

  1. Meditação
    Apenas observe …………………………………………………………… 378

Agradecimentos ………………………………………………………………. 391
Notas ……………………………………………………………………………… 395
Índice remissivo ………………………………………………………………. 427


Introdução

Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza
é poder
. Em teoria, qualquer um pode se juntar ao debate sobre

o futuro da humanidade, mas é muito difícil manter uma visão
lúcida. Muitas vezes nem sequer percebemos que um debate está
acontecendo, ou quais são suas questões cruciais. Bilhões de nós
dificilmente podem se permitir o luxo de investigá‑las, pois temos
coisas mais urgentes a fazer, como trabalhar, tomar conta
das crianças, ou cuidar dos pais idosos. Infelizmente, a história
não poupa ninguém. Se o futuro da humanidade for decidido
em sua ausência, porque você está ocupado demais alimentando
e vestindo seus filhos — você e eles não estarão eximidos das
consequências. Isso é muito injusto, mas quem disse que a história
é justa?
Como historiador, não posso dar às pessoas alimento ou
roupas — mas posso tentar oferecer alguma clareza, ajudando
assim a equilibrar o jogo global. Se isso capacitar ao menos mais
um punhado de pessoas a participar do debate sobre o futuro de
nossa espécie, terei realizado minha tarefa.

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Meu primeiro livro, Sapiens, investigou o passado humano,
examinando como um macaco insignificante dominou a Terra.

Homo Deus, meu segundo livro, explorou o futuro da vida a
longo prazo, contemplando como os humanos finalmente se tornarão
deuses, e qual pode ser o destino final da inteligência e da
consciência.

Neste livro quero analisar mais de perto o aqui e o agora.
Meu foco está nas questões atuais e no futuro imediato das sociedades
humanas. O que está acontecendo neste momento? Quais
são os maiores desafios e escolhas de hoje? Qual deve ser o foco de
nossa atenção? O que devemos ensinar a nossos filhos?

Claro, 7 bilhões de pessoas têm 7 bilhões de agendas, e, como
já observado, pensar no contexto geral é um luxo relativamente
raro. Uma mãe solteira lutando para criar dois filhos numa favela
em Mumbai está preocupada com a próxima refeição; refugiados
num barco no meio do Mediterrâneo perscrutam o horizonte em
busca de qualquer sinal de terra; e um homem que está morrendo
num hospital superlotado em Londres reúne todas as forças para
respirar mais uma vez. Todos têm problemas muito mais urgentes
do que o aquecimento global ou a crise da democracia liberal.
Nenhum livro pode dar conta de todas as angústias individuais, e
não tenho lições a ensinar às pessoas que estão nas situações que
descrevi. Posso apenas esperar aprender com elas.

Minha agenda aqui é global. Observo as grandes forças que
dão forma às sociedades em todo o mundo, e que provavelmente
vão influenciar o futuro do planeta como um todo. A mudança
climática pode estar muito além das preocupações de quem está
em meio a uma emergência de vida ou morte, mas pode futuramente
tornar as favelas de Mumbai inabitáveis, enviar novas e
enormes levas de refugiados através do Mediterrâneo, e levar a
uma crise mundial dos serviços de saúde.

A realidade é formada por muitas tramas, e este livro tenta cobrir diferentes aspectos de nosso impasse global, sem pretender
ser exaustivo. Diferentemente de Sapiens e de Homo Deus, ele não
tem a intenção de ser uma narrativa histórica, e sim uma coletânea
de lições, as quais não têm por conclusão respostas simples.
Elas visam a estimular a reflexão, e a ajudar os leitores a tomar
parte em algumas das principais conversas de nosso tempo.

O livro, na verdade, foi escrito em diálogo com o público.
Muitos dos capítulos surgiram como resposta a perguntas de leitores,
jornalistas e colegas. Versões anteriores de alguns segmentos
foram publicadas em diferentes formatos, o que me deu oportunidade
de receber feedbacks e refinar meus argumentos. Algumas
seções têm por foco tecnologia, algumas política, outras religião
ou arte. Certos capítulos celebram a sabedoria humana, outros
destacam o papel crucial da sua estupidez. Mas a questão mais
abrangente em todos é a mesma: o que está acontecendo no mundo
hoje, e qual é o significado profundo dos eventos?

