Wittgenstein como Mestre-Escola Asperger


Autores: Claudio Ferreira Costa e Mônica Gicea C. Costa

Resumo

Esse artigo examina o comportamento do filósofo Ludwig Wittgenstein como mestre-escola em Tratenbach e adjacências. A melhor explicação para o seu comportamento é admitir que ele tinha síndrome de Asperger, e que esta foi a principal responsável por comportamentos inadequados que acabaram pondo fim a sua carreira de professor primário. O artigo trás algums luz sobre os possíveis efeitos da síndrome de Asperger na relação entre aluno e professor no caso mais incomum em que o último tem síndrome de Asperger.

Wittgenstein como mestre-escola

Ludwig Wittgenstein tem sido considerado em países de língua inglesa o mais importante filósofo do século XX. As suas duas maiores obras, o Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1922, e as Investigações Filosóficas, publicada logo após a sua morte em 1951, foram clássicos que influenciaram decisivamente o curso da filosofia analítica contemporânea.

Mas Wittgenstein não ficou conhecido apenas por ser filósofo. Ele também ficou sendo conhecido pela vida interessante que teve, pontuada de acontecimentos curiosos e decisões inusitadas. Um desses acontecimentos, aquele que nos interessa considerar aqui, diz respeito aos resultados de sua decisão de tornar-se mestre-escola após seu retorno da primeira guerra mundial, em que havia servido como voluntário.

Não se sabe precisamente o que levou Wittgenstein à decisão de tornar-se professor primário. Uma razão é que, com a publicação do Tractatus ele pensava ter resolvido, ao menos em princípio, todos os grandes problemas da filosofia, nada mais restando de importante a ser feito. Outra razão é que ele, sendo proveniente de uma das mais abastadas famílias vienenses, desejava viver a vida honesta e simples do homem comum, uma vida socialmente útil, que ele pudesse considerar verdadeiramente autêntica e que lhe fosse capaz de aperfeiçoar o caráter. Como posso me tornar um filósofo, observou ele uma vez, se não sou um homem? Sejam quais forem as razões, ele fez um curso de formação de professores primários em Viena, em que se propugnavam novos métodos de ensino pertencentes ao movimento da reforma da escola austríaca.

Wittgenstein escolheu ser mestre-escola e um dos lugares mais pobres da baixa Áustria na época, em aldeias como Trattenbach e Otterthal, onde trabalhou ao todo por pouco mais de cinco anos. Ele foi um professor dedicado, competente e de métodos originais. Mas seu comportamento era pouco social e praticamente não chegou a ter relações de amizade com os moradores da região. Ele exigia muito de seus estudantes e tomava-lhes tempo em excesso. Fazia experimentos, dissecava animais, levava os alunos a excursões. Os alunos mais dotados eram bem aceitos, mas os que não aprendiam eram punidos fisicamente. A punição física era usual nas escolas austríacas da época, apesar de estar em desacordo com o movimento de reforma. Mas Wittgenstein exagerava. Em geral as meninas eram poupadas de agressões físicas. Mas Wittgenstein era mais “democrático”: ele punia a todos com igual severidade. Os aldeões tinham mais reclamações que elogios a fazer. Finalmente, em 1926 ocorreu um acidente que pôs fim a sua carreira de mestre-escola. Devido a dois ou três tapas desferidos no rosto de um menino franzino de onze anos, o menino desmaiou. Um dos camponeses, que já tinha queixas suficientes de sua filha, agressivamente tratada por Wittgenstein, foi chamado e altercou-se com Wittgenstein na saida da escola, dizendo-lhe que ele serviria mais para adestrar animais do que para educar crianças, decidindo então chamar a polícia. Como não havia policial em Otterthal naquele dia, não foi possível que a prisão fosse efetuada, o que permitiu a Wittgenstein fugir a pé durante a noite para Viena. O episódio resultou em um processo no qual Wittgenstein precisou mentir para ser inocentado, o que lhe produziu sentimentos de culpa e de fracasso, precipitando-lhe a decisão de por fim a sua carreira de mestre-escola.

A história não termina aqui. Dez anos depois, quando trabalhava como professor na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Wittgenstein teve uma crise de arrependimento que lhe fez viajar à região de Trattenbach de trem no inverno para pedir desculpas aos alunos que ele pensava ter maltratado e às suas respectivas famílias. O aluno franzino que ele havia feito desmaiar havia morrido de leucemia aos quatorze anos, sem que isso tivesse relação com o acidente. A recepção das famílias variou da indiferença ao menosprezo. Afinal, era difícil compreender como alguém poderia se preocupar com acontecimentos passados há tanto tempo e que, no final das contas, não foram tão significativos assim.

Wittgenstein como Asperger

A nosso ver a chave para a compreensão dos acontecimentos acima relatados está na síndrome de Asperger. Essa síndrome é uma forma branda de autismo. O autismo profundo é caracterizado pela ausência de disposições de socialização inatas. Sem essas disposições, a criança é incapaz de aprender a relacionar-se com os pais e, por conseguinte, não aprende a linguagem, permanecendo para sempre com a mente de uma criança de dois ou três anos de idade. No caso da síndrome de Asperger a criança tem habilidades sociais inatas suficientes para aprender a linguagem, o que lhe dá acesso ao mundo da cultura e lhe permite desenvolver uma inteligência em muitos casos compensatoriamente até superior ao normal. Mas as dificuldades de adaptação e compreensão social persistem por toda a vida. Falta à pessoa com síndrome de Asperger empatia com as outras, o que lhe faz ter poucas e pouco duradouras amizades, que costumam acabar em mal-entendidos, permanecendo o seu comportamento social estranho e inadequado às situações, por vezes dando a impressão de que se trata de uma pessoa grosseira, mesmo que não seja essa a sua intenção. Outra característica típica dessa síndrome são os interesses obsessivos: o pensamento capaz de focar-se repetidamente por largo período de tempo em um único assunto.

