VISÃO GERAL DA FILOSOFIA Teravada


O Teravada promove o conceito de Vibhajjavada (Pāli), literalmente “Ensino de Análise“. Essa doutrina diz que a percepção deve vir da experiência do aspirante, a investigação crítica e raciocínio, em vez da fé cega, no entanto, as escrituras da tradição Theravada também enfatizam a atenção aos conselhos dos sábios, considerando esses conselhos e a avaliação de nossas próprias experiências para serem os dois testes pelos quais as práticas devem ser julgadas.

No Teravada, a causa da existência humana e do sofrimento (dukkha) é identificada como o desejo/ânsia (tanha), que traz consigo as impurezas (kilesas). Estas impurezas, que ligam os seres humanos ao ciclo de renascimento, são classificadas em um conjunto de dez “Grilhões“, enquanto que as impurezas que impedem a concentração (samadhi) são apresentadas em um conjunto de cinco pontos chamados de “Cinco Obstáculos“.[27] O nível de contaminação pode ser grosso, médio ou sutil. É um fenômeno que frequentemente surge, permanece temporariamente e depois desaparece. Os Theravadas acreditam que as contaminações não só são prejudiciais a nós mesmos, como também são prejudiciais aos outros. As impurezas são a força motriz de todas as desumanidades que um ser humano pode cometer.

Theravadas acreditam que estas contaminações são hábitos que nascem da ignorância (avijja) que afligem as mentes de todos os seres obscurecidos, que se agarram a eles e sua influência em sua ignorância sobre a verdade. Mas, na realidade, essas impurezas mentais nada mais são do que manchas que têm atingido a mente, criando sofrimento e estresse. Os seres obscurecidos cobiçam o corpo, sob a suposição de que ele representa um Eu, ao passo que, na realidade, o corpo é um fenômeno impermanente formado a partir dos quatro elementos básicos. Muitas vezes, caracteriza-se por terra, água, fogo e ar, nos textos Budistas mais antigos estes são definidos como abstrações que representam a qualidades sensoriais da solidez, fluidez, temperatura e mobilidade, respectivamente.[28] As impurezas mentais, frequentemente instigadas e manipuladas da mente, acredita-se ter evitado a mente de ver a verdadeira natureza da realidade. Comportamento inábil em sua vez, pode fortalecer as impurezas, mas seguindo o Nobre Caminho Óctuplo pode enfraquecer ou erradicá-las por completo.

Acredita-se também que os seres não iluminados experimentam o mundo através de suas seis portas dos sentidos imperfeitas (olho, orelha, nariz, língua sentido, tátil e mental) e usam a mente, obscurecida por impurezas, para formar a sua própria interpretação, sua percepção e a própria conclusão.[29] Em tal condição, a percepção ou a conclusão feita será baseada no que está sendo sua própria ilusão da realidade.[30] 

No estado de jhana (profunda concentração), as cinco portas dos sentidos físicos desaparecerão, as contaminações mentais serão suprimidas, e traços mentais saudáveis serão fortalecidos. A mente pode então ser usada para investigar e obter insights sobre a verdadeira natureza da realidade.

Há três níveis de contaminações. Durante a fase de passividade as contaminações ficam adormecidas na base da continuidade mental como tendências latentes (‘’anusaya’’), mas pelo impacto do estímulo sensorial elas irão se manifestar (‘’pariyutthana’’) na superfície da consciência na forma de pensamentos prejudiciais, em emoções e volições. Se eles ganham força adicional, a contaminação atingirá a fase perigosa da transgressão (‘’vitikkama’’), que irá envolver ações com corpo ou fala.

A fim de se livrar do sofrimento e estresse, os Theravadas acreditam que as contaminações precisam ser permanentemente suprimidas. Inicialmente, elas são retidas por meio da atenção plena para impedi-las de assumirem o controle sobre a ação mental e corporal. Em seguida, são arrancadas através de uma investigação interna, análise, experiência e compreensão de sua verdadeira natureza, usando ‘’Jhana’’. Este processo deve ser repetido para cada impureza. A prática irá conduzir o praticante a perceber as Quatro Nobres Verdades,

A Iluminação e o Nirvana (em sânscrito: निर्वाण, Nirvāṇa; em páli: निब्बान, Nibbāna; em tailandês: นิพพาน, Nípphaan). Nirvana é o objetivo final de Theravadas, e é dito ser um estado de felicidade perfeita onde a pessoa é liberada a repetitivo ciclo de renascimento, doença, velhice e morte.