Qual é o sentido da ascensão de Donald Trump? O que podemos
fazer ante a epidemia de fake news? Por que a democracia
liberal está em crise? Deus está de volta? Haverá uma nova guerra
mundial? Qual civilização domina o mundo — o Ocidente, a
China, o Islã? A Europa deveria manter portas abertas aos imigrantes?
O nacionalismo pode resolver os problemas de desigualdade
e mudança climática? O que fazer quanto ao terrorismo?

Embora a perspectiva deste livro seja global, não negligencio

o nível pessoal. Ao contrário, quero enfatizar as conexões entre as
grandes revoluções de nossa era e a vida interior dos indivíduos.
Por exemplo, o terrorismo é tanto um problema de política global
quanto um mecanismo psicológico interno. O terrorismo manipula
o medo em nossa mente, sequestrando a imaginação privada
de milhões de indivíduos. Da mesma forma, a crise da democracia
liberal se desenrola não somente em parlamentos e seções
eleitorais, mas também nos neurônios e nas sinapses. Dizer que o
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pessoal é político é um clichê. Mas, numa era em que cientistas,
corporações e governos estão aprendendo a hackear o cérebro
humano, esse truísmo é mais sinistro do que nunca. Portanto, o
livro apresenta observações sobre a conduta de indivíduos bem
como de sociedades inteiras.

Um mundo global exerce uma pressão sem precedentes sobre a conduta e a moralidade pessoais. Cada um de nós está enredado em numerosas e vastas teias de aranha, que restringem nossos
movimentos, mas ao mesmo tempo transmitem nossos mais
minúsculos movimentos a destinações longínquas. Nossa rotina
diária influencia a vida de pessoas e animais do outro lado do
mundo, e alguns gestos pessoais podem inesperadamente incendiar
o mundo inteiro, como aconteceu com a autoimolação de
Mohamed Bouazizi na Tunísia, que desencadeou a Primavera
Árabe, e com as mulheres que compartilharam suas histórias de
assédio sexual e deram origem ao movimento #MeToo.

Essa dimensão global de nossa vida pessoal significa que é
mais importante que nunca revelar nossos vieses religiosos e políticos,
nossos privilégios raciais e de gênero, e nossa cumplicidade
involuntária na opressão institucional. Mas será este um empreendimento
realista? Como poderei achar um terreno ético
firme num mundo que se estende muito além de meus horizontes,
que gira completamente fora do controle humano, e que suspeita
de todos os deuses e ideologias?

O livro começa examinando o atual impasse político e tecnológico.
No final do século xx tudo levava a crer que as grandes
batalhas ideológicas entre fascismo, comunismo e liberalismo tinham
resultado na vitória arrasadora do liberalismo. Democracia
política, direitos humanos e capitalismo de livre mercado pareciam
destinados a conquistar o mundo inteiro. Mas, como de cos

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tume, a história dá voltas inesperadas, e após o colapso do fascismo
e do comunismo agora o liberalismo está emperrado. Então
para onde caminhamos?

Essa pergunta é especialmente incômoda, porque o liberalismo
está perdendo credibilidade justo quando as revoluções gêmeas
na tecnologia da informação e na biotecnologia enfrentam
os maiores desafios com que nossa espécie já deparou. A fusão das
duas áreas pode em breve expulsar bilhões de seres humanos do
mercado de trabalho e solapar a liberdade e a igualdade. Algoritmos
de Big Data poderiam criar ditaduras digitais nas quais todo

o poder se concentra nas mãos de uma minúscula elite enquanto
a maior parte das pessoas sofre não em virtude de exploração, mas
de algo muito pior: irrelevância.
Comentei extensivamente a fusão da tecnologia da informação
com a biotecnologia em meu livro anterior, Homo Deus. Mas,
enquanto aquele livro se focava nas perspectivas a longo prazo

— perspectivas de séculos e até de milênios —, este livro concentra‑se
na crise social, econômica e política mais imediata. Meu
interesse aqui é menos pela criação, no futuro, da vida inorgânica,
e mais pela ameaça ao Estado de bem‑estar social e a determinadas
instituições, como a União Europeia.
O livro não tenta cobrir todos os impactos das novas tecnologias.
Embora a tecnologia encerre muitas e maravilhosas promessas,
minha intenção é destacar principalmente as ameaças e
os perigos que ela traz consigo. Já que as corporações e os empreendedores
que lideram a revolução tecnológica tendem, naturalmente,
a entoar loas a suas criações, cabe a sociólogos, filósofos
e historiadores como eu fazer soar o alarme e explicar o que pode
dar errado.

