G1 – ‘SEREI ETERNAMENTE GRATO À MINHA LINDA E SERENA MULHER’, DIZ MARIDO DE CONSULTORA DO SENADO VÍTIMA DE COVID NO DF


Fabiana Queiroz, de 46 anos, morreu no último domingo (11), após 50 dias de internação. Em homenagem, jornalista Gabriel Garcia escreveu carta de amor para esposa.

Por Mara Puljiz, G1 DF

13/07/2021 18h42  Atualizado há 38 minutos


Fabiana Queiroz e marido Gabriel Garcia — Foto: Arquivo pessoal

Fabiana Queiroz e marido Gabriel Garcia — Foto: Arquivo pessoalhttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Mais do que uma despedida, uma mistura de dor e um sentimento genuíno. Assim o jornalista Gabriel Garcia, de 38 anos, fala da carta de amor que escreveu para a esposa, que morreu vítima da Covid-19 no Distrito Federal.

Fabiana Queiroz, de 46 anos, era consultora no Senado Federal, onde também foi homenageada nesta terça-feira (13). Ela morreu no domingo (11), após 50 dias de internação.

“Não há palavra capaz de definir essa perda gigantesca. Serei eternamente grato à minha linda e serena mulher por ter me escolhido para vivermos os melhores anos da minha vida”, diz Gabriel Garcia.

Veja vídeo da homenagem, lida pela senadora Simone Tebet:

VÍDEO: Simone Tebet lê homenagem de servidores do Senado a colega que morreu com complicações da Covid-19

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VÍDEO: Simone Tebet lê homenagem de servidores do Senado a colega que morreu com complicações da Covid-19

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Na carta de amor, Gabriel fala dos dias em que a esposa ficou internada por causa da doença, da intubação, da saga dos médicos, da luta pela vida. Mas também das lembranças dos momentos de felicidade, além do medo e do sentimento de impotência (leia carta mais abaixo).

Em meio ao turbilhão de pensamentos, Gabriel lembrou das mais de 530 mil vítimas da Covid-19 no Brasil.

Gabriel Garcia e a esposa Fabiana Queiroz — Foto: Arquivo pessoal

Gabriel Garcia e a esposa Fabiana Queiroz — Foto: Arquivo pessoal

“Somo-me, hoje, assim, à dor daqueles que perderam um filho, uma mãe, um pai, um tio, um marido, na crença da vacinação em massa”.

O jornalista também deixa um recado, aliás, um conselho. “Aconselho a todos o ensinamento de Santo Agostinho: ame sem medida, valorize a vida. E, principalmente, respeite as regras sanitárias. Não sabemos como cada corpo reagirá ao vírus.”

Gabriel Garcia e a esposa Fabiana Queiroz — Foto: Arquivo pessoal

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Íntegra da carta

‘Noites solitárias’

Por Gabriel Garcia, um homem apaixonado

“Renato Russo traduzira, em um passado longínquo, o sentimento que invadiu a alma após o médico sentenciar que a paciente do leito 15 seria intubada em sua segunda noite na unidade de tratamento intensivo. Para o coração aturdido, as palavras soaram como um adeus precoce da inteligente, corajosa, astuta e carinhosa Fabiana Damasceno. Até parecia cocaína, mas era só tristeza.

Durante três dias sombrios, com o quarto iluminado à luz de um arsenal bélico de aparelhos de monitoramento cardíaco e de respiração, sem uma única fresta de sol, a porta adornada por dois carrinhos cinzentos de metal com o chamado “kit intubação”, agarrei-me ao pensamento do bravo ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Acreditava que a combalida mulher estava perdendo batalhas, mas que silenciosamente voltaria a tempos melhores, vencendo a guerra.

A ausência da sua voz, calada pela bateria de remédios tranquilizantes, bombardeava pensamentos como uma blitzkrieg da Luftwaffe em cerco à Londres na Segunda Guerra Mundial. Chovia em minha cabeça desnorteada torpedeiros de medo, angústia e aflição.

Nas três semanas que se seguiram, o excesso de medicação rasgava as veias a todo tempo, o balé de enfermeiros, médicos e fisioterapeutas gerava engarrafamento no apertado ambiente e sua fisionomia permanecia abatida.

Dias e noites se confundiam em perene escuridão, com a incerteza tocando a maçaneta a cada visita médica. Raras vezes, trazia o jaleco esbranquiçado um naco de conforto. Em sua maioria, as notícias repisavam o sofrimento: aumento do acometimento do pulmão e da taxa de infecção, exames de sangue alterados, suspeitas de insuficiência cardíaca, embolia e trombose – descartadas posteriormente.

Sem reserva de força, ela continuava sedada a base de fármacos destinados a apagá-la. Era tão hercúlea a briga pela vida que permanecer acordada seria perfumaria nessa arena de dores, falta de ar e oxigenação capenga. Restava simplesmente prostrada, incapaz até de erguer-se para um gole de água nas pequenas garrafas trazidas pelos cordiais garçons do hospital, hidratando-se com gaze umedecida por longuíssimos cinco dias.

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Nesse interminável calvário, o acompanhante sofre com o flagelo, mas apenas o acamado é capaz de descrever o peso da cruz de usar máscaras que apertam e sufocam o rosto, a tal ventilação não invasiva (VNI), máquina primordial para evitar a intubação, e o cateter de alto fluxo, descrito pelos especialistas como um carro a 300 km e o passageiro com a cabeça para fora da janela. No caso do tratamento contra o coronavírus, o rosto fica exposto ao vento em tempo integral, por semanas.

Em igual velocidade, brota na família a sensação de impotência, misturada com o medo de entrar para a estatística das mais de 530 mil vítimas no Brasil, em guerra barulhenta que deixa em ruína lares e sonhos. Na busca por consolo, todos se reúnem em orações, correntes e compaixão. Fé e esperança surgem com frequência nas rodas virtuais de conversa.

Somo-me, hoje, assim, à dor daqueles que perderam um filho, uma mãe, um pai, um tio, um marido, na crença da vacinação em massa. Como um atento espectador, inquilino de um hospital por 50 dias, aconselho a todos o ensinamento de Santo Agostinho: ame sem medida, valorize a vida. E, principalmente, respeite as regras sanitárias. Não sabemos como cada corpo reagirá ao vírus.

Para quem inicia a jornada contra essa cruel doença, paciência e perseverança incessantemente, na expectativa de progresso. Quando rarear a energia, sustente-se em amigos e familiares. E, a todo custo, afaste o desânimo: o psicológico é um aliado de primeira ordem, capaz de definir o rumo do tratamento.

Infelizmente, chegaram ao fim minhas noites solitárias, na fria companhia do monitor metálico e bastante cabeado que mede os sinais do adoentado. Consultora legislativa do Senado, goiana de nascente e Brasiliense por vocação, Fabi não resistiu ao retorno à UTI. Linda, sorridente, cheia de virtudes, ela partiu cedo, como se quisesse resolver logo as pendências da sua passagem. Após uma segunda parada cardíaca, seu grandioso coração pediu descanso.https://104325d3e79dad2f7cfff01e4830dd4b.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

A menina doce, inteligente de um largo e sincero sorriso continuará espalhando amor, bondade e generosidade – agora em outras praias. Eu perdi o sonho de continuar ao lado da minha companheira de viagens, parceira intelectual, mulher altruísta, mas ela me deixa o sonho de uma vida. Não são as chagas que tomaram conta do seu corpinho que sufocarão seus ensinamentos. A partir de hoje, estarei aqui na terra para complementar a missão daquela mulher livre, de voz suave e gestos calmos, logo ela que não me ensinou a te esquecer.”

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