Os Theravadas acreditam que cada indivíduo é pessoalmente responsável por seu próprio despertar e liberação, uma vez que são responsáveis por suas próprias ações e consequências (em sânscrito: karma; em páli: kamma). Simplesmente aprender ou acreditar na verdadeira natureza da realidade, tal como expostos pelo Buda não é suficiente, o despertar só pode ser alcançado através da experiência direta e realização pessoal. Um indivíduo terá que seguir e praticar o Nobre Caminho Óctuplo como ensinado por Buda para descobrir a verdade por experiência direta. Na crença Theravada, Budas, deuses ou divindades são incapazes de dar a um ser humano, o despertar ou levantar-los do estado do ciclo de nascimento, doença, envelhecimento e morte (samsara). Para os theravadas, Buda é apenas um professor do Nobre Caminho Óctuplo, enquanto os deuses ou divindades estão ainda sujeitos a raiva, inveja, ódio, vingança, desejo, cobiça, ignorância e morte.

Acredita-se que algumas pessoas praticando com seriedade e zelo pode atingir o Nirvana em uma única vida, como fizeram muitas das primeiras gerações de discípulos de Buda. Para outros, o processo pode demorar várias vidas, com o indivíduo alcançando estados mais elevados de realização. Aquele que alcançou o Nirvana é chamado um Arahant.

Acredita-se que Buda possuía o conhecimento definitivo sobre a como orientar uma pessoa através do processo de iluminação, os teravadas acreditam que os discípulos de Buda alcançam a iluminação mais rapidamente.

De acordo com as primeiras escrituras, o Nirvana alcançado pelos Arahants é idêntico ao conseguido pelo próprio Buda, pois há apenas um tipo de Nirvana.[31] Buda foi superior ao Arahants porque o Buda tinha descoberto todo o caminho sozinho, e ensinou-o aos outros (i, e., metaforicamente girando a roda do Dhamma). Arahants, por outro lado, atingiram o Nirvana em parte devido aos ensinamentos do Buda. Os Theravadas reverenciam o Buda como uma pessoa extremamente talentosa, mas reconhecem, no passado distante e futuro, a existência de outros Budas. Maitreya (Pali: Metteyya), por exemplo, é mencionado brevemente no Cânone Pali como um Buda que virá no futuro distante.

Tradicionalmente os Theravadas podem ter a convicção (ou “fé”) nos ensinamentos do Buda e da prática dos preceitos menores na esperança de ganhar alguns benefícios menores ou podem investigar e verificar através da experiência direta da verdade dos ensinamentos do Buda, praticando o jhana que faz parte do Nobre Caminho Óctuplo para sua própria iluminação.

Fundamentos do teravada[editar | editar código-fonte]

Em primeiro lugar, a filosofia teravada é um processo contínuo de análise da vida, não um mero conjunto de ética e ritual.

A teoria principal do teravada usa as Quatro Nobres Verdades, também conhecidas como as Quatro Verdades Sublimes. Na forma mais simples elas podem ser descrito como o problema, a causa, a solução e o caminho para a solução (implementação).

As Quatro Nobres Verdades[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Quatro Nobres Verdades

‘’As descrições formais das Quatro Nobres Verdades são do seguinte modo:

  1. Dukkha (sofrimento): Este pode ser um tanto amplamente classificado em três categorias. Sofrimento inerente, ou o sofrimento de todas as atividades mundanas, o que se sofre no dia-a-dia: nascimento, envelhecimento, doenças, morte, tristeza, etc. Em suma, tudo o que alguém sente referente ao apego “paixão” e / ou associando com apego “ódio” estão englobados no termo. A segunda classe de sofrimento, chamado Sofrimento devido a Mudança, implica que as pessoas sofrem devido a se unir a um estado momentâneo, que é considerado “bom”, quando esse estado é alterado, as coisas estão submetidas ao sofrimento. O terceiro, denominado ‘’Sankhara Dukkha’’, é o mais sutil. Seres sofrem simplesmente por não perceberem que eles são meros agregados sem identidade definida e imutável.
  2. Dukkha samudaya (causa de sofrimento): O desejo, o que leva ao apego, é a causa do sofrimento. Formalmente isto é o termo ‘’Tanha’’. Pode ser classificada em três impulsos instintivos. Kama Tanha é o desejo de qualquer objeto de sensação agradável (que envolve a visão, audição, tato, paladar, olfato e percepções mentais). Bhava Tanha é o desejo de estar ligado a um processo contínuo, que aparece em várias formas, incluindo o desejo da existência. ‘’Vibhava Tanha é o desejo de aversão a um processo, que inclui a não-existência e provoca a vontade de auto-aniquilação.
  3. Dukkha Nirodha (cessação do sofrimento): Não se pode, eventualmente, ajustar o mundo inteiro a seu gosto, para eliminar o sofrimento e a esperança de que assim permanecerá para sempre. Isso violaria o princípio básico da Impermanência. Em vez disso, ajusta a própria mente através do desapego para que a alteração de qualquer natureza, não tenha efeito sobre a própria paz de espírito. Em poucas palavras, a terceira Nobre Verdade implica que a eliminação da causa (desejo) elimina o resultado (sofrimento). Esta é inferida na citação bíblica pelo Buda, ‘Seja qual for resultado de uma causa, devem ser eliminados através da cessação da causa’.
  4. Dukkha Nirodha Gamini Patipada (caminho para a libertação do sofrimento): Este é o Nobre Caminho Óctuplo para a liberdade ou Nirvana. O caminho pode ser aproximadamente traduzido para português como visão correta, intenção correta, fala correta, ações corretas, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta.

As três características[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Três Marcas da Existência

Estas são as três características de todos os fenômenos condicionados no pensamento teravada.

  1. Anicca (impermanência): Impernanência é. Todos os fenômenos condicionados estão sujeitos a alterações, incluindo características físicas, as qualidades, pressupostos, teorias, conhecimento, etc. Nada é permanente, porque, para que algo seja permanente, tem de haver uma causa imutável por trás dele. Uma vez que todas as causas estão ligadas entre si de forma recursiva, não pode haver nenhuma causa definitiva e imutável.
  2. Dukkha (sofrimento): Desejo/ânsia causa sofrimento, pois o que se desejava é transitório, mudando, e perecer. O desejo por coisas impermanentes causa decepção e tristeza. Há uma tendência para rotular praticamente tudo no mundo, sendo “bom”, “confortável” ou “satisfatório”, em oposição ao “mau”, “desconfortável” e “insatisfatório”. Porque rotulando as coisas em termos de gostar e não gostar, nós criamos sofrimento para nós mesmos. Se alguém consegue deixar a tendência de rotular as coisas e libertar-se dos instintos que dirigem a pessoa a fazer o que ela própria rotule coletivamente como “gostar”, ele alcança a suprema liberdade. O problema, a causa, a solução e a aplicação, todas estas estão dentro da própria pessoa, não fora.
  3. Anatta (não-eu): O conceito de ‘’Anatta’’ pode ser explicado como a falta de uma identidade fixa, imutável, não há permanência, essência Eu. Um ser vivo é uma composição dos cinco agregados (khandhas), que é a forma física (rupa), sentimentos ou sensações (vedana), percepção (Sanna), formações mentais (sankhara), e consciência (viññana), nenhum dos quais pode ser identificado como um eu próprio. A partir do momento da concepção, todas as entidades (incluindo todos os seres vivos) estão sujeitas a um processo de mudança contínua. Um praticante deve, por outro lado, desenvolver e aperfeiçoar sua mente para um estado, de modo a ver este fenômeno.

As Três Nobres Disciplinas[editar | editar código-fonte]

O caminho para o Nirvana, ou o Nobre Caminho Óctuplo é indicado às vezes em uma forma mais concisa, conhecida como as Três Disciplinas Nobres. Estes são conhecidos como disciplina (Sīla), a treinamento da mente (Samādhi) e sabedoria (Paññā).