Depois de delinear os desafios que enfrentamos, na segunda
parte do livro examinaremos uma ampla gama de respostas possíveis.
Poderiam os engenheiros do Facebook usar inteligência

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artificial para criar uma comunidade global que vai salvaguardar
a liberdade e a igualdade humanas? Talvez a resposta seja reverter

o processo de globalização e tornar a fortalecer o Estado‑nação?
Será que devemos retroceder ainda mais, e ir buscar esperança e
sabedoria nas fontes de antigas tradições religiosas?
Na terceira parte do livro vemos que, embora os desafios tecnológicos
sejam sem precedentes e as discordâncias políticas sejam
intensas, o gênero humano poderá enfrentar a situação à altura
se mantivermos nossos temores sob controle e formos um
pouco mais humildes quanto a nossas opiniões. Essa parte investiga
o que pode ser feito quanto à ameaça do terrorismo, quanto
ao perigo de uma guerra global, e quanto aos vieses e ódios que
desencadeiam esses conflitos.

A quarta parte enfrenta a questão da pós‑verdade, e pergunta
em que medida ainda somos capazes de compreender desenvolvimentos
globais e distinguir os malfeitos da Justiça. Será o
Homo sapiens capaz de dar sentido ao mundo que ele criou? Haverá
ainda uma fronteira nítida entre realidade e ficção?

Na quinta e última parte, eu junto todas essas diferentes tramas
e lanço um olhar mais geral à vida na era da perplexidade,
quando as antigas narrativas históricas desmoronaram, e nenhuma
outra surgiu até agora para substituí‑las. Onde estamos? O
que deveríamos fazer na vida? De que tipos de habilidades necessitamos?
Considerando tudo que sabemos e que não sabemos sobre
ciência, sobre Deus, sobre política e sobre religião — o que
podemos dizer sobre o sentido da vida hoje?

Isso pode soar ambicioso demais, mas o Homo sapiens não
pode esperar. O tempo está ficando escasso para a filosofia, a religião
e a ciência. As pessoas têm debatido o sentido da vida por
milhares de anos. Não podemos continuar esse debate indefinidamente.
A crise ecológica iminente, a ameaça crescente das armas
de destruição em massa e o surgimento de novas tecnologias

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disruptivas não o permitirão. Talvez o mais importante seja o fato
de que a inteligência artificial e a biotecnologia estão dando à humanidade
o poder de reformulação e reengenharia da vida. Muito
em breve alguém terá de decidir como usar esse poder — com
base numa narrativa implícita ou explícita sobre o sentido da vida.
Filósofos são muito pacientes, mas engenheiros são muito
menos, e investidores são os menos pacientes de todos. Se você
não sabe o que fazer com o poder de reengenharia da vida, as
forças do mercado não vão esperar mil anos por uma resposta. A
mão invisível do mercado imporá sua resposta cega. A menos que
você se compraza em deixar o futuro da vida à mercê de relatórios
de contabilidade, é preciso ter uma ideia clara do que é a vida.

No capítulo final eu me permito algumas observações pessoais,
falando de um Sapiens para outro, antes que a cortina desça
sobre nossa espécie e comece um drama completamente diferente.

Antes de embarcar nesta jornada intelectual, eu gostaria de
destacar um aspecto decisivo. Grande parte do livro discute as
imperfeições da visão de mundo liberal e do sistema democrático.
Faço isso não por acreditar que a democracia liberal é excepcionalmente
problemática, e sim porque penso que é o modelo político
mais bem‑sucedido e versátil que os humanos desenvolveram
até agora para lidar com os desafios do mundo moderno. Mesmo
que não seja adequado a toda sociedade em todo estágio de desenvolvimento,
ele provou seu valor em mais sociedades e em
mais situações do que qualquer uma de suas alternativas. Portanto,
ao examinar os novos desafios que temos diante de nós, é necessário
compreender as limitações da democracia liberal, e explorar
como podemos adaptar e melhorar suas instituições atuais.

