O SER E O EGO.


[Yama continua:] “Na caverna secreta do coração, dois estão sentados à beira da fonte da vida. O ego bebe as águas doces e amargas, desfrutando as doces, rejeitando as amargas. O Ser bebe as águas doces e amargas, sem desfrutá-las nem rejeitá-las. O ego afunda nas trevas, enquanto que o Ser mergulha na luz. Assim afirmam os sábios e aqueles que adoram os cinco fogos sagrados (pañchagni) e o fogo tríplice de Naciketas”.

“Que possamos manter aceso o fogo de Naciketas, que purifica o ego e nos permite atravessar o oceano do medo em direção às margens do imperecível Brahman”.

A PARÁBOLA DO SER E A CARRUAGEM.

“Imagine o Ser como o senhor de uma carruagem realizando uma jornada. O corpo é a própria carruagem. O discernimento é o cocheiro. A mente, as rédeas.”

“Os sentidos, dizem os sábios, são os cavalos, as estradas que eles percorrem, os labirintos do desejo. Quando o Ser é confundido com o corpo, a mente e os sentidos, ele parece desfrutar o prazer e sofrer a dor”.

Quando falta ao homem discernimento e à sua mente disciplina, os sentidos disparam e tornam-se incontroláveis, como cavalos selvagens”.

“Porém, quando o homem possui discernimento e uma mente disciplinada, seus sentidos, como bem treinados cavalos, facilmente respondem ao freio”.

“Aquele que não tiver discernimento, que não tiver disciplinado sua mente, que não for puro de coração, não alcançará a meta, ficando preso ao ciclo de mortes e renascimentos sucessivos”.

“Aquele que tiver discernimento, mente disciplinada e pureza interior, alcançará a meta, e nunca mais irá sofrer nas garras da morte”.

“Aquele que tiver o discernimento por cocheiro e controlar as rédeas de sua mente, alcançará o fim da jornada, a união com o Onipresente”.

“Para além dos sentidos estão seus objetos. Para além desses objetos está a mente. Além da mente está o discernimento e, além dele, o Ser eterno”.

“Além do Ser está o imanifesto. Mais além do imanifesto está Brahman. Além de Brahman, não há nada”.

“Embora esteja presente em todas as coisas, Brahman não se revela. Ele é percebido unicamente pelo sábio que concentra sua mente e desenvolve a visão supraconsciente”.

“A prática da meditação permite ao sábio mergulhar mais e mais profundamente na consciência, indo do mundo das palavras ao mundo dos pensamentos e, deste, à sabedoria suprema”.

“Levanta-te, desperta! Havendo adquirido tuas bênçãos, compreende-as [agora]. Estreito como o fio de uma navalha, difícil de atravessar é este caminho, declaram os poetas”.

O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos. Sem início, sem fim, estando além do tempo, do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável. Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte”.

Quando esta antiga história de Naciketas, contendo os ensinamentos de Yama, for narrada ou ouvida pelos sábios, estes entrarão no mundo de Brahman.

Aquele que recitar devotamente este supremo segredo numa reunião de brahmanas ou com ocasião dos rituais para os mortos, merecerá a imortalidade!

Aqui conclui-se o terceiro canto da primeira parte [da Kaṭha Upaniṣad].

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