Meditação[editar | editar código-fonte]

Práticas da meditação budista teravada:

Meditação (em páli: Bhavana), significa o reforço positivo da mente. Amplamente classificados em Samatha e Vipassana, a meditação é a ferramenta chave implementada para atingir o jhanaSamatha, literalmente, significa “fazer habilidosamente”, e tem também outras acepções, entre as quais “tranquilizador”, “calmante”, “visualizar” e “realização”. Vipassana significa “visão” ou “entendimento abstrato”. Neste contexto, a meditação Samatha faz com que uma pessoa se torne habilidosa na concentração da mente. Uma vez que a mente está suficientemente concentrada, Vipassana permite ver através do véu da ignorância.

Nos discursos do Cânone Pali, o Buda frequentemente instrui seus discípulos para a prática de samadhi (concentração), a fim de estabelecer e desenvolver o jhana (concentração total). Jhana é o instrumento utilizado pelo próprio Buda para penetrar na verdadeira natureza dos fenômenos (através da investigação e da experiência direta) e para alcançar a iluminação.[32] Concentração Correta (samma-samadhi) é um dos elementos do Nobre Caminho Óctuplo. O Samadhi pode ser desenvolvido a partir de atenção à respiração (Anapana-Sati), a partir de objetos visuais (kasina) e da repetição de frases. A lista tradicional contém 40 objetos de meditação (kammaṭṭhāna) a serem utilizados para meditação Samatha. Cada objeto tem um objetivo específico, como por exemplo, a meditação sobre as partes do corpo (Kayanupassana ou kayagathasathi) resultará em uma diminuição do apego aos nossos próprios corpos e dos outros, resultando em uma redução dos desejos sensuais. Mettā (bondade amorosa) gera o sentimento de boa vontade e alegria para nós e outros seres; a prática de mettā serve como um antídoto contra a má vontade, fúria e medo.

Níveis de Realização[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Quatro Estágios da Iluminação

Através da prática, praticantes (Teravada) podem alcançar quatro estágios da iluminação:[33]

  1. Sotapanna (“Aquele que Entrou na Correnteza”): Aqueles que destruíram os três primeiros grilhões (falsa visão do ‘’Eu’’, a dúvida e o apego a ritos e rituais) estarão a salvo de cair em estados de miséria (não haverá renascimento como um animal, preta (fantasma, ou um inferno estar). No máximo, eles terão de renascer apenas sete vezes mais antes de atingir o Nirvana.
  2. Sakadagami (“Uma vez Retornantes”): Aqueles que destruíram os três primeiros grilhões e diminuíram os grilhões da luxúria e do ódio atingirão o Nirvana depois de renascer, uma vez mais no mundo.
  3. Anagami (“Não Retornantes”): Aqueles que destruíram os cinco grilhões inferiores, que os seres permanecem ligados ao mundo dos sentidos. Os Não Retornantes nunca mais regressam ao mundo humano e depois que eles morrem, eles vão nascer nos mundos celestes elevados, lá alcançarão o Nirvana. Atingir o estado de não-retorno é retratado nos textos mais antigos como meta ideal para os leigos.[34]
  4. Arahants: Aqueles que alcançaram a Iluminação (Bodhi), realizando o Nirvana, e ter atingido a qualidade da imortalidade está livre de todas as impurezas da sujeira mental. Sua ignorância, desejo e apegos acabaram. Atingir o estado de arahant é retratado nos textos mais antigos como meta ideal para os monges.[34]

Escrituras[editar | editar código-fonte]

A escola teravada defende o Cânone Pali, ou Tipitaka, como a coletânea de textos de maior autoridade sobre os ensinamentos do Buda Gautama. O Sutta e Vinaya, partes do Tipitaka, mostram consideráveis sobreposições de conteúdo sobre o Agamas, as coleções paralelas utilizados por escolas não-teravada da Índia, que foram preservadas em chinês e, parcialmente, em sânscritoprácrito e tibetano, e os vários Vinayas não-teravada. Nesta base, estes dois conjuntos de textos em geral são os textos mais antigos e de maior autoridade sobre o budismo pelos estudiosos e pesquisadores. Acredita-se também que grande parte do Cânone Pali, que ainda é usado pelas comunidades Theravāda, foi transmitida ao Sri Lanka, durante o reinado de Asoka. Depois de ter sido transmitida oralmente (como era o costume naqueles dias de textos religiosos) por alguns séculos, foram finalmente autorizados a escrever no último século a.C., em que o teravada geralmente descreve como quarto concílio, no Sri Lanka. O teravada é uma das primeiras escolas budistas colocou o conjunto completo de seu cânone budista na escrita.[35]