Infelizmente, no atual clima político, todo pensamento crítico
sobre liberalismo e democracia pode ser sequestrado por auto

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cratas e vários movimentos não democráticos, cujo único interesse
é desacreditar a democracia liberal, em vez de se envolver numa
discussão aberta sobre o futuro da humanidade. Ao mesmo tempo
que ficam mais do que satisfeitos em debater os problemas da
democracia liberal, não toleram críticas dirigidas a eles.

Portanto, como autor, tive de fazer uma escolha difícil. Deveria
expor minhas ideias abertamente, arriscando que minhas palavras
fossem interpretadas fora de contexto e usadas para justificar
as novas autocracias? Ou deveria censurar a mim mesmo? É
uma marca dos regimes não liberais dificultar a livre expressão
até mesmo fora de suas fronteiras. Devido à disseminação desses
regimes, está ficando cada vez mais perigoso pensar criticamente
sobre o futuro de nossa espécie.

Após uma reflexão íntima, optei pela discussão livre e não
pela autocensura. Se não criticarmos o modelo liberal não seremos
capazes de corrigir suas falhas ou ir além dele. Mas é importante
notar que este livro só poderia ter sido escrito num mundo
em que as pessoas ainda são relativamente livres para pensar o
que quiserem e se expressar como quiserem. Se você dá valor a
este livro, deveria valorizar também a liberdade de expressão.

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parte i

O desafio tecnológico

O gênero humano está perdendo a fé
na narrativa liberal que dominou a política global
em décadas recentes, justamente quando a fusão
da biotecnologia com a tecnologia da informação
nos coloca diante das maiores mudanças
com que o gênero humano já se deparou.

  1. Desilusão
    O fim da história foi adiado

Os humanos pensam em forma de narrativas e não de fatos,
números ou equações, e, quanto mais simples a narrativa, melhor.
Toda pessoa, grupo e nação tem suas próprias lendas e mitos. Mas
durante o século xx as elites globais em Nova York, Londres, Berlim
e Moscou formularam três grandes narrativas que pretendiam
explicar todo o passado e predizer o futuro do mundo inteiro:
a narrativa fascista, a narrativa comunista e a narrativa liberal.
A Segunda Guerra Mundial derrotou a narrativa fascista, e do final
da década de 1940 até o final da década de 1980 o mundo
tornou‑se o campo de batalha de apenas duas narrativas: a comunista
e a liberal. Depois a narrativa comunista entrou em colapso,
e a liberal prevaleceu como o principal guia do passado humano
e o manual indispensável para o futuro do mundo — ou assim
parecia à elite global.

A narrativa liberal celebra o valor e o poder da liberdade. Diz
que durante milhares de anos a humanidade viveu sob regimes
opressores que concediam ao povo poucos direitos políticos, poucas
oportunidades econômicas ou liberdades individuais, e res

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tringiam rigorosamente os movimentos de indivíduos, de ideias e
de bens. Mas as pessoas lutaram por sua liberdade, e passo a passo
a liberdade se firmou. Regimes democráticos tomaram o lugar de
ditaduras brutais. A livre‑iniciativa superou as restrições econômicas.
As pessoas aprenderam a pensar por si mesmas e a seguir

o próprio coração, em vez de obedecer cegamente a sacerdotes
fanáticos e tradições inflexíveis. Estradas de acesso livre, pontes
sólidas e aeroportos movimentados substituíram muros, fossos e
cercas de arame farpado.
A narrativa liberal reconhece que nem tudo vai bem, e que
ainda há muitos obstáculos a superar. Grande parte de nosso planeta
é dominada por tiranos, e mesmo nos países mais liberais
muitos cidadãos sofrem com a pobreza, a violência e a opressão.
Mas pelo menos sabemos o que fazer para superar esses problemas:
dar às pessoas mais liberdade. Precisamos proteger os direitos
humanos, garantir que todos possam votar, estabelecer mercados
livres e permitir que indivíduos, ideias e bens se movimentem
pelo mundo o mais facilmente possível. Segundo essa panaceia
liberal — aceita, com ligeiras variações, tanto por George W. Bush
quanto por Barack Obama —, se simplesmente continuarmos a
liberalizar e globalizar nossos sistemas políticos e econômicos, o
resultado será paz e prosperidade para todos.1