Ora, segundo o Dr. Stephen Gillberg, uma das maiores autoridades mundiais em síndrome de Asperger, Wittgenstein tinha essa síndrome. Isso explica os seus comportamentos bizarros, as suas poucas e pouco duráveis amizades, o seu perfeccionismo e mesmo o seu interesse obsessivo por questões filosóficas. A isso se acrescentam traços de personalidade que nada tem a ver com a síndrome, mas que ajudam a compreender a peculiaridade de seu comportamento: Wittgenstein era latentemente homossexual, com um relacionamento consciente, mas muito difícil com as suas disposições sexuais; além disso, talvez em parte devido à educação elitista que teve, ele era uma pessoa bastante pretenciosa, dominadora e irascível. Essa conjunção de fatores é o que explica, em nosso juízo, o seu comportamento e o seu destino como mestre-escola.

A escolha que ele fez de ser professor foi em um aspecto acertada. Segundo Herminie, uma irmã de Wittgenstein, ele era um excelente didata, ensinando a matéria de forma clara e interessante. Ser professor aparentemente funciona como uma válvula de escape para uma pessoa com síndrome de Asperger, uma vez que proporciona uma maneira de relacionar-se socialmente sem maiores dificuldades, posto que as regras do relacionamento entre professor e aluno são bastante simples e claras, dependendo essencialmente do conhecimento a ser transmitido, sobre o qual a pessoa é capaz de possuir pleno domínio. A síndrome de Asperger também explica as dificuldades que Wittgenstein tinha para entender-se com os camponeses de Tratenbach e adjacências, bem como a sua falta de amigos pessoais. A confluência da síndrome de Asperger com suas disposições obsessivas e o caráter irascível, provavelmente associado à frustração causada pelo homossexualismo reprimido, em nossa opinião explicam a falta de paciência e a incapacidade de Wittgenstein de perceber que deveria limitar a sua agressividade com os alunos. Faltava a Wittgenstein suficiente empatia. Faltava-lhe a capacidade de colocar-se no lugar de cada um dos alunos diferenciadamente, entendendo as suas diversas motivações e, sobretudo, a diversidade de suas limitações. Essa falta de empatia e a agressividade resultante de frustrações é o que explica a inadequação do tratamento dado por ele aos seus alunos, que irritou os pais e acabou por precipitar o acidente acima referido.

Um episódio ilustra a falta de insight de Wittgenstein sobre as mentes de seus alunos. Certo dia uma aluna, incomodada com os maus tratos, decidiu não responder às perguntas. Wittgenstein deu-lhe um tapa e levou-a para a sala ao lado, querendo saber por que ela não respondia às perguntas. Ocorreu-lhe então de lhe perguntar se ela estava com dor de cabeça. Mentindo, ela lhe respondeu que sim. Ele ajoelhou-se diante dela e, com as mãos em prece, pediu-lhe desculpas. É evidente a boa fé do comportamento de Wittgenstein, conjugada à ingenuidade evidenciada na incapacidade de perceber que ela tinha todas as razões para mentir.

Conclusões

Muito se tem estudado sobre o efeito da síndrome de Asperger nos alunos de escola. O escolar com síndrome de Asperger não tem amigos, brinca sozinho e tem dificuldade em prestar atenção às aulas. Além disso, sendo socialmente ingênuo e encontrando-se fora do grupo, ele é vítima fácil de bullers, da agressão gratuita de colegas. O caso incomum ilustrado pelo mestre-escola Wittgenstein não é o do aluno, mas o do professor com síndrome de Asperger. O professor em questão era competente, dedicado, tinha grandes virtudes didáticas. Mesmo assim ele fracassou, por falta de compreensão da psicologia de seus alunos e do meio que o cercava. Por essa falta de compreensão, ele não sabia adequar o conteúdo ensinado às possibilidades efetivas de cada aluno, nem tinha a medida justa para o prêmio e possível punição. No caso ele fracassou por excesso de rigor, mas é fácil concluir que um Asperger com diferente temperamento e disposições poderia ter sido conduzido a um fracasso em alguma outra direção. É fácil concluir que inadequações na medida da recompensa e eventual punição na relação com os alunos, entre outras, sejam em larga medida também ocorrentes em outros casos de professores portadores de síndrome de Asperger.

BIBLIOGRAFIA:

Atwood, T.: The Complete Guide to Asperger Syndrome (Jessica Kingsley: London 2007).
Dubin, N.: Asperger Syndrome and Bullying: Strategies and Solutions (Jessica Kingsley Publications: London 2007).
Malcolm, N.: Wittgenstein: A Memoir (Oxford University Press: Oxford rev. 1984)
Monk, R.: Wittgenstein: The Duty of the Genius (Penguin Books: New York 1990).
Toulmin, S. Janik, A.: Wittgenstein’s Vienna (I.R. Dee Publisher: Chicago 1976).

Claudio Ferreira Costa: professor de filosofia na UFRN, tendo realizado graduação em medicina pela FESO, mestrado em filosofia pelo IFCS e doutorado na Universidade de Konstanz, Alemanha.
Mônica Gicea Carvalho Costa: professora do curso de pedagogia da FAL, em Natal, tendo feito graduação em psicologia pela FSCLL, em pedagogia pela OGE, e mestrado em educação pela UNISAL-SP. E-mail: monica.costa10@gmail.com

Publicado em 26 de fevereiro de 2012

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