Grande parte do material do Cânone não é especificamente “Theravada”, mas ao invés é uma coleção dos ensinamentos que essa escola preservou do corpo dos primeiros ensinamentos não=sectários. De acordo com Peter Harvey:

Os teravadas podem ter adicionado textos no Cânone por algum tempo, mas eles não parecem ter alterado o que já tinha de um período anterior.[36]

Tipitaka Pali é composto por três partes: o Vinaya PitakaSutta Pitaka e Abhidhamma Pitaka. Destes, acredita-se que o Abhidhamma Pitaka possa ser uma adição posterior aos dois primeiros Pitakas, que, na opinião de muitos estudiosos, foram os dois únicos Pitakas no momento do Primeiro Concílio Budista. O Abhidhamma Pali não foi reconhecido fora da escola Theravada.

No século IV Budagosa escreveu os primeiros comentários pális para grande parte do Tipitaka (que se baseavam em manuscritos muito mais antigos, principalmente em cingalês antigo), e depois dele muitos outros monges escreveram vários comentários, que se tornaram parte do patrimônio teravada. Estes textos, no entanto, não têm a mesma autoridade que o Tipitaka. O Tipitaka é composto de 45 volumes na edição da Tailândia, 40 na Birmânia e 58 na cingalesa.

Os comentários, juntamente com o abidarma, definem especificamente o patrimônio teravada. Versões relacionados do Sutta Pitaka e Vinaya Pitaka eram comuns a todas as primeiras escolas budistas, e, portanto, não define apenas Theravada, mas também a outras escolas budistas antigas, e talvez o próprio ensinamento do Buda Gautama.

Os budistas Theravada consideram muito do que é encontrado nas coleções escriturais chinesas e tibetanas como sendo apócrifo, o que significa que elas não são autênticas palavras do Buda Gautama.[37]

Vida leiga e monástica[editar | editar código-fonte]

Jovem monge birmanês

Tradicionalmente, o budismo teravada observou uma distinção entre as práticas adequadas para uma pessoa leiga e as práticas realizadas por monges ordenados (nos tempos antigos, havia um corpo separado das práticas de freiras). Embora a possibilidade de uma significativa realização por leigos não é ignorada pelos Theravada, que ocupa um destaque significativamente menor do que nas tradições Mahayana e Vajrayana. Esta distinção – bem como a distinção entre as práticas preconizadas pelo Cânone Pali, e os elementos religiosos folclóricos abraçado por muitos monges – tem motivado alguns pesquisadores a considerar o budismo Theravada ser composto de várias tradições distintas, sobrepondo-se, mas embora ainda distintas. Mais importante ainda, o antropólogo Melford Spiro em seu trabalho Budismo e Sociedade separa o Theravada birmanês em três grupos: Budismo Apotropaico (direcionado com o fornecimento de proteção contra espíritos malignos), Budismo Kamático (preocupados em acumular méritos para um futuro bem renascimento), e o Budismo Nibânico (direcionado a realização da liberação do Nirvana, como descrito no Tipitaka). Ele salienta que todos os três estão firmemente enraizados no Cânone Pali. Essas categorias não são aceitas por todos os estudiosos, e são geralmente considerados como não-exclusivos por aqueles que os empregam.