Os países que se juntarem à irrefreável marcha do progresso
serão em breve recompensados com paz e prosperidade. Países
que resistirem ao inevitável sofrerão as consequências, até que
eles também se iluminem, abram suas fronteiras e liberalizem
suas sociedades, sua política e seus mercados. Pode levar tempo,
mas ao fim até a Coreia do Norte, o Iraque e El Salvador parecerão
a Dinamarca ou o estado de Iowa.

Nos anos 1990 e 2000 essa narrativa virou um mantra global.
Muitos governos, do Brasil à Índia, adotaram receitas liberais numa
tentativa de se juntar à marcha inexorável da história. Os que

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não as adotaram pareciam fósseis de uma era ultrapassada. Em
1997 o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, repreendeu
confiantemente o governo chinês dizendo que sua recusa a liberalizar
a política chinesa a punha “no lado errado da história”.2

Contudo, desde a crise financeira de 2008, pessoas em todo

o mundo estão cada vez mais desiludidas com a narrativa liberal.
Muros e sistemas protecionistas estão de novo em voga. Cresce a
resistência à imigração e a acordos comerciais. Governos supostamente
democráticos solapam a independência do sistema judiciário,
restringem a liberdade de imprensa e enquadram toda
oposição como traição. Líderes com mão de ferro em países como
a Rússia e a Turquia ensaiam novos tipos de democracias não liberais
e francas ditaduras. Hoje em dia, poucos declarariam com
todas as letras que o Partido Comunista Chinês está no lado errado
da história.
O ano de 2016 — marcado pelo voto pró‑Brexit na Grã‑Bretanha
e pela ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos —
representou o momento em que essa onda tempestuosa de desilusão
atingiu o cerne dos Estados liberais da Europa ocidental e
da América do Norte. Enquanto há poucos anos americanos e
europeus ainda tentavam libertar o Iraque e a Líbia pela força das
armas, muita gente no Kentucky e em Yorkshire agora considera
a visão liberal indesejável ou inatingível. Alguns descobriram o
gosto pela velha ordem mundial, e simplesmente não querem
abrir mão de seus privilégios raciais, nacionais ou de gênero. Outros
concluíram (certa ou erroneamente) que liberalização e globalização
são uma grande farsa que confere poder a uma elite
minúscula às expensas das massas.

Em 1938 foram oferecidas três narrativas aos seres humanos
para que escolhessem uma; em 1968, apenas duas; e em 1998 uma
única narrativa parecia prevalecer; e em 2018 chegamos a zero.
Não é de admirar que as elites liberais, que dominaram grande

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parte do mundo nas décadas recentes, tenham entrado num estado
de choque e desorientação. Ter uma só narrativa é a situação
mais cômoda de todas. Tudo está perfeitamente claro. Ser deixado
de repente sem nenhuma narrativa é aterrador. Nada mais faz
sentido. Um pouco como a elite soviética na década de 1980, os
liberais não compreendem como a narrativa se desviou de seu
curso preordenado, e lhes falta um prisma alternativo para interpretar
a realidade. A desorientação os faz pensar em termos apocalípticos,
como se o fracasso da narrativa em chegar a seu final
feliz só possa significar que ela está sendo arremessada para o
Armagedon. Incapaz de constatar a realidade, a mente se fixa em
cenários catastróficos. Como a pessoa que imagina que uma forte
dor de cabeça é sinal de tumor cerebral terminal, muitos liberais
temem que o Brexit e a ascensão de Donald Trump pressagiam o
fim da civilização humana.

da matança de mosquitos à matança de ideias

A sensação de desorientação e catástrofe iminente é exacerbada
pelo ritmo acelerado da disrupção tecnológica. O sistema político
liberal tomou forma durante a era industrial para gerir um
mundo de máquinas a vapor, refinarias de petróleo e aparelhos de
televisão. Agora, tem encontrado dificuldade para lidar com as revoluções
em curso na tecnologia da informação e na biotecnologia.