O papel dos leigos tem sido tradicionalmente ocupado principalmente com atividades que são comumente designadas como realizadoras de mérito (abrangidos pela categoria de Spiro, budismo kamático). Atividades de mértio incluem a oferta de comida e outras necessidades básicas para os monges, fazendo doações aos templos e mosteiros, queimando incenso ou velas de iluminação em frente a imagens do Buda, e cânticos de proteção ou de mérito dos versos do Cânone Pali. Alguns praticantes leigos tem sempre escolhido assumir um papel mais ativo nos assuntos religiosos, mantendo ainda o seu status de leigos. Leigos dedicados, homens e mulheres, por vezes, atuam como curadores ou tutores para seus templos, tomando parte na planificação e gestão financeira do templo. Outros podem oferecer um tempo significativo ao atendendo as necessidades mundanas de monges locais (por cozimento, limpeza, manutenção das instalações do templo, etc.). Atividades leigas tradicionalmente não se estendem ao estudo das escrituras Pali, nem a prática da meditação, embora no século XX estas áreas se tornaram mais acessíveis aos leigos da comunidade, especialmente na Tailândia.Monges Tailandeses em peregrinação com seus mantos açafrões.

Um número de monges seniores na Tradição da Floresta tailandesa, incluindo Ajahn BuddhadasaTa Luang Bua Maha, Ajahn Plien PanyapatipoAjahn Pasanno e Ajahn Jayasaro, começaram a ensinar retiros de meditação no fora do mosteiro para discípulos leigos.

No Reino Unido, Ajahn Chah um discípulo de Ajaan Mun, criou uma linhagem monástica em Chithurst em West Sussex, “Cittaviveka”, com seu discípulo Ajahn Sumedho, então “Amaravati” foi fundada em Hertfordshire, que tem um centro de retiro para leigos retiros. Ajahn Sumedho estendeu este a Harnham em Northumberland sendo Aruna Ratanagiri sob a orientação atual da Ajahn Munindo, outro discípulo de Ajahn Chah.

O maior objetivo do budismo teravada, o Nirvana (ou Nibbana em Páli) é atingido através do estudo e da prática da moralidade, meditação e sabedoria (silasamadhipanna). O objetivo do Nirvana (e suas técnicas associadas) tem sido tradicionalmente visto como o domínio dos monasticamente plenamente ordenados, que muitas das mesmas técnicas podem ser usadas por leigos para gerar felicidade em suas vidas, sem focar em Nirvana. O estilo monástico no Teravada pode ser genericamente descrito como sendo dividido entre o papel do monge erudito (geralmente urbanos) e o monge meditador (geralmente em áreas rurais ou florestais). Ambos os tipos de monges servem as suas comunidades como líderes espirituais e oficiantes ao presidir cerimônias espirituais e fornecer instruções Budistas básicas sobre a moralidade e os ensinamentos.

Monges eruditos empregam o caminho de estudar e preservar a literatura Pali Theravada. Eles podem dedicar pouco tempo para a prática da meditação, mas pode alcançar um grande respeito e notoriedade, tornando-se mestres de uma seção especial da Canon Pali ou em seus comentários. Mestres do Abhidhamma, chamado Abhidhammika, são particularmente respeitadas na tradição escolástica.

Monges meditadores, muitas vezes chamados de monges da floresta, devido à sua associação com determinadas tradições de habitarem a natureza, são considerados especialistas em meditação. Enquanto alguns monges da floresta podem realizar estudos significativos do Cânone Pali, em geral espera-se que os monges meditadores aprendam principalmente a partir de suas experiências de meditação pessoal e professores, e não sabem muito mais do Tipitaka que o necessário para participar da vida litúrgica e para fornecer um alicerce fundamental para os ensinamentos budistas. Mais do que a tradição escolástica, a tradição de meditação está associada com a realização de certos poderes sobrenaturais descritas em ambas às fontes Pali e a tradição popular. Estes poderes incluem a realização do Nirvana, leitura da mente, do poder sobrenatural sobre os objetos materiais e os seus próprios órgãos corporais, ver e conversar com os deuses e os seres vivos no inferno, e lembrar as vidas passadas. Estes poderes são chamados abhiñña. Às vezes, o restante do fragmento ósseo cremado de um monge da floresta realizado pode ser possível transformarem-se em relíquias de cristal (sārira-dhātu).