Políticos e eleitores mal conseguem compreender as novas
tecnologias, que dirá regular seu potencial explosivo. A partir da
década de 1990 a internet mudou o mundo, provavelmente mais
do que qualquer outro fator, mas a revolução da internet foi dirigida
mais por engenheiros que por partidos políticos. Você alguma
vez votou em qualquer coisa que concerne à internet? O sistema
democrático ainda está se esforçando por entender o que o

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atingiu, e está mal equipado para lidar com os choques seguintes,
como o advento da inteligência artificial (ia) e a revolução da tecnologia
de blockchain.

Os computadores já tornaram o sistema financeiro tão complicado
que poucos humanos são capazes de entendê‑lo. Com a
evolução da ia talvez logo cheguemos a um ponto em que as finanças
não farão sentido nenhum para os humanos. E o que isso
fará com o processo político? Dá para imaginar um governo que
aguarda humildemente que um algoritmo aprove seu orçamento
ou sua nova reforma fiscal? Enquanto isso redes peer‑to‑peer de
blockchain e criptomoedas como o bitcoin poderão renovar completamente
o sistema monetário, de modo que reformas fiscais
radicais serão inevitáveis. Por exemplo, a cobrança de imposto
sobre o dólar pode se tornar impossível ou irrelevante, porque a
maior parte das transações não vai envolver um valor de câmbio
claro e definido para a moeda nacional, ou qualquer moeda em
geral. Portanto, os governos talvez tenham de inventar impostos
totalmente novos — talvez um imposto sobre informação (que
será o ativo mais importante na economia, e também a única coisa
trocada em numerosas transações). Será que o sistema político
conseguirá lidar com a crise antes de ficar sem dinheiro?

Ainda mais importante, as revoluções gêmeas da tecnologia
da informação e da biotecnologia poderiam reestruturar não
apenas economias e sociedades mas também nossos corpos e
mentes. No passado, nós humanos aprendemos a controlar o
mundo exterior, mas tínhamos pouco controle sobre o mundo
interior. Sabíamos construir uma represa e interromper o fluxo
de um rio, mas não sabíamos interromper o envelhecimento do
corpo. Sabíamos projetar um sistema de irrigação, mas não tínhamos
ideia de como projetar um cérebro. Se mosquitos zumbiam
em nossos ouvidos e perturbavam nosso sono, sabíamos

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matar mosquitos; mas, se um pensamento zumbia em nossa
mente e nos mantinha despertos à noite, a maioria de nós não
sabia matar o pensamento.

As revoluções na biotecnologia e na tecnologia da informação
nos darão controle sobre o mundo interior, e nos permitirão
arquitetar e fabricar vida. Vamos aprender a projetar cérebros, a
estender a duração da vida e a eliminar pensamentos segundo
nosso critério. E ninguém sabe quais serão as consequências disso.
Humanos sempre foram muito melhores em inventar ferramentas
do que em usá‑las sabiamente. É mais fácil manipular um
rio construindo uma represa do que prever todas as complexas
consequências que isso trará para o sistema ecológico mais amplo.
Da mesma forma, será mais fácil redirecionar o fluxo de nossa
mente do que predizer o que isso fará a nossa psicologia pessoal
ou nosso sistema social.

No passado, adquirimos o poder de manipular o mundo a
nossa volta e de remodelar o planeta inteiro, mas, como não compreendemos
a complexidade da ecologia global, as mudanças que
fizemos inadvertidamente comprometeram todo o sistema ecológico
e agora enfrentamos um colapso ecológico. No século que
vem a biotecnologia e a tecnologia da informação nos darão o
poder de manipular o mundo dentro de nós e de nos remodelar,
mas porque não compreendemos a complexidade de nossa própria
mente as mudanças que faremos podem afetar nosso sistema
mental de tal modo que ele também vai quebrar.