Ordenação[editar | editar código-fonte]

Candidate for the Buddhist priesthood is ordaining to is a monk in a church.jpg

A idade mínima para ordenação como um monge budista é de 20 anos, contados a partir da concepção do óvulo. No entanto, os meninos abaixo desta idade são permitidos se ordenarem como noviços (samanera), realizando uma cerimônia como o Shinbyu na Birmânia. Noviços raspam a cabeça, vestem o manto amarelo, e observam dez preceitos básicos. Apesar de nenhuma idade mínima específica para os noviços é mencionada nas escrituras, tradicionalmente, os rapazes com sete são aceitos. Essa tradição segue a história do filho do Buda, Rahula, que foi autorizado a tornar-se um noviço na idade de sete anos. Os monges (bikkhus) seguem 227 regras de disciplina, enquanto que as monjas (bikkhunis) seguem 311 regras.

Na maioria dos países teravada, é uma prática comum para os homens jovens em ordenarem-se como monges, por um período fixo de tempo. Na Tailândia e Birmânia, os homens jovens em geral ordenam-se durante três meses no período de Retiro das Chuvas (Vassa), apesar de períodos mais curtos ou mais longos de ordenação não são raros. Tradicionalmente, a ordenação temporária é mais flexível no Laos. Uma vez que tenha sido submetida a sua coordenação inicial, os homens jovens, homens Laoneses foram autorizados temporariamente a ordenar novamente a qualquer momento, embora os homens casados devam pedir autorização da sua esposa. Através do Sudeste Asiático, há pouco estigma ligado a deixar a vida monástica. Monges regularmente deixam os mantos depois de adquirir uma educação, ou quando obrigados por obrigações familiares ou problemas de saúde.

Ordenando-se como monge, mesmo que por um curto período, é visto como ter muitas virtudes. Em muitas culturas asiáticas do sudeste, é visto como um meio para o jovem “reembolsar” seus pais devido ao trabalho e esforço deles a fim de criá-lo, porque o mérito de sua ordenação reverte para eles também. Homens tailandeses que se ordenaram como uns monges podem ser vistos como um bom partido por mulheres da Tailândia, que se referem aos homens que serviram como monges, com uma expressão coloquial que significa “maduro” indicando que eles são mais maduros e prontos para o casamento. Particularmente nas áreas rurais, ordenação temporária de rapazes e homens jovens, tradicionalmente deu aos camponeses meninos uma oportunidade de ganhar uma educação nas escolas dos templos, sem se comprometer com uma vida monástica permanente.

No Sri Lanka, ordenação temporal não é praticada, e um monge deixando a ordem é ação desaprovada. A influência contínua do sistema de castas no Sri Lanka pode desempenhar um papel no tabu contra ordenação temporal e deixar a vida monástica. Embora os nikayas monásticos do Sri Lanka são muitas vezes organizados em linhas de castas, os homens ordenam que os monges passem temporariamente longe do sistema de castas tradicionais, e, como tal, durante seu tempo como monges podem agir (ou serem tratados) de uma forma que não estaria em consonância com as funções esperadas e privilégios da sua casta.

Alguns monges Theravada conhecidos são: Ajahn Mun BhuridattaAjahn ChahLedi Sayadaw, Ajahn Plien PanyapatipoAjahn SumedhoAjahn BrahmBhikkhu BodhiBuddhadasaMahasi SayadawNyanaponika TheraPreah Maha GhosanandaSayadaw U PanditaAjahn AmaroAjahn ThanissaroWalpola RahulaBhante Henepola Gunaratana, e Bhante Yogavacara Rahula.

As práticas monásticas[editar | editar código-fonte]

Um monge budista realizando cânticos de oração noturnos dentro de um mosteiro localizado perto da cidade de Kantharalak, Tailândia (janeiro 2005).

As práticas geralmente variam em diferentes sub-escolas e monastérios no teravada. Mas, no monastério da floresta mais ortodoxo, o monge geralmente modela sua prática e estilo de vida como o do Buda e sua primeira geração de discípulos por viver perto da natureza em florestas, montanhas e cavernas. Monastérios da Floresta ainda mantém vivas as antigas tradições através de conformidade com o código de disciplina monástica budista em todos os seus detalhes e desenvolvimento de meditação em florestas isoladas.