As revoluções em biotecnologia e tecnologia da informação
são feitas por engenheiros, empresários e cientistas que têm pouca
consciência das implicações políticas de suas decisões, e que
certamente não representam ninguém. Parlamentares e partidos
serão capazes de assumir essas questões? No momento, parece
que não. O poder disruptivo da tecnologia nem chega a ser prioridade
na agenda política. Assim, durante a corrida presidencial

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de 2016 nos Estados Unidos, a principal referência a uma tecnologia
disruptiva foi relativa ao escândalo dos e‑mails de Hillary
Clinton,3 e, apesar de tudo que se disse sobre o fechamento de
postos de trabalho, nenhum candidato mencionou o impacto potencial
da automação. Donald Trump avisou aos eleitores que
mexicanos e chineses iriam tomar seus empregos, e que, portanto,
eles deveriam construir um muro na fronteira mexicana.4 Ele
nunca avisou aos eleitores que algoritmos iriam roubar seu trabalho,
nem sugeriu que se construísse um sistema de proteção cibernético
na fronteira com a Califórnia.

Esse pode ser um dos motivos (embora não o único) pelo
qual até mesmo eleitores no coração do Ocidente liberal estão
perdendo a fé na narrativa liberal e no processo democrático. As
pessoas comuns talvez não compreendam a inteligência artificial e
a biotecnologia, mas percebem que o futuro as está deixando para
trás. A condição de vida de uma pessoa comum na União Soviética,
na Alemanha ou nos Estados Unidos em 1938 talvez fosse sombria,
mas sempre lhes diziam que ela era a coisa mais importante
do mundo, que ela era o futuro (contanto, é claro que fosse uma
“pessoa normal” e não judia ou africana). Ela olhava os pôsteres
de propaganda — que, tipicamente, mostravam mineradores,
operários siderúrgicos e donas de casa em poses heroicas — e ali
se via: “Eu estou naquele pôster! Sou o herói do futuro!”.5

Em 2018 a pessoa comum sente‑se cada vez mais irrelevante.
Um monte de palavras misteriosas são despejadas freneticamente
em ted Talks, think tanks governamentais e conferências de alta
tecnologia — globalização, blockchain, engenharia genética, inteligência
artificial, aprendizado de máquina —, e as pessoas comuns
bem podem suspeitar que nenhuma dessas palavras tem a
ver com elas. A narrativa liberal era sobre pessoas comuns. Como
ela pode continuar a ser relevante num mundo de ciborgues e
algoritmos em rede?

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No século xx, as massas se revoltaram contra a exploração, e
buscaram traduzir seu papel vital na economia em poder político.
Agora as massas temem a irrelevância, e querem freneticamente
usar seu poder político restante antes que seja tarde. O
Brexit e a ascensão de Trump poderiam, assim, demonstrar uma
trajetória contrária à das revoluções socialistas tradicionais. As
revoluções russa, chinesa e cubana foram feitas por pessoas que
eram vitais para a economia, mas às quais faltava poder político;
em 2016, Trump e Brexit foram apoiados por muita gente que
ainda usufruía de poder político, mas que temia estar perdendo
seu valor na economia. Talvez no século xxi as revoltas populares
sejam dirigidas não contra uma elite econômica que explora pessoas,
mas contra a elite econômica que já não precisa delas.6 Talvez
seja uma batalha perdida. É muito mais difícil lutar contra a
irrelevância do que contra a exploração.

a fênix liberal

Esta não é a primeira vez que a narrativa liberal enfrenta
uma crise de confiança. Desde que essa narrativa passou a exercer
uma influência global, na segunda metade do século xix, ela tem
passado por crises periódicas. A primeira era da globalização e da
liberalização terminou no banho de sangue da Primeira Guerra
Mundial, quando a disputa geopolítica imperial interrompeu
precocemente a marcha global para o progresso. Nos dias seguintes
ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo,
constatou‑se que as grandes potências acreditavam muito
mais no imperialismo que no liberalismo, e em vez de unir o
mundo mediante um comércio livre e pacífico elas se concentraram
em conquistar uma fatia maior do mundo pela força bruta.
Porém o liberalismo sobreviveu ao momento de Francisco Ferdi

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