Em uma típica rotina diária no mosteiro durante o período de vassa, três meses, o monge tem de acordar durante madrugada e vai começar o dia com o grupo de cânticos e meditação. Ao amanhecer, os monges vão sair descalços para as aldeias próximas para receber esmolas e terão uma única refeição durante o dia e sempre antes do meio dia, comendo da tigela mendicante com a mão. A maior parte do tempo é gasto estudando o Dhamma e em meditação. Às vezes, o abade ou um monge sênior dará uma palestra do Dhamma aos visitantes. Leigos que ficam no mosteiro terão que respeitar os tradicionais oito preceitos budistas.

Após o término do período de Vassa, muitos dos monges vão sair para longe do mosteiro para encontrar um local remoto (geralmente na floresta), onde eles podem pendurar suas barracas e guarda-chuva, onde ele seja adequado para o trabalho de auto-desenvolvimento. Quando eles vão andando, andam descalços, e vão para onde eles se sentem inclinados. Somente aqueles requisitos que são necessários serão levados junto. Estes consistem geralmente da tigela mendicante, os três mantos, um pano de banho, uma tenda de guarda-chuva, mosquiteiro, uma chaleira de água, um filtro de água, um lâmina de barbear, sandálias, algumas pequenas velas e uma lanterna de vela.

Os monges não fixam os seus horários para meditação andando ou sentada, pois assim como eles estão livres eles começam a fazê-lo, nem determinar por quanto tempo eles vão para meditar. Alguns deles, por vezes, andam a pé desde o anoitecer ao amanhecer enquanto que em outros momentos eles podem andar por entre duas a sete horas. Alguns podem decidir jejuar durante dias ou ficar em lugares perigosos, onde vivem os animais ferozes, a fim de ajudar a sua meditação.

Os monges que têm sido capazes de alcançar um elevado nível de realização serão capazes de guiar os monges juniores e budistas leigos para os quatro graus de realização espiritual.

Devoto Leigo[editar | editar código-fonte]

Em páli a palavra para um homem devoto leigo é Upasaka. Upasika é o seu equivalente feminino. Uma das funções dos seguidores leigos, como ensinado pelo Buda, é cuidar das necessidades dos monges e freiras. Estão a assistirem os monges ou freiras a não sofrerem com a falta dos quatro requisitos: alimento, vestuário, abrigo e remédios. Como nem monges, nem freiras são autorizados a ter uma profissão, eles dependem inteiramente dos leigos para o seu sustento. No retorno para esta caridade, eles são esperados para levar uma vida exemplar.

Na Birmânia e na Tailândia, o mosteiro foi e ainda é considerado como um lugar de aprendizagem. Na verdade, hoje cerca de metade das escolas primárias na Tailândia estão localizadas em mosteiros. Rituais religiosos e cerimônias em um monastério são sempre acompanhadas por atividades sociais. Em tempos de crise, é para os monges que as pessoas trazem seus problemas para receberem um conselho.

Tradicionalmente, um monge habilidoso dará um sermão quatro vezes por mês: quando a Lua cresce e míngua e um dia antes das luas nova e cheia. Os leigos também têm uma chance de aprender a meditação dos monges durante estes tempos.

Também é possível para um discípulo leigo se tornar iluminado. Bhikkhu Bodhi observa que “Os Suttas e comentários registram alguns casos de discípulos leigos atingirem o objetivo final do Nirvana. Entretanto, estes discípulos atingem o estado Arahant à beira da morte ou entram na ordem monástica logo após a sua realização. Eles não continuam a morar em casa, como um chefe de família Arahant, porque a habitação comum é incompatível com o estado de alguém que tenha cortado todos os desejos.”[38]

Influências[editar | editar código-fonte]

Segundo o linguista Zacharias P. Thundy a palavra “Theravada” pode ter sido helenizada em “Therapeutae“, para citar uma ordem cenobítica perto de Alexandria descrito em torno do primeiro século d.C. As semelhanças entre os Therapeutae e monasticismo Budista, combinando com as evidencias indianas de atividade missionária Budista para o Mediterrâneo em torno de 250 a.C. (o Éditos de Ashoka). Os Therapeutae teriam sido os descendentes dos emissários de Asoka para o Ocidente, e teriam influenciado a formação inicial do cristianismo.[39] No entanto, a enciclopédia Macmillan do Budismo[40] afirma que as teorias das influências do budismo no cristianismo primitivo são, sem fundamentação histórica.

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